As Esganadas

   Cover
   As Esganadas


             J Soares














             as esganadas



















             romance





































   As Esganadas
   Para Flavinha,
    sempre
   As Esganadas



   Ao amigo fraterno Hilton Marques,
    que, de novo,
    teve a pacincia de ler e reler antes.
    Obrigado.
   As Esganadas



   Agradeo, pela valiosa colaborao
    nas pesquisas, a Paulo Scali, Bird Clemente,
    Mario Sergio Cortella, Caio Franco,
    Mrio Eduardo Viaro, Darllan Donadio,
    Derico Sciotti, Carla Camurati,
    Paulo Vinicius Coelho, Luiz d.Rio,
    Luiz Carlos Leal Prestes Junior,
    Roger Ancilloti, Sergio Rabello Alves,
    Cludio Cerqueira Lopes,
    e Antnio Srgio Ribeiro, arquivo vivo
    da nossa histria. Tambm a Claudia Colossi,
    amiga e fiel escudeira.
   As Esganadas



   ... (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou  janela.
   O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira
    [das calas?).
    Ah, conheo-o;  o Esteves sem metafsica.
   (O Dono da Tabacaria chegou  porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus  Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperana,
    e o Dono da Tabacaria sorriu.
   lvaro de Campos (Fernando Pessoa),
    "Tabacaria"
   As Esganadas



   Diariamente, a mulher gorda morre
    uma srie de pequenas mortes.
   Shelley Bovey
   As Esganadas
   prlogo
   Outono de 1938
   "Ateno, muita ateno, amigo ouvinte da rdio prg-3, Tupi do Rio de Janeiro! A Capital Federal, conhecida pela tranquilidade que oferece a seus habitantes,
enfrenta momentos de insegurana e mistrio! Trs jovens de conhecidas famlias da sociedade carioca sumiram sem deixar vestgios, num intervalo de poucos dias.
O caso assemelha-se s tramas de fitas de suspense do cinema americano. Nosso estimado chefe de polcia, capito Filinto Mller, promete uma breve soluo para o
caso. O eminente militar declarou que a presteza das investigaes nada tem a ver com o fato das desaparecidas serem filhas de figuras proeminentes do Estado, pois,
segundo ele, no governo democrtico do presidente Getlio Vargas todos os brasileiros so igualmente tratados.
   "Essa informao chega aos vossos ouvidos numa gentileza do Elixir Phospho-Kola de Giffoni. Para fadiga mental, nervosa e muscular, o Phospho-Kola de Gif-foni
 saboroso, granulado e glicerofosfatado. O Flash Phospho-Kola volta a qualquer momento com as ltimas notcias. Quem vos fala diretamente dos estdios da rua Santo
Cristo  Rodolpho d'Alencastro."
   As Esganadas
   1
   A gorda  a ltima freguesa a deixar o tradicional ch da tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gonalves Dias em direo  rua do Ouvidor. Sua bata branca
 amarelada pela infinita quantidade de molhos e caldos nela derramada. Farelos antiqussimos apegam-se como nufragos desesperados aos babados da blusa. A gorda
 bela. Bela e voraz.  porta da confeitaria, ainda segura meia fatia de torta de morango na mo esquerda, enquanto a direita envolve um enorme clair de chocolate.
A gorda gruda-se quelas guloseimas como se delas dependesse sua vida. Ela  gorda, bela, voraz e gulosa.
   Um dilema a aflige  medida que avana pela calada estreita demais para ela: deveria terminar primeiro a torta ou, antes, abocanhar o clair? Seus pequeninos
olhos porcinos, indecisos, olham para os acepipes presos firmemente entre seus dedos rolios. Ela  gorda, bela, voraz, gulosa e indecisa.
   Finalmente, trmula e ofegante, numa anteviso gozosa dos prazeres que as vidas papilas da sua lngua sentiriam, a gorda atocha na boca o pedao de torta. Mastiga
e engole automaticamente, num movimento simultneo aperfeioado por dcadas de prtica. Limpa a mo na saia cinza livrando-se dos restos do creme chantilly. As listas
brancas sobre a saia formam a imagem grotesca de um quadro abstrato. Ela  gorda, bela, voraz, gulosa, indecisa e lambuzona.
   A gorda chega  rua Primeiro de Maro, agarrando o gigantesco clair de chocolate com as duas mos, como se fosse um imenso falo negro. Antes que desfira a primeira
dentada na cobiada iguaria, sua bisbilhotice  atiada por um furgo branco fosco estacionado quase na esquina da rua. O que alerta a ateno da gorda so os diversos
doces e bombons expostos numa grande prateleira que sai do veculo, e o cartaz empunhado por um homem ao lado onde se l em letras garrafais:
   degustao grtis!
    prove os saborosos petiscos da ptisserie doces finos e ajude-nos a escolher.
    nenhuma experincia necessria.
   Ela enfia na boca o clair de uma s vez e se aproxima daquele Eldorado gastronmico sem saber que se avizinha da sua ltima tentao.
   """"
   O homem  magro. Mais do que magro. Esqulido, seco, macilento. Serviria perfeitamente de modelo para uma caricatura da Morte, porm sua ligao com Tnatos superava
o trao de qualquer desenhista. Herdara do pai a funerria Estige, denominao do rio que separava os mortos dos vivos na mitologia grega. Sua me, Odlia Barroso,
possuidora de um senso de humor discutvel, o batizara de Caronte, como o barqueiro encarregado da travessia das almas. O pai, Olavo Eusbio, concordara. Olavo sujeitava-se
a todos os caprichos da mulher.
   Localizada  rua Real Grandeza, perto do cemitrio So Joo Batista, a Estige , sem dvida, a mais prestigiosa da cidade. Seus carros sofisticados e caixes
de luxo conferem status a simples exquias. As salas especiais para velrios rivalizam com os suntuosos sales de baile do Rio de Janeiro.
   Caronte  alto, muito alto. Vestido de negro, com cabelos longos e ralos, ele parece ainda mais emaciado. De uma palidez cadavrica, sua pele fenecida confunde-se
com a dos defuntos que costuma transportar. Lavara e vestira seu primeiro cadver aos treze anos.
   Quando Caronte completou dezessete, o pai, contrariando a esposa pela nica vez na vida, o enviou  Alemanha. Durante um ano, ele estudou com Friedrich Berminghaus,
professor do Colgio Real de Qumica e diretor do Departamento de Anatomia da Universidade de Munique. L, aprendeu tudo sobre tanatopraxia, a moderna tcnica de
embalsamamento que preserva a aparncia natural do corpo, minimiza as alteraes fisionmicas e permite que o velrio se estenda alm das tradicionais vinte e quatro
horas.
   Berminghaus fora discpulo de August von Hofmann, descobridor do formaldedo. Esse aprendizado teve seu preo. Na nsia de aperfeioar-se, Caronte se descuidava
no uso do formol. Trabalhava horas a fio, obsessivamente, manipulando sem a proteo necessria os frascos. Os produtos causavam-lhe feridas na pele e provocavam
um prurido intermitente. Berminghaus o prevenira amide do perigo:
   - Vorsicht, Caronte! Das ist sehr gefhrlich!
   - Kein Problem, Herr Doktor...
   Como desde a infncia Caronte tinha dentes, cabelos e unhas frgeis, e manchas pardas espalhadas pelo corpo, as quais ocultava com o uso de camisas de gola alta
e mangas longas, ele no dava muita ateno s alteraes causadas pela qumica. Depois de terminar o curso, Caronte voltou para o Rio. Trouxe com ele as mazelas
que o acompanhariam para sempre: chagas no corpo, irritao nas mucosas e distrbios no sistema nervoso. No se importava. Para ele, a morte era um meio de vida.
   A funerria Estige passara de pai para filho desde a Guerra do Paraguai. Seu bisav enriquecera devido a um contrato feito com o governo, sem licitao, intermediado
pela namorada de um funcionrio ligado ao gabinete do Ministrio da Guerra. Tal contrato cedia exclusividade para o funeral dos soldados no identificados mortos
no conflito. O escndalo da negociata fora abafado quando a imprensa descobriu que havia um nmero maior de enterros do que de combatentes mortos.
   Olavo Eusbio Barroso se enforcou no lustre da sala de jantar no dia em que completou cinquenta anos. Envergava a mesma sobrecasaca antiga das cerimnias fnebres.
No deixou carta ou bilhete, mas Caronte sabia que o suicdio era o resultado de anos sofrendo passivamente o domnio autoritrio da mulher.
   Caronte queria se livrar da funerria e ingressar no recm-fundado Conservatrio Brasileiro de Msica. Antes de ser obrigado a participar dos negcios da famlia,
seu sonho de infncia era ser maestro. Aprendeu a tocar piano de ouvido numa velha pianola encostada no poro de casa e sabia de cor a obra dos grandes clssicos.
Na Alemanha, assistia a todos os concertos da Mnchner Philharmoniker e adorava as peras de Wagner no Festival de Bayreuth, cidade prxima a Munique. Quando participou
sua inteno  me, Odlia olhou-o com desprezo e respondeu lacnica: "Nem pensar. Gastamos muito dinheiro na sua educao".
   Caronte odiava a me. Destilava por ela um dio figadal desde a sua festa de aniversrio de dez anos, quando, em vez do bolo, ela ps na sua frente um prato com
meio mamo enfeitado com as velas. O menino famlico soprou e odiou. Ao contrrio dele, Odlia era gorda. Muito gorda. Imensa. Parou de se pesar quando sua compleio
obesa, de um metro e setenta de altura, acusou cento e quarenta quilos numa balana de armazm. Seu rosto era lindo, de uma beleza clssica. Comeara a engordar
depois da gravidez do nico filho. No fosse o excesso de peso, seu corpo suscitaria a inveja das antigas amigas do liceu. A me tinha medo de que seu filho engordasse.
Um pnico desnecessrio, porque Caronte herdara as caractersticas fsicas do pai, magro como ele. O metabolismo acelerado do menino queimava as tortas e pastis
deglutidos s escondidas antes mesmo que ele terminasse de ingeri-los. Apesar dos apelos inteis do pai, nada convencia Odlia. Ela mantinha o filho sob dieta rigorosa.
Cada prato minguado de legumes que a tirana lhe empurrava goela abaixo aulava o dio que ele nutria pela me obesa. O que agravava essa tortura eram os cardpios
portugueses que ela mesma planejava com esmero, usando receitas originais de sua av natural da regio do Minho. Odlia costumava dizer ao prepar-los: " o meu
passatempo favorito. Melhor que faz-los, s com-los!", e desfechava uma gargalhada assustadora, sacudindo seu triplo queixo em cascata.
   Foi num desses dias, ao ver a me aprontando uma bacia de Ovos Moles d'Aveiro, que Caronte decidiu mat-la.
   A morte de Odlia foi considerada acidental. Na verdade, o "acidente" havia sido provocado por um empurro do filho. O corpo fora encontrado no cho liso da cozinha
como se ela tivesse escorregado e batido com a base do crnio na quina do forno, quando preparava um imenso Pudim Abade de Priscos. Antes de chamar a polcia, Caronte
debruou-se sobre o fogo e sorveu avidamente a calda caramelada do pudim mesclada ao sangue da me. Um espasmo sacudiu todo o seu corpo e a ndoa escura que se
alargava na frente das suas calas revelava o fruto de um orgasmo incontrolvel.
   Um dia, Caronte v uma gorda na rua lambendo um cone de sorvete. O rosto lindo lembra-lhe a me. Servindo-se da ponta da lngua como um lagarto, a gorda desempenha
movimentos geis e lascivos em torno da bola gelada. Com percia, ela evita que as gotas escorram pelos dedos gorduchos.  quando Caronte percebe que jamais se livrar
da me, a no ser que a mate sempre, sempre. Resolve assassin-la novamente em cada gorda que encontrar. A partir de ento, ele s vive para v-la morrer. Comea
a temporada de caa s gordas.
   Caronte  agora rico e independente. Pode fazer o que quiser do seu tempo. Descobre que  dotado de ouvido absoluto, a capacidade de identificar cada uma das
notas da escala cromtica. Estuda msica e aprende a tocar, com facilidade, todos os instrumentos de corda. O piano  o seu predileto. Para que a chacina das vtimas
relembrasse de forma indelvel a morte de Odlia, atrairia cada uma delas com as receitas portuguesas da me. Pratica intensamente, em segredo, at se transformar
num confeiteiro e mestre-cuca melhor que muitos profissionais do ramo. Pela primeira vez na vida, come.
   Um dos carros funerrios exclusivos da sua agncia  de 1931 e tem uma caracterstica original. Caronte  o nico no Brasil a ter esse modelo. A inovao consiste
numa larga porta dupla lateral para a entrada do caixo, a qual no se d mais pela porta traseira. Uma prancha mvel sobre trilhos gira para fora, fazendo uma curva
em direo  calada, o que facilita a colocao do atade sem expor os carregadores ao trnsito.  sobre essa prancha que Caronte dispe as iscas irresistveis.
   """"
   Seu nome  Cordlia e no Gordlia, como a chamavam as coleguinhas do primrio. Fartavam-se de rir do trocadilho com a crueldade inocente tpica das crianas.
Cordlia Casari tem trinta e cinco anos e  gulosa desde menina. Sua av italiana costumava dizer durante as refeies, quando ela se empapuava de nhoque: "No
seja esganada, menina! Che pecatto, cos bella e cos ghiottona...". Cordlia vem correndo com a rapidez que seus passos curtos permitem. As coxas rolias roam
uma na outra prenunciando uma assadura incmoda. Ela no liga. No  a primeira vez que isso acontece. Depois, em casa, tratar com unguento sua pele em carne viva.
   O rosto habitualmente sisudo de Caronte se abre num largo sorriso. Parece o riso morto das mscaras de Carnaval. A boca se rasga de orelha a orelha, deixando
 mostra dentes perfeitos e de uma alvura excessiva, caractersticas peculiares s falsas denties. Sua voz  sedutora e aveludada quando ele convida:
   - Ser que a senhorita nos daria a honra de submeter os nossos doces ao seu delicado paladar?  grtis, sirva-se  vontade...
   A gorda, tomada por um fervor quase religioso, se acerca da prateleira de doces. Chega-se aos pulos, como um passarinho seduzido pela serpente. Sua indeciso
se manifesta de novo:
   - So tantos, meu Deus, e to lindos!
   Ela se inclina para cheir-los, as narinas pulsando de prazer. A rua est deserta, no h por que se acanhar. Cordlia lambe o chantilly que cobre uma torteleta
de morango.  nesse instante que Caronte a derruba sobre a prateleira esmigalhando os doces. Antes que ela se d conta, ele tapa seu nariz repleto de creme com o
leno empapado em clorofrmio. Em segundos, ele cobre o corpo inerme com a mortalha que traz dobrada no banco da frente, guarda o cartaz na bolsa do carro e empurra
a presa desmaiada para dentro do furgo. A carga gira nos trilhos como os bondes nos terminais. Ele senta-se ao volante e acelera a limusine morturia, sinistro
como o Caronte mitolgico, singrando com sua carga pelo sombrio rio Estige.
   As Esganadas
   2
   Rio de Janeiro, vero de 31. Tobias Esteves desembarca do celebrado navio ingls Alcantara, da Royal Mail Steam Packet Company. Veio na segunda classe do luxuoso
transatlntico graas aos seus contatos com o despachante da Royal Mail em Lisboa. Sendo um dos mais importantes da chamada Rota de Ouro e Prata, com uma velocidade
mdia de dezessete ns, o Alcantara liga a Europa  Amrica do Sul em quinze dias, transportando mais de dois mil passageiros. Entre os da primeira classe encontram-se
dois membros da realeza, o prncipe de Gales e o duque de Kent, que seguem para Montevidu, onde acontece a Exposio do Imprio Britnico.
   Inspector da polcia portuguesa durante oito anos, Tobias Esteves  afastado do cargo quando confessa sua participao no falso suicdio do mago ingls Aleister
Crowley. Crowley, um farsante de reputao internacional, vem a Lisboa para conhecer o poeta Fernando Pessoa, com quem se corresponde sobre horscopos. Pessoa, fascinado
pelo oculto, se encanta com os textos do Mestre Therion, pseudnimo do pretenso feiticeiro.
   Crowley passa por momentos difceis. Expulso da Frana em 1929, procurado pela polcia em Londres, o aventureiro resolve desaparecer. Escolhe Pessoa como cmplice
para esse fantstico efeito de ilusionismo.
   O empulhador chega a Lisboa em setembro de 1930 e  recebido no porto pelo poeta. Aleister sai como uma figura fantasmagrica do nevoeiro que encobre o cais.
Envolto numa longa capa negra, parece gigantesco diante da minguada estatura do poeta.
   No Hotel de l'Europe, Crowley explica a Pessoa por que tem de forjar seu suicdio: vrios governos da Europa querem elimin-lo por considerarem suas prticas
de taumaturgia extremamente poderosas. Outros querem assassin-lo porque receiam que ele seja um espio trabalhando para os alemes como agente duplo. Precisa desaparecer
sem deixar vestgios.
   Apaixonado por mistrios, Pessoa entusiasma-se pela farsa rocambolesca e quer ajudar na trama, porm no sabe como lev-la a efeito. Lembra-se, ento, de Tobias
Esteves. A amizade de Fernando Pessoa por Tobias vem das tardes infindveis gastas nos cafs do Rossio discutindo sobre nada ou coisa nenhuma. H anos ele  fascinado
pela inteligncia linear do detective, que soluciona os casos mais intrincados usando a lgica dedutiva simples. Seu pensamento no deixa margem a divagaes abstratas
ou emocionais. Para ele, o "ser ou no ser" do Hamlet  coisa de maricas. Tem uma tremenda intuio. Quando desconfia de um suspeito, cria um silogismo capcioso
durante o interrogatrio: "Ouve l. Nenhum ser humano  inocente. Tu s um ser humano. Logo, no s inocente; portanto, s culpado". A ttica confunde o interpelado.
Se tiver praticado o crime, geralmente confessa. Tamanho  o afeto do poeta, que ele homenageia a objetividade do policial no poema "Tabacaria", do heternimo lvaro
de Campos: "... Ah, conheo-o;  o Esteves sem metafsica...".
   Pessoa marca um encontro, para as quatro horas da tarde do dia seguinte, com Crowley e Tobias, no caf Martinho da Arcada, no Terreiro do Pao. O detective sabe,
com certeza, como criar um falso suicdio.
   A pontualidade no  o melhor atributo do inspector de polcia Tobias Esteves. Meia hora depois das quatro ele surge do outro lado da praa. Vem radiante no seu
passo de marreco, balanando o corpanzil. Tobias  gordo. Hbil cozinheiro, sua afeio por doces e outros quitutes se manifesta na circunferncia. Coleciona receitas
de todas as regies do pas. Nunca deixa de criar ocasies para oferecer a si mesmo lautas refeies. O feitio rechonchudo do detective de estatura mdia engana
os criminosos que tentam fugir subestimando-lhe a agilidade e a forma fsica. Aos vinte e oito anos, Esteves  fruto tpico da raa lusitana: pele morena, fartos
cabelos negros encaracolados que penteia para a esquerda e cuja rebeldia ele amansa com uma camada de brilhantina. Cultiva vastos bigodes de pontas reviradas, tradio
familiar, e procura vestir-se com discrio. A nica concesso feita  vaidade  o uso de um alfinete de gravata de ouro em forma de ferradura herdado do pai. O
"alfacinha", como so chamados os nascidos em Lisboa, acena para Pessoa com seu guarda-chuva e se aproxima do caf.
   So agora trs em volta da mesa no Martinho da Arcada. Fernando Pessoa convocou seu amigo, o jornalista Ferreira Gomes, para ajudar no enredo do sumio fictcio.
Bebericam aguardente guia Real, a preferida do poeta. Pessoa sada o detective como de hbito:
   - Ah! Finalmente chegaste,  Esteves sem metafsica!
   Ao que o policial retruca com outro verso do poeta:
   - Como tambm disseste, "a metafsica  uma consequncia de estar maldisposto"... mas vamos ao que interessa. Por que esta convocao extraordinria?
   Pessoa apresenta o mago ao detective e explica o problema. De incio, Esteves no quer participar da charada. Como policial, teme pela repercusso do caso. Depois
de muito relutar, acaba sendo convencido pelo amigo e sugere a melhor opo para executar o projeto. Nas rochas perto de Cascais, onde o mar se choca com violncia,
existe um buraco em que as guas formam um redemoinho perigoso. Segundo os guias tursticos, "ali o oceano se precipita rugindo". O lugar  conhecido como "Boca
do Inferno". Esteves prope que o jornalista Ferreira Gomes entregue  polcia um bilhete suicida que teria sido achado no local. Crowley adora a ideia. Escreve
o bilhete de prprio punho, como se tivesse se matado pelo amor da amante.
   Certamente os conjuradores no podiam imaginar a repercusso do caso. A notcia espalhada por Ferreira Gomes sai nos jornais de Lisboa, Paris e Londres. As primeiras
pginas dos dirios estampam o episdio com o ttulo em letras garrafais:
   o mistrio da boca do inferno
   Para dar maior credibilidade ao "suicdio", o inspector Tobias Esteves, amador praticante de mergulho livre, dotado de um flego espantoso, prope-se a vasculhar
a rea submarina e acaba sendo encarregado das investigaes. Ao ressurgir das guas qual rotundo Netuno, Esteves afirma que nada encontrou.
   Crowley desaparece furtivamente pela fronteira espanhola e vai para a Alemanha. Fernando Pessoa  interrogado pela polcia e conta a verdade: tudo no passou
de um embuste sugerido por Aleister Crowley, que continua vivo e gozando de boa sade. Ferreira Gomes admite sua participao na fraude.
   Diante da dimenso alcanada pelo episdio, Esteves declara seu envolvimento na tramoia. "Foi s uma grande piada", diz ele ao chefe de polcia. O chefe no acha
a menor graa. Para desgosto do poeta, o inspector Tobias Esteves  licenciado sine die.
   Tobias passa a ser objeto de chacota de toda Lisboa. Ao chegar em casa, encontra bilhetes suicidas enfiados por baixo da porta: "No posso viver sem ti!"; "
Esteves, j que no tenho a tua boca escaldante, vou me atirar na Boca do Inferno!". Quando passa pelas ruas da Baixa,  a mesma coisa. "L vai o xu galhofeiro!",
gritam, usando a gria portuguesa para policial, e se escondem atrs das esquinas.
   Cansado de tanto deboche, Tobias despede-se dos amigos e resolve ir tentar a vida no Brasil. Tem um tio que  dono de uma confeitaria no Rio de Janeiro. Nicolau
Tocha-Tarelho  irmo solteiro de sua me e no tem herdeiros. Por vrias vezes convidou o sobrinho para associar-se a ele. Agora, com a indenizao recebida pelo
seu afastamento da polcia, Esteves aceita o convite.
   Seis anos depois, na primavera de 37, quando Getlio Vargas decreta o Estado Novo fechando o Congresso, Tocha-Tarelho morre de um enfarte fulminante, deixando
o negcio para o sobrinho. O esprito empreendedor de Tobias Esteves havia transformado a pequena loja de Botafogo na rede Regalo Luso, com dez filiais espalhadas
pelos bairros e por todo o pas. Tobias  agora um homem rico, no mais "o portugus da padaria". Alm da panificao, o que faz a diferena so os doces e pratos
portugueses que ele passa a distribuir para os restaurantes e confeitarias da cidade. Doces esses que fazem as delcias das gordas do Rio de Janeiro.
   """"
   Fim de tarde. Uma chuva mida cai sobre a cidade. O furgo funerrio segue pela rua Elpdio Boamorte. Os poucos passantes que ocupam as caladas estranham a alta
velocidade do automvel. Afinal,  de supor que o principal ocupante daquele veculo no tenha mais pressa de chegar a algum compromisso.
   Da janela do albergue So Gensio, na esquina da Francisco Bicalho, uma senhora faz o sinal da cruz ao ver o rabeco passar.
   Ignorando a eventual indiscrio dos transeuntes, Caronte acelera em direo ao enorme depsito no final da rua. Trata-se de um antigo matadouro comprado depois
da morte dos pais. H um compartimento especial, construdo por ele. Ali, Caronte criou seu necrotrio particular, equipado com todos os instrumentos necessrios.
Nas prateleiras, garrafas contendo lquidos juntam-se a facas e bisturis de diversos tamanhos. A mesa de metal usada para autpsias ocupa o espao antes utilizado
para o abate e esquartejamento dos animais. O local conserva os ganchos e carretilhas onde estes eram pendurados. No cho, sulcos feitos no cimento permitiam que
o sangue escoasse durante a retirada das vsceras. Uma cozinha guarnecida de utenslios modernos e um piano Pleyel de cauda inteira arrematam a viso surrealista
do ambiente.
   Caronte arrasta a gorda adormecida do carro at a mesa, deixando o rastro adocicado do seu vmito. O clorofrmio provocou-lhe a nusea, e ela lanou uma mescla
de glacs e chocolates.
   Com o guincho usado para mover os caixes, Caronte ia o peso morto at a mesa. Amarra o corpo esttico da vtima com as correias de couro ali fixadas. Agora,
tudo est pronto para satisfazer sua fantasia. Antes, deve acord-la.  necessrio que a obesa presencie tudo. Tira da prateleira um frasco de amnia e, destampando
o vidro, aproxima-o das narinas de Cordlia.
   Cordlia volta a si escutando a msica que sai de um gramofone. Ela abre os olhos e no acredita no que v: na sua frente, trs mulheres gordas pendem dos ganchos
do antigo matadouro. Seus rostos descarnados ainda denotam sinais de uma remota formosura. Todas esto nuas. Pelo tom esbranquiado, parecem estar mortas h dias.
A pele flcida desprende-se-lhes da carne. O processo de putrefao apenas comeou, mas dos corpos emana um cheiro insuportvel. As gordas lembram as carcaas dos
animais abatidos. Um papel amassado em forma de flor sai de suas bocas. O grito horripilante de Cordlia morre, sem eco, nas paredes frias do local. Ela tenta se
desvencilhar das correias que a prendem, mas seu esforo  intil.
   Caronte aumenta ao mximo o som da vitrola. O tema d'As quatro estaes acaricia seus ouvidos. Ele pega alguma coisa numa das prateleiras e se acerca, ocultando
o objeto atrs de si. Inclina-se at o ouvido de Cordlia e diz numa voz gutural, quase sussurrada:
   - Gosta de msica?  "Outono"; faz parte d'As quatro estaes, de Vivaldi. Minha preferida. Faltava o violoncelo para completar o quarteto - acrescenta, apontando
os trs cadveres. - Eu queria ser msico. Mame no deixou.
   Caronte mostra o que trazia escondido s suas costas: um enorme funil de bico longo. Com uma das mos, ele aperta o nariz da presa, obrigando-a a abrir a boca
para respirar. Com a outra, enfia-lhe, pela boca, o bico do funil. O terror toma conta de Cordlia. Seus olhos esbugalhados quase saltam das rbitas. Caronte puxa
de sob a mesa um garrafo de cinco litros contendo um lquido escuro e viscoso. Ele levanta o garrafo e exibe seu contedo  gorda.
   - Musse  Fatia. Conhece? Quando  feita com folhas de gelatina, endurece e pode ser fatiada. Era como mame fazia. Alis, a receita  dela. Eu prefiro a verso
cremosa. Tenho certeza de que a senhorita vai adorar... - afirma o funesto, e derrama lentamente o contedo no bocal do funil. Cordlia vai engolindo avidamente
para no sufocar.
   Enquanto a cena se passa, Caronte declama a receita da sua me como se fossem versos de Cames:
   - Coloque o chocolate em banho-maria
   Juntamente com a manteiga a derreter
   Adicione o leite quente  iguaria
   E o acar no se esquea de acrescer.
   Dos ovos separar a clara e a gema
   Batendo as claras postas em castela
   A gelatina no ser problema
   Dissolvida e misturada na tigela...
   O bardo tenebroso segue a sua litania, recitando em xtase os ingredientes.
   A gelatina endurece no estmago da gorda esganada.
   As Esganadas
   3
   O cabo da Polcia Militar Francisco Ferreira, lotado na delegacia de So Cristvo, aproveita o sol para fumar seu cigarro de palha antes de ir para o servio.
Francisco veio de Tebas, no interior de Minas, e cumpre esse ritual dirio passeando pelos jardins da Quinta da Boa Vista. Esta manh, no entanto, uma imagem extravagante
chama sua ateno. A poucos metros de onde se encontra, entre as rvores, ele avista quatro mulheres imveis sentadas na relva. Elas formam um quadrado em torno
de uma toalha quadriculada em cujo centro est pousada uma cesta de piquenique. Caso Francisco tivesse uma formao clssica, uma viso distorcida do quadro Le
   djeuner sur l'herbe, de Manet, lhe viria  mente. O que torna a cena mais inslita  o fato das quatro serem muito gordas. Gordas e nuas. Completando a paisagem
extica, cada uma tem um instrumento musical diante de si. O pai de Francisco era regente da pequena banda da cidade. O cabo no demora a reconhecer os dois violinos,
a viola e o violoncelo. Seu primeiro impulso  sair correndo dali - logo se lembra das histrias de fantasma que o av contava -, porm o treino do policial fala
mais alto. Ele se aproxima e observa que as cavidades oculares das mulheres esto vazias. Uma folha de papel amassada, formando um buqu, sai da boca de cada uma
delas.
   S ento o cabo Francisco Ferreira cambaleia at o canteiro mais prximo e vomita em golfadas violentas.
   """"
   Os vrios jornais espalhados sobre a mesa do delegado Mello Noronha, na Central, trazem nas manchetes a lgubre descoberta. A rdio Tupi toca o prefixo anunciando
a edio extraordinria do seu jornal. Ouve-se a voz inconfundvel do famoso locutor Rodolpho d'Alencastro: "Est no ar o reprter Eucalol! prg-3, Tupi do Rio! E
ateno, muita ateno! Ainda no h pistas sobre o assassino das quatro senhoritas da nossa sociedade que estavam desaparecidas e que foram finalmente encontradas
na Quinta da Boa Vista em...".
   Noronha desliga o rdio, cortando a notcia no meio. No necessita ser lembrado da absurda ocorrncia. Bastam os insistentes telefonemas do chefe de polcia,
Filinto Mller, cobrando resultados. Ele odeia Filinto Mller, odeia Getlio Vargas, odeia a ditadura e, principalmente, odeia sua mulher, a bela Yolanda, quando
ela o arrasta para ver todas as peras no Theatro Municipal. Como delegado, Noronha tem direito a dois ingressos para os espetculos da cidade. Ele prefere as revistas
do teatro Recreio, s quais Yolanda se recusa a assistir. O entusiasmo da esposa s arrefeceu numa matin no teatro Fnix, durante a apresentao de um decadente
bal de "vanguarda" vindo de Paris. Burlando a vigilncia da terrvel censura do Estado Novo, o bailarino cubano Jos Martinez, num desvario criativo, arrancou a
mnima tanga que lhe cobria o corpo, expondo ao pblico as ndegas murchas. Diante do choque mudo da plateia, Noronha perguntou  mulher: "Satisfeita, Yolanda?".
Passaram-se meses antes que ela sugerisse outro espetculo.
   Mello Noronha coa a cabea desarrumando os parcos fios de cabelo que ele penteia cuidadosamente de manh cedo, dispondo-os em crculo com a preciso de quem
planeja um jardim japons. Neurastnico, ele rel, pela milsima vez, as minguadas informaes conseguidas at o momento: as trs primeiras moas desapareceram em
datas diferentes, em lugares diferentes, num espao de poucos dias. As famlias, preocupadas, comunicaram  polcia a ausncia das quatro. Como os pais pertenciam
 classe alta, ligada de alguma forma ao Estado Novo de Vargas, Filinto Mller ordena que o delegado Noronha se dedique exclusivamente ao caso. Concede-lhe poderes
especiais, o que  comum em regimes de exceo.
   As investigaes preliminares sobre o sumio revelaram que a primeira foi vista, pela ltima vez, com uma amiga, na rua Sete de Setembro. A segunda separou-se
da me na Ramalho Ortigo, dizendo que precisava passar na livraria Quaresma antes de ir para casa; e a terceira tentou entrar num txi na rua da Carioca, mas o
motorista recusou-se a abrir-lhe a porta, alegando que a velha suspenso do Ford no suportaria o seu peso. A cena  confirmada por comerciantes do local. O desaparecimento
mais recente s fora notificado dois dias antes da descoberta das quatro a compor o tableau vivant morto, formando o paradoxo na Quinta da Boa Vista.
   Mello Noronha afasta, irritado, a pasta com os escassos dados colhidos sobre as assassinadas. D uma baforada no seu indefectvel charuto Panatela. As buscas
nas residncias tambm no resultaram em nada. Os jornais j batizaram os crimes de "Caso das Esganadas". Ele arremessa os jornais no lixo. "Algum filho da puta
daqui de dentro contou pros jornalistas que as gordas morreram entupidas", pensa, no auge da ranzinzice. Nada tinha sido divulgado oficialmente  imprensa sobre
as mortas, mesmo assim a informao vazara. Os pasquins anunciam na primeira pgina que as quatro tm, engastado na boca, um papel dobrado formando uma flor. Abrindo-se
as folhas, via-se que haviam sido arrancadas de um caderno antigo e que cada uma delas continha uma frase escrita  mo, numa caligrafia primorosa:
   Brisas de Figueira
   Caprichos de Setbal
   Fofos de Creme
   Musse  Fatia
    bvio, so nomes de receitas; at Mello Noronha, que odeia gastronomia em geral e doces em particular, desconfia disso, porm desconfiar no esclarece o mistrio.
Claro que elas so gordas, mas isso no constitui motivo. "Que receitas so essas, que ningum conhece?", o delegado se pergunta, esmurrando a mesa.
   Para acalmar-se, puxa um pequeno espelho de bolso com o escudo do Fluminense e, usando um pente, dedica-se  complicada manobra de cobrir o topo da careca com
os longos fios de um dos lados da cabea. Sua esposa, Yolanda, que, apesar de am-lo, tem um senso de humor aguado, apelidou esse ritual capilar de "mecha emprestada".
   Batem  porta, e Mello esconde no bolso o espelho e o pente.
   - Quem ?
   - Sou eu, doutor Noronha - responde, abrindo a porta, o inspetor Valdir Calixto, um mulato alto e musculoso, seu assistente pessoal.
   - Entra. Alguma novidade sobre as gordas?
   - No, doutor.  que est aqui na minha sala um portugus que insiste em falar com o senhor. Ele garante que pode ajudar a resolver o caso - diz, baixinho, Calixto,
fechando a porta.
   - Por que  que voc est falando baixo?
   - Sei l se o homem  doido, doutor - explica Valdir Calixto, que apesar de armado e policial  um medroso patolgico.
   - Quem est ficando doido com essa histria sou eu. Ainda mais com o Filinto me azucrinando a pacincia! - desabafa Mello Noronha, chamando-o pelo primeiro nome
para demonstrar que no respeita nem teme o famigerado chefe de polcia. - Provavelmente  perda de tempo, mas manda o portuga entrar.
   Uma cabea redonda surge pela porta entreaberta. Tobias Esteves se anuncia numa voz lmpida de tenor, carregada de sotaque lusitano, apesar dos anos vividos no
Brasil:
   - Com a vossa licencinha? Tobias Esteves a seu dispor.
   O portugus avana acompanhado de Calixto. O contraste entre os trs no poderia ser maior. Esteves, de estatura mdia, gordo, cabelos gomalinados, bigodes, enverga
um terno preto de elegncia discreta. Noronha, baixinho, resvala um metro e sessenta nos seus saltos carrapetas, mangas arregaadas, gravata solta no colarinho aberto,
a calva disfarada pelo intrincado penteado; o palet marrom, de tropical, bastante amassado, pende das costas da cadeira. Calixto, elegante, alto, um metro e noventa
descalo, todo de branco, a no ser pelo contraste da gravata vermelha. Noronha sempre se pergunta como o assistente consegue manter imaculvel aquele terno de linho
120. Ao contrrio do delegado, nem no mais escaldante vero Calixto sua. Faceiro, ele continua imvel, ao lado da porta. Mello Noronha aponta a poltrona em frente
a sua mesa e diz ao recm-chegado:
   - Por favor, sente-se. Como posso ajud-lo?
   - Mil perdes, senhor doutor delegado. Quem pode ajud-lo  este vosso criado. Se me permite, deixe-me apresentar-me. Chamo-me Tobias Esteves, sou o proprietrio
da rede Regalo Luso, Doces e Salgados - ele se identifica, entregando um carto ao policial.
   Mello Noronha no deixa Esteves prosseguir. Levanta-se, despedindo-se:
   - Meu amigo, se est aqui pra me dizer que as frases publicadas so nomes de receitas, no perca seu tempo nem o meu. Tenho mais o que fazer - ele encerra e,
com a ajuda do inexsudvel Calixto, empurra o visitante em direo  porta.
   - Sim, senhor doutor, aprecio vossa extraordinria deduo - ironiza Esteves. - Mas receitas de qu? Receitas donde? Como so feitas? Por que faz-las? Quem as
fez? Quem as serviu?
   Noronha estaca nos saltos:
   - O senhor sabe quem foi?!
   - No, mas consigo saber.
   - Como assim?
   - Por uma feliz coincidncia, antes de vir pro Brasil e tornar-se empresrio de sucesso no ramo da alimentao, este vosso criado era inspector de polcia em
Lisboa. Se a modstia no impedisse-me de diz-lo, acrescentaria que meu talento dedutivo ajudou a elucidar uma srie de crimes em Portugal. Levado a uma aposentadoria...
prematura, vim pro Rio e tornei-me scio do meu tio, j falecido, numa pequena loja especializada em petiscos portugueses. Depois que morreu-me o tio, expandi os
negcios. Hoje, sou dono da rede e conheo tudo da nossa cozinha. Tudo, tudo. Receitas, origens, tudo. Quando li o facto nos dirios, ocorreu-me imediatamente: "
p, so coisas l da terra! Por que tu no ofereces ajuda? Sentes falta dos mistrios e conheces esses doces". Foi por isso que c vim.
   - Mas como  que eu vou saber se o senhor foi mesmo detetive? - pergunta Noronha, mastigando a ponta do charuto.
   - Porque, como bom detective, detecto e, quando detecto, deduzo.
   - No estou entendendo - irrita-se o delegado, sempre ranzinza.
   - Se o senhor doutor no se amofina, demonstro rpido - comea a explicar o portugus, indo de um lado ao outro da sala. - O senhor  casado h muitos anos e
no tem filhos; vossa esposa  bonita e jovem, no gosta de ficar em casa e pinta-se muito. Como marido, faz-lhe todas as vontades. Alm disso, ouso afirmar que
o senhor usa cuecas tamanho 36.
   O espanto de Noronha s  superado pela estupefao de Calixto. Muitas vezes, por falta de tempo,  ele quem compra as camisas e cuecas do seu superior n'O Camizeiro,
na rua da Assembleia. Mello Noronha recupera-se do susto.
   - Me explique como  que o senhor sabe disso. Por acaso, tenho ficha na Secreta? - indaga, referindo-se  temida polcia criada por Vargas.
   - Nada disso, senhor doutor delegado.  a chamada deduo simples. Vejo que  casado h bastante tempo, porque vossa aliana j perdeu o brilho e afunda-se levemente
no dedo, sinal de que engordou um bocadinho desde o casamento. Vossa esposa abusa da maquilagem, a julgar pelas leves manchas de ruge na lapela do seu palet. Suponho
que ela no para em casa, pelo estado enxovalhado do vosso traje.
   Calixto ri  socapa, tapando a boca, ante o olhar irado de Noronha. Esteves prossegue:
   - No tem filhos; se os tivesse, haveria por aqui, emoldurada, a clssica fotografia de famlia. O motivo de no ter  vista o retrato da esposa  para no exp-la
no ambiente perigoso de uma delegacia de polcia, porque ela  jovem e bonita. Pelo desgaste das bordas da ltima gaveta da escrivaninha, presumo que a abre e fecha
raivosamente com frequncia, o que me leva a deduzir que guarda l uma foto da esposa, pois receia que ela o visite de surpresa e no encontre o porta-retratos sobre
a secretria. Alis, porta-retratos que ela lhe deu de presente, j que o delegado no me parece dado a esses mimos. Quanto ao tamanho das cuecas, no  difcil
de perceber. Conheo bastante anatomia pra notar que o vosso manequim  38. S uma cueca apertada explica o vosso constante mau humor.
   Disfarando a surpresa, Noronha pigarreia, coa a barba por fazer e anuncia:
   - Seu Tobias, no sei se devo aceitar a sua ajuda. Aqui, o senhor  s um civil que vende comida. Talvez eu consiga us-lo como consultor ou auxiliar. Fico com
o seu carto e amanh entro em contato. Calixto, acompanhe o senhor Esteves at a porta - diz ele, encerrando o assunto com um aperto de mo.
   - Fico-lhe muito grato, senhor doutor delegado. Agradeo vossa imensa e infindvel gentileza - despede-se Tobias Esteves, com uma ligeira reverncia.
   Mello Noronha volta a sentar-se, sob o olhar de Getlio Vargas no quadro oficial onipresente nas reparties pblicas do pas.
   Calixto retorna, rapidamente, ao gabinete, ansioso por conhecer a opinio do chefe. Antes que ele abra a boca, Noronha comanda:
   - Calixto, preciso falar com o chefe de polcia de Lisboa. Quero conhecer a histria desse portugus. Diga  telefonista que marque uma ligao internacional
para amanh, cedo. Hoje em dia, d pra marcar com um dia s de antecedncia. No  incrvel? Sabe-se l onde  que isso vai parar.
   -  verdade, mas, como diz minha me, depois que inventaram a mquina de costura, tudo  possvel - filosofa o subalterno. - O que  que o senhor achou do homem,
doutor?
   - Por enquanto, s acho mesmo que ele coloca muito bem os pronomes - responde Mello Noronha, no querendo reconhecer, perante o assistente, que ficou impressionado.
   As Esganadas
   4
   Transcrio do telefonema gravado na central radiotelefnica do Palcio Central da Polcia, por ordem do excelentssimo senhor capito Filinto Mller, chefe de
polcia do Distrito Federal. O dilogo ocorreu entre o delegado Luiz Mello Noronha, destacado para investigar o cognominado "Caso das Esganadas", e o chefe de polcia
de Lisboa, excelentssimo senhor doutor Manoel de Freitas Portella. O colquio foi acompanhado pelo escrivo de polcia Antnio Castelo, filho de portugueses, para
ajudar nas eventuais variaes lingusticas.
   RIO DE JANEIRO
    SEXTA-FEIRA 22 DE ABRIL DE 1938 - 10H30
   NORONHA: Doutor Portella?PORTELLA: T!NORONHA: Al?PORTELLA: T! T!NORONHA: Um momento, por favor! (Castelo intervm em auxlio de Noronha)CASTELO: Doutor
Portella?PORTELLA (Resmunga baixinho longe do bocal): Cabro
    de merda... (alto) j disse que estou c!CASTELO: Aqui  do Brasil, estamos ligando da Central
    de Polcia do Rio de Janeiro. Bom dia.PORTELLA: Bom dia no, boa tarde.CASTELO:  que aqui ainda  de manh. Um momento,
    o doutor Noronha vai falar.NORONHA: Doutor Portella, aqui  o delegado Mello Noronha. Est me ouvindo?PORTELLA: T.NORONHA: Ah, agora entendi!  o seguinte:
ns estamos investigando uma srie de crimes e tem um portugus chamado Tobias Esteves se oferecendo pra ajudar.
    Ele diz que foi policial em Lisboa.  verdade?PORTELLA: Sim. (Silncio prolongado)NORONHA: Doutor Portella?PORTELLA: T.NORONHA: Ele era bom profissional?PORTELLA:
Quem?NORONHA: O Tobias Esteves!PORTELLA: Do melhor. Infelizmente, foi afastado. Meteu-se numa patranha por conta de um ingls trafulha.NORONHA: Um momentinho. (Outro
silncio e Castelo traduz)NORONHA(Volta a falar): Se entendi bem, Esteves se envolveu numa trapaa por causa de um ingls vigarista.PORTELLA: Pois. Mas nada de
grave, foi uma esparrela pra ajudar um poeta que lhe era muito querido. Um tal de Fernando Pessoa. Os dois, mais um jornalista, inventaram uma patacoada como se
o ingls,
    um intrujo chamado Aleister Crowley, houvesse sumido na Boca do Inferno.NORONHA: Sumido onde?! (Reclama em voz alta)
    A ligao t uma merda! (Retoma a conversa)
    No deu pra entender direito. O senhor disse que ele foi pro inferno?PORTELLA: No! Boca do Inferno!  um stio perto do mar em Cascais com umas rochas muito
perigosas.
    Os aldrabes deixaram l um bilhete como se o cabro do ingls se tivesse suicidado. O local  perfeito pra esse tipo de desporto. Bem, pra no ficar a deitar
fora o nosso tempo, quanto ao Esteves, acho que a punio foi exagerada. O gajo at que  porreiro, lembro-me bem dele. Como detective, fazia dedues pasmosas.
Mande-lhe de mim um abrao quando lhe chegar
    ao p. (Desliga)NORONHA(Para ningum): Obrigado.
   As Esganadas
   5
   Satisfeito com o resultado do telefonema, o delegado Mello Noronha chama Tobias Esteves ao seu gabinete na tarde da mesma sexta-feira. Manda emitir para ele uma
carteira de delegado auxiliar provisrio, convocado especialmente para o Caso das Esganadas. A autoridade do delegado oficializa a exceo. Em outras circunstncias,
a licena jamais seria concedida.
   - Voc entende que esse tipo de arbitrariedade no  do meu feitio - explica Noronha, tratando Tobias com mais intimidade.
   - Entendo perfeitamente, senhor doutor delegado.
   - O doutor Portella elogiou muito seu trabalho.
   - Bondade dele. O doutor Portella  dos poucos chefes que no foram substitudos no cargo pelo Salazar. Na poltica, essas trocas so comuns. Como dizia meu av
alentejano: " merda nova, moscas novas".
   - Voc est se referindo ao Estado Novo.
   - Pois. Veja que ironia, senhor doutor delegado, escapei l do Estado Novo, pra cair c num Estado mais Novo ainda.
   -  verdade.
   - "Diz-me com quem andas, se no for eu, no vou."
   - Qu? - pergunta o delegado, sem entender.
   - Nada, nada, senhor doutor delegado,  um ditado l da minha terra. Muito antigo, do tempo em que Deus usava fraldas.
   - O senhor  evanglico? - pergunta o curioso Calixto.
   - No, sou agnstico.
   - Agnstico? O que  agnstico?
   -  um ateu cago - define Mello Noronha,  sua maneira.
   Desistindo de decifrar o provrbio, Noronha entrega a Tobias a pasta com as informaes iniciais recolhidas pela polcia e o laudo das autpsias. Esteves pe
uns pesados culos de aro de tartaruga e absorve-se no relatrio. Sua leitura  pontuada por gemidos curtos que o ajudam a se concentrar. O tique fora adquirido
na infncia, quando o menino Tobias estudava suas lies. O rudo, quase imperceptvel, irrita Mello Noronha, da mesma forma que levava  loucura seus colegas de
Lisboa.
   Os documentos mostram que a primeira vtima se chamava Esmeralda Bulhes e sua famlia era do Rio Grande do Sul. Seu pai, Bernardino Bulhes, coronel do Exrcito,
viera para a Capital com a revoluo e era amigo do general Flores da Cunha. Esmeralda sofria de obesidade clinicamente severa, causada por uma disfuno glandular.
Os mdicos no sabiam ao certo qual. Tinha vinte e trs anos e estudava francs. Sua me tinha certeza de que ela no conhecia as outras trs desaparecidas. Na autpsia,
dificultada pela corpulncia da vtima, ficou comprovada ausncia de atividade sexual pelo aspecto ntegro da membrana himenal. O contedo do estmago era composto
de grande quantidade de acar, pasta de amndoas, farinha de trigo e uma substncia semelhante a ovos, misturada a uma certa quantidade de lquido de cor vinhosa,
com forte odor etlico, porm no identificado. Nenhuma parcela havia sido digerida, indicando que a morte ocorrera minutos antes. As bordas internas da faringe
estavam parcialmente laceradas, como se um objeto rombo e contundente tivesse sido introduzido, violentamente, pela boca at o esfago, dilacerando tambm a traqueia.
O bito foi atribudo  asfixia mecnica por esganadura.
   A autpsia do segundo corpo, o de Ivone Lopes Macedo, de vinte e dois anos, uma das herdeiras do laboratrio Wendell & Macedo,  uma cpia exata do laudo cadavrico
de Esmeralda Bulhes. A nica diferena consiste no material encontrado. Acrescente-se, ao contedo gstrico observado na primeira vtima, casca de laranja picotada
e, em vez do odor etlico, o que parecia ser um lquido ctrico, sugestivo de limo.
   Os achados referentes  vtima de nmero trs, Ruth Mangabeira, de dezenove anos, filha de um ginecologista famoso, e  quarta, Cordlia Casari, de trinta e cinco
anos, neta do industrial italiano Francesco Casari, tm as mesmas caractersticas. A no ser, novamente, o que revelou o contedo gstrico de cada uma delas. No
caso de Ruth, era sugestivo de uma mistura de farinha de batata, ovos, acar e fermento em p.
   No exame de Cordlia Casari, uma substncia diferente chama a ateno: uma massa gelatinosa semelhante ao chocolate endureceu no interior do aparelho digestivo,
lesionando a mucosa do estmago. H sinais de edema na face externa da coxa direita dos cadveres, recobertos por manchas esbranquiadas e ressecadas, sugestivas
de lquido seminal, como se o agressor tivesse ali friccionado o pnis.
   Esteves comea a ler em voz alta:
   - Ainda consta dos laudos: "Nos quatro corpos, h presena de leses cutneas perilabiais e em torno das narinas causadas pelo anestsico triclorometano. A pele
do rosto ainda exala o odor adocicado caracterstico do clorofrmio. No h espessamento de pele causado por calosidades nas pontas dos dedos que sugira a prtica
de instrumentos de corda. Levando-se em conta a decomposio, a obesidade e a ausncia dos globos oculares, o rosto das jovens  caracterizado por traos harmoniosos.
O sangue das vtimas foi substitudo por groselha".
   O sotaque cadenciado do lisboeta empresta  leitura a marca absurda da blasfmia.
   O delegado Mello Noronha  um homem prtico. Para evitar o trnsito intenso das manhs de segunda-feira sem despertar a curiosidade natural por assuntos da polcia,
em vez do carro oficial com sirene ele usa uma ambulncia do pronto-socorro. O veculo foi posto  disposio da Central.  nessa ambulncia, conduzida pelo taciturno
Calixto, que ele e Tobias Esteves se dirigem ao velrio. No  mera coincidncia que tudo tenha ficado a cargo da funerria Estige; afinal, a empresa  a mais luxuosa
da cidade. As famlias podem pagar o que h de mais sofisticado para o rito de passagem. Noronha mostra a Tobias o folheto de propaganda distribudo pela funerria.


   Esteves contempla fascinado o anncio, que exibe diversos tipos de caixes, desde os feitos de madeiras nobres aos fabricados com o pinho mais modesto. H detalhes
sobre as ferragens e os estofados. Os padres mais caros tm alas folheadas a ouro e estofamento de cetim. A Estige possui em suas dependncias dois sales para
as cerimnias decorados em estilo barroco. Imagens celestiais repletas de anjinhos enfeitam o teto. Fazem parte do conjunto uma capela ecumnica, floricultura, restaurante,
bonbonnire, loja de souvenirs, apoio psicolgico e suporte religioso.
   -  quase um convite ao suicdio - ironiza Mello Noronha. - Os enterros vo ser muito concorridos.
   - Nunca se sabe, delegado - retruca Esteves. - Como se diz em Portugal: "Por mais caridades que faas e por mais rico que sejas, a quantidade de pessoas que iro
ao teu funeral vai depender do tempo que estiver fazendo".
   Faz-se uma longa pausa.
   O reflexivo Calixto quebra o silncio pensando alto:
   - Por mim, prefiro um velrio de rico do que um casamento de pobre.
   """"
   Trancado numa saleta nos fundos da rua Real Grandeza, Caronte ouve o burburinho suave produzido pelas pessoas presentes ao velrio. As famlias decidiram que
suas filhas seriam consagradas na mesma cerimnia. Econmico, o coronel Bulhes v ali a possibilidade de um desconto. "Morreram juntas, sai mais barato enterr-las
juntas", argumenta o militar, soluando. Diante da reao ultrajada dos outros, ele corrige: "Claro, cada qual na sua cova".
   Caronte passou a noite e a madrugada aprontando os corpos agora expostos em atades do modelo Imperial de Luxe na sala principal, cujo nome  Limiar do Paraso.
Sua destreza no acondicionamento final  reconhecida at pelos colegas mais invejosos. O processo inicia-se pela substituio do sangue e de outros fluidos do corpo.
Nesse caso especfico, da groselha. Caronte se permite um risinho soturno: "Ora,  quase igual!". Em seguida, com uma mquina aperfeioada por Olavo Eusbio, ele
bombeia o lquido de embalsamamento. Geralmente, o profissional usa, em mdia, de oito a dez litros da infuso, mas, devido  vasta massa corporal das clientes,
ele adiciona seis litros a esse volume. O lquido  resultado de outra tcnica secreta do pai; aglutinado aos produtos qumicos, h um leo de aroma adocicado feito
de ervas e ptalas de jasmim. Cumprida a manobra inicial, ato contnuo o verdugo dedica-se  infausta empreitada de vestir as quatro gordas. "Pesos mortos...", ele
pensa, rindo do calembur. Ali, no h o guincho que o ajuda no velho matadouro. Tambm no quer compartilhar o momento com os seus auxiliares; a Estige tem mais
de doze funcionrios contratados com a nova carteira de trabalho assinada. Esse alumbramento  s dele: pe-lhes os vestidos brancos de renda, meias trs-quartos
da mesma cor, sapatilhas ornando os pezinhos gorduchos. Nos cabelos, uma guirlanda de flores do campo completa o ar angelical. Com seus dedos ossudos, maquia-lhes
delicadamente os belos rostos. Um batom rosa sutil e uma pincelada de ruge nas faces rechonchudas. Inventou uma palavra para definir a arte: necrosmtica. Ele observa,
embevecido, sua obra e, trmulo, sem se dar conta, deixa escapar um jato de esperma num orgasmo incontrolvel.
   Caronte lava-se e veste a velha sobrecasaca que Olavo Eusbio usava em todos os funerais. Retirou-a do corpo ainda morno do pai morto. Antes de entrar no salo,
arregaa as mangas e injeta em si prprio a soluo de cocana e herona que prepara habitualmente. Utiliza a frmula para vencer sua timidez contumaz. Embalado
pelo delrio da droga, ele abre a porta para conduzir as exquias.
   Hoje, Caronte est particularmente exaltado. Desequilibrou-se na dose. Apoia-se no umbral e comea a sinistra litania:
   - Deus est aqui. Deus, que tudo viu, tudo v e tudo ver. Os grilhes destas almas sofridas se rompero, e Deus, que tudo viu, tudo v e tudo ver, as aguardar
de braos abertos. L, elas no mais padecero do pecado da gula. L, elas no sero mais mooilas gordalhaas, e sim slfides vaporosas nos jardins divinos. Nunca
mais sero chamadas de "as abalofadas", "as corpulentas", "as obesas", "as volumosas", "as gordalhonas", "as atoucinhadas", "as sebceas", "as chorumentas", e, por
que no diz-lo?, de "as esganadas". - Caronte toma flego e segue: - Sem falar nos apelidos humilhantes como "rolha de poo", "baleia" e "baiaca".
   Ele lana-lhes o olhar vitrificado pelas drogas.
   - Pobres virgens ilibadas! Saibam que Deus, que tudo viu, tudo v e tudo ver, condena esses epnimos! O Criador tem por vocs o carinho que o grande poeta Ribeiro
Couto manifestou.
   Nem o mal-estar generalizado o impede de continuar. De nada adiantam os esforos do delegado e de Esteves para det-lo. Esgueira-se cambaleando entre os pesados
esquifes e dirige-se a cada uma das ocupantes arrochadas nos Imperial de Luxe, proclamando:
   - Esta menina gorda, gorda, gorda,
   Tem um pequenino corao sentimental.
   Seu rosto  redondo, redondo, redondo;
   Toda ela  redonda, redonda, redonda,
   E os olhinhos esto l no fundo a brilhar...
   Caronte safa-se da mo frrea do coronel Bulhes e insiste:
   -  menina e moa. Ter quinze anos?
   Umas velhas amigas de sua mame
   Dizem sempre que a encontram, num xtase longo:
   "Como esta menina est gorda, bonita!"
   "Como esta menina est gorda, bonita!"
   E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
   Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.
   Esteves tenta derrub-lo com uma rasteira, Caronte salta sobre a perna estendida e emenda:
   - s vezes no quarto,
   Diante do espelho,
   Ao ver-se to gorda, to gorda, to gorda,
   Ela pensa nas velhas amigas de sua mame
   E tambm num rapaz
   Que a olha sorrindo,
   Quando toda manh ela vai para a escola:
   "Ele gosta de mim... ele gosta de mim.
   Eu sou gorda, bonita..."
   E os dedos gordinhos pegando nas tranas
   Tm carcias ingnuas diante do espelho...
   Caronte termina a ronda macabra, recolhe um lrio pousado sobre um dos caixes e desaparece pela porta do seu gabinete.
   Passado o constrangimento, os parentes, acalmados por dois funcionrios da funerria, fingem se convencer de que aquela exibio pattica faz parte do pacote
morturio.
   As Esganadas
   6
   "prg-3,Tupi do Rio. - Anncio fnebre. Deu-se, ontem, no cemitrio So Joo Batista, a inumao das quatro desditosas mooilas misteriosamente imoladas em nossa
cidade. Nosso distinto chefe de polcia, doutor Filinto Mller, garante, contudo, que vrias pistas foram encontradas e promete, para breve, a captura do desequilibrado
que praticou atos to ignbeis", declara Rodolpho d'Alencastro, impostando, num registro grave, sua voz multifacetada. "Esta triste notcia  uma cortesia da Matricria
Dutra, a melhor para as gengivas do seu beb. Se o nenezinho chora quando o dentinho aflora, Matricria Dutra alivia na hora."
   - Belo reclame! - diz Mello Noronha, desligando o rdio. - As famlias vo adorar...
   Passa das seis horas da tarde. Noronha e Tobias Esteves conversam no gabinete do delegado. Ereto, perto da porta, o inconcusso Calixto. O inspetor tem as mos
cruzadas atrs das costas, hbito adquirido nos tempos em que era guarda-civil. Apesar do que afirmou Filinto Mller, os trs sabem que ainda no existe o menor
indcio sobre nada.
   - Ajudava mais se ele calasse a boca e parasse de me apoquentar. Aqui na Central, s se fala nisso, todo mundo d palpite. Acaba virando baguna - sentencia o
delegado, mascando o Panatela.
   - Pois. O caso est a se transformar num cafarnaum - concorda o portugus.
   Pelo semblante enigmtico de Noronha e Calixto, percebe-se que os dois no fazem ideia do que Esteves est falando.
   - Numa mixrdia - ele explica.
   O delegado retoma a conversa:
   - Ento, seu Esteves, por onde se comea?
   - Pelo comeo, parece-me.
   Calixto e Noronha entreolham-se.
   - Temos de descobrir se as raparigas tinham algo em comum. Alm de ser gordas, claro. Mas, antes, vamos por partes, como diz um aougueiro amigo meu.
   Esteves faz uma pausa, esperando a reao ao chiste. Ningum ri, ele prossegue:
   - Os contedos estomacais revelados nas autpsias realmente referem-se aos doces escritos nos bilhetes: Brisas de Figueira, Caprichos de Setbal, Fofos de Creme
e Musse  Fatia. Isso nos leva a supor que o assassino conhea a culinria portuguesa. Ipso facto, deve ser portugus ou filho de.
   - To simples assim? - debica Mello Noronha.
   - Meu caro delegado, sigo uma lgica simples, o princpio de Ockham.
   - Quem  esse Ockham, algum detetive portugus?
   - Longe disso, delegado, longe disso. Ockham foi um frade ingls da Idade Mdia, um filsofo. A sua teoria  a de que, se uma aco tiver vrias explicaes,
a mais simples  a melhor: "Si plures interpretationes eiusdem actionis admittuntur, simplicissima est optima". Claro, em latim fica muito mais bonito.
   - O senhor fala latim? - pergunta o imutvel Calixto.
   - Formei-me em filosofia e psicologia pela Universidade de Coimbra.
   - Tudo isso  muito bonito - interrompe Mello Noronha. - Mas como  que nos ajuda?
   - No sei. Primeiro, temos de procurar os suspeitos.
   - Eu no gostei nada do papa-defuntos - sugere Calixto, rompendo a tradio de no se intrometer.
   - No desconfio de ningum.  bvio que ele estava alterado. Provavelmente, emborcou uns copos antes pra acalmar os nervos. Afinal, tratou de quatro enterros
ao mesmo tempo e de pessoas importantes. No era l uma malta qualquer.
   - Claro! - aquiesce Mello Noronha, admoestando Calixto. - A funerria Estige  tradicional. Acusar o homem s porque ele  meio esquisito  to idiota quanto
dizer que "o assassino  o mordomo".
   Sbito, o inspector pe-se de p e comea a andar em crculos, olhos semicerrados, gemendo baixinho.
   - Est sentindo alguma coisa? - preocupa-se Noronha, esquecendo-se do cacoete de Tobias.
   O supersticioso Calixto sugere de longe:
   - Vai ver que ele  esprita. Tem pai de santo em Lisboa?
   Noronha fulmina Calixto com o olhar.
   - S perguntei porque eu sou filho de Xang, doutor. Se for preciso, conheo...
   - No  nada disso, por favor, me desculpem - corta Tobias Esteves. -  o meu jeito de raciocinar melhor. Estou c a pensar no perpetrador e se pode estimar,
por exemplo, que trata-se de um msico frustrado. Deu-se o trabalho de colocar instrumentos de corda dispostos como um quarteto clssico: dois violinos, a viola
e o violoncelo. Imagino, tambm, que o gajo possua uma camioneta grande ou qualquer veculo capaz de transportar essa carga imensa. No deve ser um caminho aberto,
pois seria logo notado. Como elas no se conheciam,  preciso saber se algum conhecia as quatro, se frequentavam os mesmos lugares, e, por suposto,  flagrante
o dio que o homem devota s gordas, bonitas ou no. Fica a pergunta: por que mat-las? Matou antes? Vai seguir matando? Com certeza, j sabemos que o depravado
 provavelmente canhoto.
   - Como assim? - espanta-se Noronha.
   - Pelas manchas secas de smen deixadas na parte externa das coxas direitas das mooilas. Fica mais fcil ao canhoto encostar-se  direita pra fazer as suas vergonhas.
   Mello Noronha levanta-se incrdulo e consulta seu relgio. A bela Yolanda o espera em casa. Depois do jantar, ele ainda tem de suportar uma apresentao de L'aprs-midi
d'un faune no teatro Repblica.
   - Parabns pelas suas dedues. S que elas no provam nada - conclui, impaciente, o delegado.
   - Talvez, senhor doutor delegado, talvez... mas, segundo meu professor de lgica em Coimbra: "Vacuitas indiciorum indicium vacuitatis non est".
   - Em portugus, por favor?
   - "Ausncia de prova no  prova de ausncia."
   As Esganadas
   7
   "... em nosso pas, o trabalhador, principalmente o trabalhador rural, vive abandonado, percebendo uma remunerao inferior s suas necessidades. No momento em
que se providencia para que todos os trabalhadores brasileiros tenham casa barata, isentados dos impostos de transmisso, torna-se necessrio, ao mesmo tempo, que,
pelo trabalho, se lhes garanta a casa, a subsistncia, o vesturio, a educao dos filhos..."
   Depois da ovao recebida ao entrar em carro aberto no estdio So Janurio, do Vasco da Gama, o presidente Getlio Vargas l o discurso escrito por Lourival
Fontes, diretor do Departamento Nacional de Propaganda. Como em todo Primeiro de Maio, o povo lota o estdio para festejar seu ditador. Ficavam em casa ouvindo pelo
rdio os doentes, invlidos, paralticos e quem mais no conseguisse entrar.
   No Mangue, zona do meretrcio, a clientela  escassa. Alm do feriado,  domingo, dia fraco nos randevus da cidade. As "polacas", como so chamadas as prostitutas
vindas do Leste Europeu - sejam polonesas ou no -, tiram o dia para descansar. A expresso "mulher de vida fcil" est longe de refletir a verdade.
   As ruas esto desertas. Durante a semana, os passantes so abordados agressivamente naquela rea; hoje, no h clientes.
   Como em todos os domingos, a freguesia guarda as festas para a famlia.
   Como em todos os domingos, Halina Tolowski volta para casa, na rua Pinto de Azevedo, depois de visitar sua amiga de infncia Bogdana Malkowa.
   Como em todos os domingos, ela usa saia preta longa e blusa cinza; trajes discretos para os dias de folga, e no as roupas quase obscenas que veste no resto da
semana para cativar os homens.
   Halina e Bogdana so de Zelazowa Wola, uma aldeia no leste da Polnia. Os cabelos ruivos, os olhos azuis e a pele muito branca, raros nos trpicos, garantem s
duas boa aceitao no mercado do sexo. Vieram para o Brasil no mesmo navio que trouxe centenas de moas do Leste Europeu, fugindo da penria que grassa na regio.
   Halina aguarda ansiosamente as visitas dominicais, porque Bogdana sempre prepara uma travessa de Pqczek, bolinhos de massa fritos semelhantes aos sonhos, recheados
de geleias e de frutas em conserva. Ambas relembram, pelo paladar, a terra natal. Na verdade, Bogdana nem toca mais nos bolos. H meses, a tuberculose lhe consome
os pulmes, tirando-lhe o apetite e os fregueses. "Lepiej, jest wiecej", pensa Halina, em polons, curvando-se sobre a bandeja. "Melhor, mais fica." Halina Tolowski
daria a vida pela amiga, porm jamais conseguiu resistir aos carboidratos. Nem percebe a vida da companheira esvaindo-se na sua frente. Apesar das vicissitudes pelas
quais passou, ela continua obesa, caracterstica que a acompanha desde o bero. Chupava as tetas da me com a avidez das sanguessugas. Contemplando-se sua silhueta,
era difcil imaginar-se diante de uma sobrevivente da misria. Seu belo rosto de traos caucasianos contrasta com a vastido do corpo. Halina  um desses mistrios
da natureza. A fartura das suas carnes atrai um tipo especial de habitu. Homens que amam se engolfar nas cavas da volumosa polonesa. Numa irnica contradio, o
maior deles  o palhao Rodap, ano famoso do circo Spinelli, igualmente celebrado nos picadeiros como baixo-bartono, interpretando, entre outras rias de peras,
"Nessun dorma", de Turandot, e "Vesti la giubba", de Pagliacci. Rodap, conhecido pelos amantes do bel canto como o Pequeno Gigante, gosta de cobrir a polaca nua
com notas de contos de ris. Adora mergulhar naquelas banhas, perder-se em suas dobras.
   Halina Tolowski vem rente aos muros das casas. Pelo vo das janelas ainda se escuta a arenga do ditador numa cacofonia demaggica. Ela engole um ltimo Pqczek
e arrota de prazer. No se d conta do bizarro automvel parado na esquina da rua Jlio do Carmo.
   As Esganadas
   8
   Os gemidos intermitentes da vtima abafados pela mordaa no o incomodam. H dias que a mantm submissa num estado de semissedao, pensando na guloseima mais
conveniente. Ele busca inspirao sentado ao piano Pleyel de cauda inteira no galpo da Elpdio Boamorte. Caronte toca uma das suas composies favoritas, a Polonaise,
op. 53. As mos longas de unhas vtreas do emissrio da Morte dedilham o teclado com destreza insuspeita. Ele toca furiosamente, exaltado pela polonesa gorda amarrada
na mesa ao lado. A Polaca  como costumam chamar a criao genial de Chopin. A interpretao seria impecvel, no fossem as pausas que o concertista usa para fumar.
Seu talento natural  exacerbado pelo cigarro de haxixe, embebido em lquido de embalsamar, que ele aspira sofregamente.
   Aturdida pelos eflvios do clorofrmio, a polonesa mal consegue distinguir a Heroica, composta para homenagear sua terra natal. Por uma dessas ironias inexplicveis,
Chopin nasceu em Zelazowa Wola. Como todas as pessoas de l, Halina conhece a histria. Sabe de cor a Heroica. O pequenino Rodap, por quem ela tem um carinho especial,
deu-lhe um gramofone de presente com uma srie de discos do compositor, entre eles o Opus 53 em l bemol maior.
   O cheiro de vmito no incomoda Caronte. Ele teve de praticar uma lavagem estomacal na gorda semiadormecida. No quer que a preciosa receita que em breve vai
administrar se misture aos doces vulgares ingeridos anteriormente. Caronte  o purista da basse cuisine, o gourmet do post mortem. Ele est quase chegando ao final
do seu concerto particular. Pena que a audincia no lhe faa justia. Ele observa com o olhar carregado de cobia a gorda esparramada sobre a mesa. Os seios enormes
pendem para os lados, e o ventre dilatado, coberto de estrias, transforma a realidade em devaneio. Os vapores do haxixe encharcado em formol aglutinam no seu crebro
as imagens daquela gorda puta nua s da sua me. Ela, tambm gorda, tambm nua, tambm puta. Puta gorda. Gorda puta. Gorda filha da puta. Caronte j sabe o que vai
preparar.
   Os dedos nodosos ferem as teclas no ltimo acorde da Polonaise.
   """"
   As poltronas estofadas de couro do Plaza, na rua do Passeio, ainda mantm a aparncia do dia da inaugurao, dois anos antes. Silver screen, projetores modernos,
amplo fosso de orquestra e o estilo art dco do luxuoso prdio tornam o cinema um dos pontos de atrao do centro da cidade.
   Aps a ltima sesso, uma equipe de faxineiros limpa os papis de bala e outras pequenas imundcies descartadas pelos espectadores. Feito isso, entregam as chaves
da sala a Juan Arrieta. Arrieta  um anarquista basco foragido que faz biscate como vigia noturno. Veio para o Rio com uma equipe de pelota basca depois que os avies
nazistas arrasaram sua cidade.
   Nessa madrugada, por volta das trs horas, Arrieta  despertado por um estrondo.
   - Es un atentado! - grita.
   Saindo do torpor do sono, Juan se d conta de que est no pequeno quarto onde dorme, ao lado da cabine de projeo. O barulho veio do salo principal. Com quarenta
anos, Juan Arrieta no tem medo de nada. Enfrentou uma guerra civil e foi casado com uma bailarina de flamenco.
   Pega um flashlight dos vaga-lumes e desce as escadas at o foyer. As portas do salo de baixo esto abertas. O facho de luz da potente Eveready varre a plateia
deserta. As poltronas perfiladas lembram-lhe os execrados batalhes de Franco. Arrieta avana pelo corredor entre as fileiras vazias. Fascinado pelo reflexo da lanterna
na tela prateada, quase tropea no parapeito do fosso de orquestra. A lanterna escapa-lhe das mos, cai em cima de uma das cadeiras dos msicos e ilumina a gorda
polonesa nua, escarrapachada sobre o piano.
   - Carajo de mierda, me cago en la reputa madre que pari a Franco! - pragueja o basco, estupefato.
   Da boca escancarada de Halina Tolowski surge uma enorme banana-da-terra. A ponta de outra banana sobressai como o topo de um iceberg em sua vagina de pelos rubros.
Um colar de cascas de banana enfeita-lhe o pescoo. As rbitas, sem os olhos, se assemelham a dois pequenos lagos negros e profundos. Grampeado em seu corpo, um
cartaz colorido anuncia a estreia da prxima semana no cine Plaza: a cano do adeus. Com Jean Servais e Lucienne Le Marchand, o filme francs conta a vida de Frdric
Chopin.


   As Esganadas
   9
   Quem  voc que no sabe o que diz?
   Meu Deus do Cu, que palpite infeliz!
   Salve Estcio, Salgueiro, Mangueira,
   Oswaldo Cruz e Matriz
   Que sempre souberam muito bem
   Que a Vila...
   O sucesso de Noel, interpretado por Aracy de Almeida,  quebrado pelo inconfundvel Rodolpho d'Alencastro: "Amigo rdio-ouvinte da prg-3, Tupi do Rio! Interrompemos
nossa programao para uma edio extraordinria! Uma mulher 'desolhada' e morta foi encontrada esta manh na plateia do elegante cinema Plaza! Todavia, se desconhece
sua identidade; porm, pela ausncia ocular, pela conformao volumosa da falecida e pelas bananas entaladas em sua garganta e nas partes ntimas, a polcia associa
a ocorrncia ao intrigante Caso das Esganadas! Foi necessrio o auxlio do nosso valoroso Corpo de Bombeiros para retir-la do local. Esta mensagem  uma cortesia
do sabonete Vale Quanto Pesa. Grande, bom e barato. Nas cores branco, azul e rosa, Vale Quanto Pesa deixa a ctis limpa e cheirosa.  venda em todo o Brasil."
   Noronha desliga o rdio Delco do seu Chevrolet e estaciona o carro ao lado do Instituto Mdico-Legal na praa xv. Comenta a impropriedade do anncio:
   - Que reclame inadequado.
   - O pior  que cortaram a Aracy no meio - muxoxa Calixto.
   - Falar em cortar ao meio s portas do necrotrio tambm no me parece l de muito bom gosto... - diz Tobias Esteves.
   Os trs se dirigem  entrada do iml. Acima dos portes h uma inscrio em latim:
   fideliter ad lucem per ardua tamen
   - "Fidelidade  verdade custe o que custar" - traduz Tobias.
   Com a criao do Departamento Nacional de Segurana Pblica, o instituto modernizou-se. Valoriza-se o sistema de investigao cientfica, a seleo dos funcionrios
 mais rigorosa e a importao de aparelhagem sofisticada contribui para a melhoria. O problema  que ainda falta treinamento para o total uso dos equipamentos.
   Noronha torce o nariz a essas novidades. Ele acredita mais no instinto e na intuio.
   - Isso tudo  pra aumentar o poder do Filinto.
   O prudente Calixto no gosta quando Mello faz essas declaraes. Teme pelo chefe.
   - Doutor Noronha, cuidado! Algum da polcia pode ouvir.
   - E da? Eu sou da polcia e estou me ouvindo.
   Pelos seus servios especiais de informao, Filinto Mller sabe muito bem o que Mello Noronha pensa dele e do regime, porm suporta o comportamento rebelde do
subordinado porque no h na Fora Policial ningum mais competente.
   Apesar da rabugice do delegado, o cadver foi identificado pelo Arquivo Criminal do Estado. Trata-se da prostituta polonesa Halina Tolowski, de trinta e dois
anos, residente  rua Pinto de Azevedo, na Zona do Mangue. Embora a prostituio no seja considerada crime, todas as "profissionais do sexo" so obrigatoriamente
registradas na polcia. Assim como as atrizes.
   Noronha e Esteves entram na sala de autpsias. Mesmo com as reformas, percebe-se que os ladrilhos das paredes guardam na memria a presena dos corpos nus de
homens e mulheres abertos sobre as mesas de metal. Desprezando o ostensivo cartaz de proibido fumar, Noronha segue baforando a fumaa do Panatela. Calixto, que nunca
se acostumou a participar dessas intervenes, usa a desculpa de sempre:
   - Eu fico aqui fora vigiando.
   No h o que vigiar, mas Noronha entende a idiossincrasia do assistente. Conhece e respeita os medos e manias de Calixto. Tem, por ele, um carinho especial.
   Ao ver o cadver exposto na mesa do iml, Noronha concorda com o temeroso Calixto. Em vinte e cinco anos de polcia, nunca viu nada mais grotesco. Ningum devia
ser obrigado a passar por aquela experincia. Os maiores especialistas em filmes de terror teriam dificuldade em reproduzir a cena escabrosa que se descortina diante
dele. Nem o aroma acre do charuto disfara o cheiro inexprimvel da morgue.  o cheiro da morte.
   O delegado se depara com uma mulher muito gorda, aparentando uns quarenta anos, a quem retiraram os globos oculares. Sua obesidade  tamanha que o corpo sobra
pelas laterais da mesa de ao inoxidvel. O tampo  levemente inclinado para o escoamento dos lquidos, o que, no caso especfico, se torna desnecessrio. Todo o
material que transborda pela clssica inciso biacrmio-esterno-pubiana  lavado com duchas manuais e recolhido por dois auxiliares de necropsia.
   - Bem-vindo ao banquete! - graceja o legista-chefe, apontando para uma bacia com doze bananas-da-terra extradas da vtima. O doutor Ignacio Varejo  conhecido
por suas tiradas mrbidas.
   - Esse quem ? - pergunta Varejo, agora apontando para Esteves.
   - Muito prazer, Tobias Esteves - apresenta-se o inspector, estendendo a mo.
   Ignacio ignora o gesto. Mello Noronha tenta amenizar o constrangimento:
   - O Tobias era um excelente policial em Lisboa e se prontificou a me ajudar nesse caso.
   - No vejo como. O nico portugus que admiro  Salazar - pontifica o mdico, nomeado depois do Estado Novo. - De qualquer forma, j conclu a causa mortis. A
gorda morreu por esganadura. Um final merecido pra uma esganada - completa ele, demonstrando novamente seu humor de necrotrio.
   Com uma pina, Varejo retira do estmago da morta uma bola amassada de papel carcomida pelo suco gstrico e a entrega a Noronha:
   - Acho que  um recado pra voc.
   Mello cala as luvas de borracha e abre o papel amarelado. Esteves l alto por cima do seu ombro:
   - Custei a achar um doce apropriado
   - E no  prato pelo qual eu tenha amores. -
   Mas apresento a quem estiver interessado
   As Bananas Merengadas dos Aores.
   - Trata-se de uma sobremesa muito apreciada em Portugal. Tenho certeza de que o doutor h de encontrar na barriga dessa pobre rapariga uma grande quantidade de
manteiga, farinha, acar, leite, gemas de ovos e as claras separadas. O cheiro de aguardente, sente-se daqui. A mooila no bebia. A aguardente faz parte da receita
- finaliza o detective.
   Ignacio Varejo menospreza a preciso de Tobias:
   - O senhor pode entender de cozinha, mas o fato de haver bebida na receita no garante que a mulher no fosse alcolatra.
   -  verdade, doutor Varejo. O que me garante que ela no bebia  o estado perfeito do fgado que eu observo daqui. No vejo indcios de cirrose. Alis, no seu
estgio inicial, um dos sintomas  a perda de peso. No me parece que seja o caso. E no se esquea de anotar no seu relatrio as irritaes da pele na comissura
dos lbios e nas cavidades nasais. Pelo leve odor que ainda sinto, trata-se, por suposto, de triclorometano ou clorofrmio; pode usar o nome que preferir, a substncia
 a mesma.
   Fazia muito tempo que Noronha no via o presunoso doutor Ignacio Varejo ficar sem resposta.
   - Se lhe apetecer, posso lhe mandar um prato de Bananas Merengadas dos Aores. Fao-as melhor do que essas - afirma Tobias, pegando a bacia com os restos no
digeridos e pondo-a nas mos do mdico.
   Os dois policiais saem, deixando o legista perplexo.

   As Esganadas
   10
   No havia, no Rio de Janeiro, quem no conhecesse o caf Lamas, no largo do Machado. O logradouro passara a designar-se praa Duque de Caxias cinco anos antes,
mas a nova denominao no pegara. Todos continuavam a chamar o local de largo do Machado, na certeza de que o antigo nome voltaria.
   O Lamas no fecha nunca. A grade de ferro, comum aos estabelecimentos comerciais, permanece enrolada sobre o porto. H mais de quarenta anos, acha-se emperrada
por falta de uso. Tentaram abaix-la pela ltima vez em 22, na primeira revolta tenentista. O exerccio revelou-se inexequvel.
   As mesas so espalhadas sem critrio algum e no se fazem reservas. O caf Lamas  frequentado por artistas, intelectuais, polticos, jornalistas e desocupados.
Essa amlgama forma o rico caldo cultural da cidade. At Getlio Vargas, na hora do ch, vem a p do Catete trocar o chimarro pela erva britnica.
    l que o delegado Mello Noronha, o inspetor Valdir Calixto e o detective Tobias Esteves almoam, no dia seguinte da visita ao necrotrio. Na vspera, evidentemente,
ningum jantou. Noronha jura que jamais comer outra banana.
   Terminado o almoo, tomando o cafezinho de praxe, combinam ir ao Mangue, conversar com Bogdana Malkowa, uma amiga da morta encontrada no cine Plaza.
   - Vai-me ser difcil voltar quele cinema.  pena. Tenho belas recordaes daquele stio. Assisti l a vrias fitas do Bucha e Estica. Os acompanho desde quando
era puto - afirma o portugus, deixando Valdir Calixto atnito.
   - O senhor j foi puto? - espanta-se o desqueixelado Calixto.
   - Pois no fomos todos?
   - Eu no! - replica Calixto, indignado.
   Noronha, rindo, se apressa a explicar:
   - Puto, em Portugal, quer dizer "menino", Valdir.
   - Ah, bom... - suspira ele, ainda desconfiado. - E Bucha e Estica?
   -  como ns chamamos a dupla Laurel e Hardy. Estava a mangar consigo. Sei muito bem que, c, chamam-se O Gordo e o Magro. Vi muitos filmes da dupla: Bucha e
Estica a caminho do Oeste, Bucha e Estica na priso, O cabeudo das trincheiras, Salta, salta, salta rico, Sim, sim, j te atendo...
   - Mas vamos ao que interessa - interrompe Mello Noronha, acendendo seu Suerdieck Panatela. - Daqui vamos  zona, interrogar as colegas da vtima.
   - Doutor Noronha,  melhor eu voltar pra Central. Algum tem de ficar de planto caso aparea alguma testemunha - sugere o atencioso Calixto, relutante.
   - Nada disso. A rea do Mangue  perigosa. Voc vai conosco.
   - Que perigo nada, doutor. A sua presena impe respeito - bajula Valdir Calixto, querendo se esquivar mais uma vez.
   - Voc vai conosco. Ponto final - assevera Mello, soltando uma baforada.
   O burburinho do restaurante vai se extinguindo aos poucos, como os lampies da rua quando vo sendo apagados um a um. Calixto, Noronha e Esteves, sentados no
fundo da sala, viram-se para a entrada buscando entender o motivo daquele silncio. Uma mulher de rara beleza atravessa o caf Lamas. De estatura mediana, cabelos
castanhos, ela aparenta, no mximo, vinte e cinco anos. Usa um vestido Chanel branco, de crepe de seda, que lhe acentua os contornos do corpo, e cala sapatos Ferragamo
de salto mdio.
   Eles se surpreendem quando percebem que a moa se dirige  mesa deles. Um sorriso avassalador ilumina-lhe o rosto. Sob os olhares invejosos dos outros clientes,
ela senta-se ao lado de Esteves. Coloca um cigarro Liberty Ovais entre os lbios e pede numa voz suave:
   - Algum tem fogo?
   A frase soa como uma carcia sensual.
   Os trs apalpam avidamente os bolsos. Esteves  o mais gil. Num gesto apurado, puxa um Dunhill Unique de prata e acende o cigarro da moa.
   - Muito gosto, Tobias Esteves. O curioso  que no fumo; mas trago na algibeira este isqueiro que pertenceu ao meu pai. Ele admirava as coisas inglesas.  a primeira
vez que o uso. No poderia inaugur-lo atendendo a senhorita mais bela.
   Ela fica encantada com o cavalheirismo de Tobias. Avalia o portugus gordote e gosta do que v.
   - Obrigada. Eu me chamo Diana de Souza, sou reprter e fotgrafa da revista O Cruzeiro. Estava  procura de vocs.
   Apesar da sua ranhetice e da ojeriza que sente pela imprensa como um todo, Noronha derrete-se.
   - Delegado Mello Noronha a seu dispor. Ouso afirmar que, se o seu talento for proporcional  formosura, a senhorita  a melhor jornalista do mundo - ele gorjeia,
tropeando nas palavras do galanteio exagerado.
   Valdir e Tobias pasmam ante aquela exibio que beira o ridculo. O delegado est totalmente seduzido.
   - Obrigada.
   - E eu sou o inspetor Valdir Calixto e concordo com meu superior hierrquico - ele diz, no querendo ficar atrs.
   - Obrigada de novo, mas prefiro ser chamada de reprter, assim como meu chefe.
   Diana se refere ao magnata da imprensa Assis Chateaubriand, dono de vrios jornais, estaes de rdio e d'O Cruzeiro. Chat, como  chamado, gosta de dizer que
 reprter. A revista, impressa em cores pelo sistema de rotogravura,  um sucesso editorial.
   - Eu mesma ilustro as minhas matrias - ela completa, mostrando a Leica 250 a tiracolo. A cmera, apelidada de Reporter, comporta dez metros de filme trinta e
cinco milmetros.
   - O que podemos fazer pela senhorita?
   - Quero acompanhar de perto o Caso das Esganadas.
   Um mal-estar toma conta da mesa. Noronha pergunta, meio sem jeito:
   - Como  que um caso to horroroso pode interessar a uma jovem to bonita?
   - Sou como a deusa que leva o meu nome. S que, em vez de bichos, eu cao notcias.
   - Me parece que a senhorita ficaria chocada com...
   Diana corta Mello Noronha:
   - Chega de conversa fiada, delegado. Cobri a Guerra Civil Espanhola. Nada que eu veja pode superar os horrores que vi.
   Esteves interessa-se mais ainda pela reprter.
   - Cobriu a guerra civil na Espanha?
   - At o ano passado, quando meu pai usou da amizade com Oswaldo Aranha pra pedir ao embaixador Peanha que me arrancasse de l.
   - Como  o nome do seu pai? - quer saber Noronha, desconfiado.
   - Dcio de Souza Talles.
   O nome  conhecido nacionalmente. A informao vem, com clareza,  mente do delegado: Dcio de Souza Talles, milionrio de So Paulo, cujas indstrias tm imensa
relevncia na economia do pas. Influente na poltica, nunca aceitou cargos no governo. Getlio lhe ofereceu o posto de embaixador em Paris, que ele polidamente
recusou. Conheceu e ficou muito amigo, sim, de Oswaldo Aranha, quando o gacho veio cursar a faculdade de direito no Rio. Sua mulher, Dulce de Souza Talles,  famosa
como incentivadora das artes e pelo trabalho voluntrio que exerce na Cruz Vermelha.
   - Eu estava em Granada quando Garca Lorca foi fuzilado em Fuente Grande. Fotografei La Pasionaria, em Madri, mas a censura daqui no me deixou publicar.
   - Desculpe a minha brutal indiscrio, mas por que no usa seu sobrenome completo? - indaga Esteves.
   - No quero me aproveitar do prestgio dele. Tudo que consegui foi por merecimento prprio. At o doutor Assis se surpreendeu quando meu pai lhe disse que eu
era sua filha.
   - Ento,  claro, os dois se conhecem?
   - Claro. Papai  um dos seus maiores anunciantes - Diana revela, acendendo outro Liberty Ovais. - Mas vamos ao que interessa. Posso participar do caso? O que
mais vocs descobriram?
   Dizendo isso, levanta, afasta-se dois passos, empunha a cmera e tira algumas fotos do grupo em rpida sucesso. O vaidoso Calixto ajeita sua gravata. Noronha,
discreto, pede:
   - Basta, por favor, senhorita. No use essas fotos. Fica mal uma autoridade aparecendo nas revistas.
   - Admito, com duas condies: primeiro, vamos todos nos tratar por "voc". Segundo, quero ajudar na investigao.
   - Qual seria sua utilidade num caso como esse?
   Diana senta-se novamente, pondo de lado a Leica.
   - Posso ajudar a traar o perfil do matador. As bananas enroscadas na boca e na vagina da ltima vtima, pra mim, indicam que o assassino tem problemas sexuais.
   - A Diana, por suposto, tem razo. - Tobias acata o pedido e a trata pelo nome. - No havia pensado nisso, mas Freud concordaria que duas bananas daquele tamanho,
agarradas  boca e ... - ele ruboriza, olhando a moa -, enfim, l onde estavam, so um smbolo flico.
   Noronha aquiesce com a cabea, mesmo tendo ouvido falar muito pouco do cientista. Sabe apenas que inventou a tal da psicanlise. Para ele, cuidar de doenas da
cabea com falatrio , literalmente, conversa fiada. Calixto, por sua vez, no tem ideia de quem se trata. No se acanha de perguntar:
   - Esse moo a  mdico ou verdureiro?
   - As duas coisas - brinca Tobias Esteves, s para confundir a cabea de Valdir.
   - Bem, e aonde vamos agora? - adianta-se a reprter.
   Noronha responde, encabulado:
   - Nosso prximo destino no  muito propcio a uma moa de famlia como voc. Ns identificamos a quinta vtima.  uma prostituta polonesa chamada Halina Tolowski
que morava na Zona do Mangue.
   - O que afasta a teoria de que o assassino s escolhe mooilas virgens - deduz Esteves.
   - Ns vamos  zona interrogar uma colega de trabalho dela - explica o delegado.
   - Posso ser uma moa de famlia, mas fiz duas matrias l sobre o trfico de escravas brancas. Alm disso, no ando sem a minha Derringer - ela declara, puxando
da bolsa a pequena pistola de dois canos com cabo de madreprola. - Presente do meu pai, preocupado com minha segurana. No se preocupe, delegado,  claro que veio
junto com porte de arma. E j estive em lugares piores. Vi Guernica destruda e, ao contrrio da Deusa da Caa, garanto que no sou virgem.
   No h mais o que argumentar. Calixto ainda insiste que deveria ficar na chefatura, mas Noronha est irredutvel. Esteves brinca outra vez com ele:
   - Desconfio que, em vez de voltar  Central, como agora sabes que foste puto, o que tu queres  ver algum filme do Bucha e Estica.
   As Esganadas
   11
   -Chegou o Vav Boas Maneiras! - gritam as putas das janelas, ao verem Valdir Calixto saltar do carro.
   - Ah, ento  por isso que voc no queria vir conosco? Tinha medo dessa recepo... - zomba o delegado.
   - Que  isso, doutor! As meninas s me conhecem porque, quando eu era guarda-civil, fazia a ronda nessa rea. Contato puramente profissional.
   - Por parte sua ou delas? - pergunta, rindo, o detective portugus.
   Diana no resiste e abandalha a brincadeira, usando o humor grosseiro aprendido nas brigadas da Espanha:
   - Voc fazia a ronda com o cassetete na mo ou na bainha?
   O recatado Calixto assume ares de ofendido.
   - Eu garanto que nunca mantive relaes fsicas com nenhuma profissional do ramo.
   Assim que ele termina a frase, uma puta baixinha grita do outro lado da rua:
   - E a, Vav? Vai de carona hoje?
   Noronha encerra o assunto antes que a conversa degringole.
   O quarteto desembarcou na rua Afonso Cavalcanti, onde mora Bogdana Malkowa. Nas portas e janelas dos pequenos sobrados, as prostitutas anunciam suas especialidades,
servindo-se dos dedos e da lngua em gestos obscenos e dando gemidos lascivos.
   Bogdana no faz parte desse pattico mafu do sexo. A tsica galopante consome o que resta dos seus pulmes, mantendo-a agarrada ao leito.  uma plida imagem
da rapariga exuberante que desembarcou na praa Mau h poucos anos. Os esparsos cabelos ruivos, sem vio, se assemelham a fios de l escarlate despregados do novelo.
Os olhos baos, encavados na face, perderam a tonalidade da safira. Ela respira pela boca escancarada, resfolegando avidamente, como um imenso fole. Bogdana ouve
rudo de passos e, com esforo, vira a cabea para a porta. Os quatro intrusos percebem estar diante de uma moribunda. Noronha desculpa-se pela invaso:
   - Com licena, sou o delegado Noronha e esta  minha equipe - ele diz, apresentando os outros. - Estamos investigando o assassinato da sua amiga Halina Tolowski.
   As palavras da pobre mulher saem num gorgolejo agonizante:
   - Pobre Haly, quis venir para Brasil tanta... acaba morre... je aussi... Ela gosta muito Pqczek... comer muito Pqczek... doce polons...
   Quando v Calixto, vestgios de uma lembrana iluminam-lhe o rosto. Ela aponta para o policial o dedo raqutico e curvo e, empregando as foras que lhe restam,
deixa escapar um grito do mais profundo do seu ser:
   - Putanherro!
   E a polonesa Bogdana Malkowa exala o ltimo suspiro, um sorriso feliz fixado nos lbios.
   Todos desviam o olhar para Calixto, que, num gesto carinhoso, ajoelha-se ao lado da heroica guerreira do bid e cerra-lhe as plpebras.
   Evitando qualquer comentrio sobre o incidente tragicmico, Mello Noronha conclui:
   - No temos mais nada que fazer aqui. Calixto, chame o iml pelo rdio da viatura e pea pra virem recolher o corpo. Voc fica a de planto, velando a morta,
at o rabeco chegar. Depois, me espera na Central. Ns vamos at a casa da polonesa assassinada ver se achamos alguma coisa que ajude a esclarecer essa maada.
   """"
   A rua Pinto de Azevedo, onde Halina Tolowski morava, no difere muito da Afonso Cavalcanti, local da residncia de Bogdana. As mesmas casas, os mesmos sobrados,
as mesmas putas. A diferena era que Halina vivia numa penso junto com outras profissionais. Uma penso administrada por madame Giselle, que veio para o Brasil
logo depois da Grande Guerra e foi uma das prostitutas mais requisitadas da Conde Lage. Quando seus dotes fsicos deixaram de incitar o desejo dos homens, transformou-se
em cafetina. Passou de explorada a exploradora. Magra, muito maquiada, os cabelos pintados de cor de azeviche presos em coque, madame Giselle senta-se numa banqueta
alta atrs de um balco. Diante dela, um caderno aberto onde anota, com caligrafia de estudante, os ires e vires do seu gado. Saca o lpis enfiado no coque rpida
como um samurai. Agita um enorme leque rendado, que ela abre e fecha continuamente provocando um rudo seco. Antes que Noronha se apresente, madame Giselle se adianta,
num carregado sotaque francs:
   - No precisa nem dizer. Police, non?
   - Exato. Delegado Mello Noronha, Tobias Esteves, comissrio adjunto  Brigada Internacional Portuguesa, e Diana de Souza, da... Cruz Vermelha - afirma Noronha,
completando a mentira.
   - Doutor delegado, minhas meninas so todas limpas. Eu exijo um exame de sade por semana - ela frisa. - Eu garanto: so liiiiimpas. Na minha maison nunca houve
um caso de gonorreia, cancro, crista de galo, gonorreia de gancho, cogumelo de Afrodite, cabea de...
   - No estamos aqui por causa delas - interrompe Noronha, horrorizado. - S queremos examinar o cmodo que Halina Tolowski ocupava.
   - Parfaitement, doutor delegado.  a terceira porta  esquerda. Fiquem  vontade, continua tudo como era - explica madame Giselle, aliviada. - As outras inquilinas
e a faxineira tm medo de entrar l. Vous savez, gente primitive, superstition...
   Ao avanar pelo corredor, o trio  surpreendido por um choro convulsivo vindo do quarto de Halina. Noronha saca seu Colt, Diana saca sua Derringer e Esteves saca
seu pente.
   Os dois olham atnitos para o portugus.
   - Foi por reflexo - desculpa-se ele, mostrando a arma de barbeiro.
   O pranto intensifica-se quando abrem a porta. De relance, eles no enxergam ningum l. Finalmente, percebem, oculto pelo espaldar da nica cadeira do lugar,
esvaindo-se em lgrimas, o pequeno Rodap.
   Com um suspiro de alvio, Noronha guarda o Colt, Diana guarda a Derringer e Esteves guarda o pente.
   O delegado mostra sua identidade e apresenta os dois parceiros. Rodap enxuga as lgrimas, pula da cadeira e estende a mozinha.
   - Muito prazer, Otelo Cerejeira - anuncia-se, informando seu nome de batismo. - Claro, sou mais conhecido como "o palhao Rodap" ou, como preferem os esnobes
amantes da pera, "il cantante Battiscopa".
   Diana e Tobias acham graa, mas Noronha no entende. O portugus adianta-se:
   - Tem piada, porque Battiscopa  "rodap" em italiano. Percebe?
   Diana traduz:
   - Vem de "bater a vassoura" no rodap. "Bate-vassoura", entendeu?
   - Sei, sei, hilrio. Mas vamos ao que interessa. O que  que o senhor est fazendo aqui?
   Otelo "Rodap" "Battiscopa" Cerejeira veste-se com aprumo. Apesar da estatura liliputiana, ele porta seu um metro e trinta com invejvel elegncia. Os ternos,
feitos sob medida no alfaiate Nagib, o melhor da cidade, os elevator shoes, importados de Londres, tudo empresta a Rodap o requinte dos anes de Velzquez. O chapu
Borsalino e uma bengalinha com casto de prata completam o figurino. Enquanto anda pelo exguo espao, para ele de dimenses palacianas, declara, controlando a emoo:
   - Senhor delegado, sou um homem bem-sucedido na minha carreira profissional. Trabalho desde pequeno. Deixe-me corrigir, desde criana. Como Rodap ou Battiscopa,
os picadeiros lotam pra me ver. Hoje, com trinta e cinco anos, estou rico. Continuo trabalhando pelo prazer da arte. Ainda ambiciono o sucesso internacional, mas
confesso minha fraqueza: me apaixonei por Halina assim que a vi. Pedi diversas vezes que ela se casasse comigo, mas ela recusava. Gostava da sua liberdade e achava
que o preconceito me prejudicaria. - Ele pega uma boneca de madeira sobre a cmoda. - Entrei aqui sem que madame Giselle visse pra buscar esta matrioshka. Halina
costumava dizer que essa boneca russa que tem vrias bonequinhas menores dentro era o smbolo da nossa relao. O pequenininho dentro da grandona - o ano revela,
entre soluos.
   Faz-se um momento de silncio emocionado. Ele puxa o fino leno com iniciais bordadas  mo que lhe enfeita o bolso e solicita, enxugando as lgrimas:
   - Senhor delegado, gostaria de pagar o enterro da minha querida Halina. Meu secretrio vai tratar de tudo. Eu fao questo de permanecer incgnito, no quero
que a minha presena seja motivo de chacota no funeral. Depois da violncia que ela sofreu nas mos do assassino,  justo que seja enterrada com todas as pompas.
Que ela tenha na morte as riquezas que no conseguiu em vida. Contratei o melhor servio fnebre da cidade pra cuidar de tudo. A funerria Estige.
   """"
   Uma detalhada inspeo do recinto onde Halina morava no revela nada de interesse. Acima da cabeceira da cama, o clssico crucifixo ao lado de uma imagem de santa
Maria Madalena, considerada a protetora das prostitutas. No velho guarda-roupa, alguns trajes, pretensamente excitantes; nas gavetas da cmoda, objetos para prticas
sexuais, e, no armrio do banheiro, aspirina, perfumes baratos, utenslios de maquiagem, um frasco aberto com cpsulas homeopticas, pasta e escova de dentes; enfim,
a parafernlia habitual. No h mais o que fazer ali.
   Diana sai do quarto na frente do grupo. De repente um "fregus" a segura pelo brao no meio do corredor. O homem  musculoso, porta um chapu de abas largas,
usa botas e traz um leno vermelho amarrado em volta do pescoo. Fala com um pronunciado acento do Sul.
   - Bah! Nunca vi chinoca mais guapa na zona, ch! Quanto  que tu cobra?
   - Eu no trabalho aqui. Me solta!
   - Deixa de histria, guria! Se t na lagoa,  peixe.
   Esteves aparece e dirige-se com firmeza ao gacho:
   - Solte imediatamente a senhorita!
   - No te mete, portuga, que eu te furo - ameaa o gacho, puxando uma faca da bota. - Sou amigo do Bejo Vargas, te mato e no me acontece nada! - ele bazofia,
referindo-se ao violento irmo de Getlio.
   Antes que Tobias reaja ou que Noronha interfira, um blido passa por eles e atinge o arruaceiro no rosto, derrubando-o, inconsciente, no cho. O blido  o palhao
Rodap. Ele levanta-se, pega o chapu e a bengalinha, arruma o palet e despede-se beijando a mo de Diana:
   - No suporto pessoas grosseiras.
   Otelo "Rodap" "Battiscopa" Cerejeira desaparece pela porta da penso de madame Giselle, deixando atrs de si um rastro de admirao, inveja e incredulidade.

   As Esganadas
   12
   putsch
   a palavra em caixa-alta  a manchete dos jornais do pas. Refere-se ao golpe de Estado integralista, fracassado um dia antes com o assalto ao palcio Guanabara,
ao qual resistiram de arma na mo Getlio Vargas e sua filha Alzirinha.
   A revolta de extrema direita pretendia a execuo de Getlio, dos ministros e das altas patentes do governo. Nada deu certo. Um dos motivos pitorescos por que
a pattica operao se transformou numa farsa total foi o fato dos rebeldes terem esquecido de cortar as comunicaes do pbx central entre o Guanabara e o Catete.
O telefonista de planto no Catete deu o alarme. A razo da demora das foras governistas em dominar a amotinao foi prosaica. A porta que separa o Guanabara do
campo do Fluminense e permite o acesso ao palcio estava fechada. Em vez de arromb-la, as tropas do governo preferiram esperar pela chave. O episdio causou profunda
irritao em Alzira Vargas.
   Na realidade, tudo ocorreu porque, depois de insinuar promessas a Plnio Salgado, o criador da Ao Integralista, Getlio colocou o partido na ilegalidade. O
curioso  que ambos tinham muitas ideias em comum, e talvez por isso mesmo Plnio Salgado tenha cado no conto do vigrio do Estado Novo.
   Na funerria da rua Real Grandeza, Caronte perambula entre os caixes. Para sua surpresa, dias antes do "golpe" um doador annimo pagou um enterro de alto luxo
para a polaca, sua vtima mais recente. Sente um arrepio de prazer ao lembrar-se de como a penetrou pela boca e pela boceta com a banana-da-terra. No esperava que
algum ligasse para os despojos. Imaginava que o destino daquela puta gorda seria a vala comum.
   Passa um olhar distrado pelo jornal, sem se abalar com as notcias sobre o Putsch. No tem simpatia por Getlio nem por Plnio. Seu nico interesse na poltica
so os cortejos fnebres dos potentados, em que o fausto monumental testemunha o amor do povo. Esplendor ressarcido,  claro, pelo bolso do contribuinte. Admira
os russos, que embalsamam seus lderes. Gastam fortunas na preservao do corpo de Lnin. Ele sabe o quanto esse processo  difcil. Quando uma eviscerao  malfeita
e restos de matria orgnica so deixados no interior do cadver, este acaba explodindo em virtude da formao de gases. Caronte imagina, com um sorriso, uma solenidade
no Kremlin e pedaos da mmia de Lnin atingindo o rosto de Stalin.
   Tamborila, nervosamente, na tampa das urnas, sem se importar com os olhares desconfiados dos funcionrios. A transpirao empapa seu colarinho branco cuidadosamente
engomado. O terno escuro esconde as manchas de suor sob as axilas. Caronte sente falta da soluo de herona e cocana que ele mesmo prepara em seu laboratrio.
Tem de se abster at do cigarro de haxixe embebido em formol, no pode se expor a uma investigao casual provocada pelo atentado intil.
   O que o incomoda no evento so as medidas precaucionais tomadas pelo governo, reforando a segurana. Pelotes do Exrcito patrulham a cidade, destacamentos da
Polcia Especial, de quepe vermelho, montados em motocicletas, percorrem as ruas dia e noite. A Guarda Civil revista automveis e solicita documentos a indivduos
suspeitos ou no.  improvvel que um veculo de funerria seja revistado; porm, nessas circunstncias, tudo  possvel.
   Caronte  obrigado a refrear seu desejo de ir  caa. Pouco importa. No seu ofcio, a pacincia, mais que virtude,  obrigao. As longas horas gastas no preparo
do morto, o pranto prolongado dos velrios, o desfile em passos majestosos da ltima jornada at o sepulcro, as oraes fnebres interminveis  beira do tmulo,
tudo requer a eupatia de um monge budista. Em breve, a tropa volta  caserna, a Polcia Especial reserva os quepes vermelhos para as escoltas e desfiles, e a Guarda
Civil retorna s rondas de rotina. O pas volta a trilhar os caminhos do Estado Novo. "H trs anos, falhou a Intentona Comunista, agora falha o Putsch fascista",
pensa ele. "Nada como um golpe depois do outro."
   Gostaria de partir para o antigo matadouro no galpo da Elpdio Boamorte, no bairro Praa da Bandeira, onde deixou o velho furgo, mas, como tem conscincia de
que a imprudncia  sua inimiga, restringe o impulso. Caronte domina a arte da emboscada. Ele sabe onde encontrar suas presas e as escolhe quando passam inconscientes
do perigo que correm.
   Pensativo, ele cessa o tamborilar, e seus dedos de unhas afiladas acariciam a tampa brasonada de um caixo de luxo: "No h pressa. Sou senhor do tempo e a caa
 farta".
   As Esganadas
   13
   Dentro de cada mulher gorda
    h uma mulher magra suplicando para sair.
   Fora de cada mulher gorda
    h uma mulher mais gorda ainda
    suplicando para entrar.
   O ms de maio vai se arrastando no outono mormacento, sem que surjam novidades no Caso das Esganadas. Graas a Tobias Esteves, e sem o conhecimento do delegado
Mello Noronha, Diana teve acesso s sinistras imagens das mulheres assassinadas.
   Nada se comparava em aberrao na crnica policial do pas desde o "Crime da Mala". Sentada  sua mesa na redao d'O Cruzeiro, ela rememora o evento. H dez
anos, em So Paulo, o italiano Giuseppe Pistone estrangulou e mutilou sua esposa grvida, Maria Fa Mercedes, uma linda jovem de vinte e um anos. Para se livrar
da morta, Pistone comprou uma enorme mala de couro. Como o corpo da mulher no coubesse, ele seccionou-lhe as pernas com uma navalha, na altura do joelho. Levou
o fardo medonho at o porto de Santos e despachou-o pelo navio Massilia para Bordeaux, com um destinatrio fictcio. O cheiro insuportvel e um lquido escuro que
escorria da carga ao ser iada fizeram com que a Polcia Martima averiguasse o contedo. Ao romperem o fecho, encontraram, dentro da mala, os despojos de Maria.
Foram achados tambm pedaos de papel que forravam a base do ba, uma caixinha de p de arroz Coty, um vidro com pastilhas para garganta, uma seringa, um vidro de
extrato, um travesseiro sem fronha e peas de roupa feminina. Um colete de l e uma camiseta de tric cobriam o torso. As pernas seccionadas portavam meias de seda
presas por ligas de elstico. O que mais revoltou os investigadores foi terem encontrado, junto ao corpo da moa, um minsculo cadver: o feto de uma menina de seis
meses. Segundo o legista, o beb nascera dentro da mala.
   Ela lera a notcia, sem que seus pais soubessem, numa publicao clandestina, ilustrada com desenhos sanguinolentos, que uma colega do colgio Sion lhe emprestara.
Teve pesadelos durante meses.
   Diana decide escrever sobre as esganadas. At ento, o interesse se restringe ao comentrio momentneo diante da notcia ou  curiosidade mrbida de leitores
daqueles jornalecos sensacionalistas em que o sangue vaza das manchetes e se coagula nos quadrculos das palavras cruzadas. O que motivaria essa falta de indignao?
Quando estudava jornalismo e fotografia em Paris, Diana fora a Viena para assistir a algumas palestras de Sigmund Freud. A psicanlise ainda era causa de escndalo
e ela interessara-se pelo assunto. Sabe que esse tipo de crime tem uma motivao psicolgica profunda. Ela quer que as pessoas se conscientizem de que h um assassino
repulsivo  solta pelas ruas e espera que o seu artigo provoque um sentimento de solidariedade. A populao precisa ficar alerta a qualquer atividade suspeita. Seus
dedos geis martelam a Remington Noiseless porttil, e a matria comea a tomar forma.
   Existe um preconceito velado contra a obesidade. Na verdade, dificilmente os homens o sentem. Podem ser gordos inteligentes ou ricos ou oferecerem tantos outros
atrativos. Quem sofre o problema com maior intensidade so as mulheres. As mulheres gordas. O leitor pode se escandalizar com o uso da palavra gorda. Os eufemismos
mais comuns so: cheinha, forte, grande e, o mais ousado, gordinha.
   Geralmente, acham que a gorda (odeio a palavra obesa) no tem fora de vontade. Nem carter. Nem vergonha na cara. A gorda  um pria; o excesso de peso, um divisor
de guas. O prprio adjetivo  um palavro. Ningum se importa com o sofrimento ou com a humilhao da gorda. Acham que ela  gorda porque quer.
   Observem o olhar triste das moas gordas varrendo as vitrines da moda. Os figurinos so para as magras. Alguns vendedores ainda informam sem se alterar: "Aqui
 s pra pessoas normais, madame". E a gorda se afasta engolindo o ultraje. Restam-lhe as lojas especializadas ou as costureirinhas de bairro. Para mim, anormal
 o tratamento do vendedor.
   A obesidade  democrtica, no faz diferena de classe. H gordas ricas e gordas pobres. Todas sentem a mesma reprovao silenciosa da sociedade. Existem gordas
belas, mas, se a beleza  notada, h sempre um apndice ao comentrio: "O rosto  lindo. Pena que seja gorda".
   Agora, cuidado! Alm da opresso usual, todas as gordas da cidade, ricas ou pobres, feias ou lindas, virgens ou libertinas, correm o perigo de uma morte apavorante.
As cinco mulheres torturadas e assassinadas nada tm em comum, a no ser o fardo da gordura. Um manaco pervertido resolveu manifestar seu desagrado torturando e
matando.
   Em princpio, minhas matrias so ilustradas por fotografias, mesmo nas reportagens que mostram a crueldade do ser humano em condies absurdas, como na Revoluo
Espanhola. Desta vez as imagens so repulsivas demais at para homens acostumados aos pavores da guerra. Resta-me perguntar:
   quem  este homem?
   Quem  este carniceiro insensvel ao terror que provoca? No h necessidade de um Belford Roxo ou da doutora Nise da Silveira para traar o perfil da besta que
perpetra esses horrores ou para analisar-lhe a psique. A banana que usou para violentar a ltima vtima  um smbolo claro da sua impotncia.
   Certamente, no  humano; se fosse, teria asco do que fez. O homem  o nico animal capaz de sentir nojo.
   Diana de Souza
   As Esganadas
   14
   Dez horas da noite da ltima quinta-feira do ms. Tobias e Diana esto sentados junto s vitrines, na sorveteria Americana, tomando um sorvete de creme com calda
de chocolate. As vitrines envidraadas da sorveteria permitem que os fregueses observem o movimento animado da Cinelndia. Os dois acabam de sair do Rival, onde
assistiram  primeira sesso da pea Fontes luminosas, de Louis Verneuil e Georges Berr, com Dulcina e Odilon, o casal mais ilustre do teatro nacional.
   - Confesso que tenho imensa dificuldade em entender o Odilon - comenta Tobias Esteves. - A voz  grave, bonita, mas as palavras jorram-lhe da boca aos borbotes.
Deve ser porque eu sou portugus.
   - No  por ser portugus, no, Tobias. Eu no entendo metade do que ele fala.
   Na dupla, a grande atriz , sem dvida, Dulcina. Odilon  um belo homem, com porte nobre, mas s vezes sua dico torna o texto indecifrvel. Mesmo assim, a qumica
da dupla em cena  perfeita.
   Uma jovem se aproxima da mesa, empunhando o ltimo nmero d'O Cruzeiro aberto na pgina de Diana.  transparente sua admirao pela reprter.
   - Desculpe, mas pode me dar seu autgrafo? Adoro as suas matrias. Meu pai  escritor e eu tambm pretendo escrever.
   - Como  o seu nome?
   - Maria Clara.
   - E seu pai? Como ele se chama?
   - Anbal Machado.
   - Gosto muito do que seu pai escreve. Espero que voc tenha o mesmo talento - Diana diz, redigindo a dedicatria.
   - Obrigada - agradece a jovem, satisfeita, afastando-se. Acena com a revista assinada para o seu grupo numa mesa distante, como se fosse um trofu.
   Tobias Esteves aproveita o gancho para comentar o artigo de Diana:
   - A propsito, no acha que a menina est a se expor demais? No  possvel calcular-se a reao do anormal.
   - Duvido muito que ele se arrisque. As ruas continuam muito patrulhadas em funo do golpe do dia 11. Ele pode ser louco, mas no  burro. Tanto que no h sinal
de novos ataques. Depois, no fao parte da categoria de sua preferncia.
   - Mesmo assim, a obsesso do assassino por mulheres gordas pode mudar a qualquer momento. Sabe-se l o que se passa naquela mente? Alis, quando eu ainda era
inspector de polcia em Portugal, desvendei o "Crime da Fechadura" - informa o detective, com uma ponta de orgulho.
   - Foi um crime famoso?
   - Em Portugal, sim. Era um padre fantico que matava midos. Chegou a matar e a cortar a lngua de vinte e trs, antes que eu o prendesse.
   Diante do cenho franzido de Diana, ele traduz:
   - C diz-se meninos.
   - Eu sei, minha reao foi de espanto pelo absurdo do crime.
   - Pois! Quando o prendi, ele explicou que matava as crianas pra cur-las do pecado mortal de espiar pela fechadura.
   - E por que cortar fora a lngua?
   - Pra que eles no contassem o que viram.
   Pela expresso inescrutvel de Esteves, Diana no sabe se ele fala a srio.
   -  muito tnue, a linha que separa o louco assassino do assassino louco. Por isso, chamou-me a ateno o que escreveste sobre o perfil psicolgico do criminoso.
Disseste-o bem, no carece um Freud pra perceber que estamos diante de um psicopata perigoso. Pelo que se averiguou nas autpsias, presume-se que seja impotente.
No h vestgios de conjuno carnal e o smen encontrado na parte externa das coxas de todas as vtimas pressupe a incapacidade de penetrao. As bananas enfiadas
na pobrezita da polaca so um smbolo flico bvio.
   - Mas por que gordas, s gordas?
   - E por que doces portugueses, s portugueses? Ser portugus?
   Os dois se quedam pensativos por alguns momentos. Diana rompe o silncio num grito:
   -  a me!
   As pessoas das mesas vizinhas se assustam, pensando que  uma ofensa de Diana ao companheiro. O matre se aproxima, pronto para intervir a fim de evitar qualquer
comoo.
   - Perdo, estou s contando uma histria... - Diana explica, sorrindo.
   Esteves continua, num tom mais civilizado:
   - Claro, s pode ser fixao materna! Amor e dio  prpria me!
   - E a me  gorda - completa Diana, entusiasmada.
   - Gorda e portuguesa!
   Esteves refreia sua animao:
   - Ou de famlia portuguesa. Claro que no h provas de nada do que ns deduzimos, mas isso ajuda a formar uma imagem do assassino. Felizmente, ainda no houve
outra atrocidade.
   - Bem, vamos mudar de assunto? Tenho uma tima notcia - revela Diana, pedindo mais sorvete para os dois. - Hoje, passei nas provas eliminatrias.
   - No fao a mnima ideia do que a menina est a falar.
   - Santo Deus, Tobias, me classifiquei pro Circuito da Gvea, o Trampolim do Diabo! Vou correr no domingo.  o primeiro grande prmio s pra pilotos brasileiros.
   O susto  to grande que Esteves se engasga e derruba a taa de sorvete na gravata.
   As Esganadas
   15
   Tobias Esteves acredita na competncia de Diana como motorista. Sabe que ela guia com maestria o seu Lagonda lg6 Drophead conversvel. Isto , sabe por ouvir
falar. Valdir Calixto, a quem Diana deixou em casa uma vez, jura que nunca mais pega carona com a bela piloto. Apesar da habilidade comprovada da moa ao dirigir
a linda barata verde Racing Green, ele prefere quem conduza fazendo as curvas nas quatro rodas e evitando cavalos de pau para entrar numa vaga.
   Na tarde do dia seguinte, mesmo sabendo do perigo, Tobias prontifica-se a ajud-la. Ele  um aficionado do automobilismo. Quando estudante, nas frias disputava
com os colegas carreiras ilegais ao volante de um Chevrolet pela estrada de Sintra. Ficara amigo do extraordinrio corredor portugus Manoel de Oliveira, que correria
no vi Circuito Internacional da Gvea, no dia 12 de junho, e estava no Rio ajustando seu Ford Menres & Ferreirinha, feito no Porto. Vencera, com o mesmo carro,
o Circuito Internacional do Estoril, chegando  frente das Bugatti e Mazerati. Manoel, que era tambm cineasta, acabara de lanar o documentrio J se fabricam automveis
em Portugal.
   Diana seria a segunda mulher a participar do Circuito da Gvea. Dois anos antes, a francesa Mariette Hlne Delangle, mais conhecida pelo nome artstico de Hell
Nice, do tempo em que danava no Casino de Paris, fora a sensao da corrida. Na ltima volta, quando ela disputava o terceiro lugar com Manuel de Teff, as rodas
dos carros se tocaram e Hell voou sobre os espectadores. Resultado do acidente: trs mortos e quarenta feridos. Entre os mortos, o soldado que acolheu o impacto
direto do corpo de Hell, que escapou. Algumas testemunhas do acidente disseram que a culpa havia sido de Teff, que fechou o carro da francesa: "Ele no admitia
ser ultrapassado por uma mulher". De qualquer forma, nada foi comprovado e Manuel de Teff ficou com o terceiro lugar.
   Diana classificara-se na ltima prova eliminatria fazendo o percurso em nove minutos e dez segundos, abaixo do limite de dez minutos. Mesmo assim, seu tempo
precisava melhorar. Ela alinharia seu carro ao lado de Chico Landi, Nascimento Jnior e outros corredores de grande experincia. A periculosidade do percurso j
cobrara o seu nus. Durante um dos treinos, Jos Bernardo, pilotando um Ford V8, bateu num barranco e morreu no hospital. Por ironia, o mesmo veculo j matara Irineu
Corra, em 35, e Dante Palombo, em 36. O carro ficou conhecido como "O Assassino".
   - Se ests mesmo disposta, tens de melhorar a performance do teu galimo... - brinca Esteves, chamando o Lagonda de calhambeque. - Eu aprendi como ajustar um
carro com o meu amigo Manoel de Oliveira. Ningum afina um motor como ele.
   Diana se admira com a descoberta de um novo talento de Esteves. Quem diria que aquele portuguesinho gorducho entendia alguma coisa de automveis? Aceita a oferta
na hora, e os dois partem no belo Lagonda de Diana para uma oficina mecnica na rua Francisco Otaviano, onde Manoel de Oliveira preparava seu carro para a prova
internacional. Depois das manifestaes afetivas entre Manoel e Tobias, o detective apresenta Diana ao famoso corredor e explica o motivo da visita. Segue-se uma
conversa que deixa Diana mais espantada ainda. Ela jamais poderia supor o conhecimento tcnico de Esteves, que trocava ideias, de igual para igual, com o grande
piloto portugus.
   - Sabes muito bem que o Lagonda no  o carro apropriado pro circuito - comea o corredor.
   - Sei, sei, mas a Diana  teimosa e conseguiu se classificar. Fez a volta em nove minutos e dez segundos.
   - Com este Lagonda, assim, como est?!
   - Pois.
   - Meus parabns - diz Oliveira, cumprimentando Diana. - Ento a coisa muda de figura. Vamos ver o que podemos fazer pra melhorar o desempenho desta mquina.
   Manoel abre o cap do conversvel e estuda, em detalhes, o conjunto do motor. Depois de uma breve avaliao, ele declara:
   - Acho que a primeira providncia pra melhorar a velocidade do carro da senhorita corredora  rebaixar o cabeote.
   - Ao mesmo tempo, deve-se trocar a lona dos freios por lonas tranadas, pra evitar o aquecimento e tornar o conjunto mais eficaz - aconselha Tobias.
   - Perfeito. Temos que substituir o carburador por um maior pra usar um gicl mais aberto.
   - Claro! Isso vai fazer com que o resultado, por volta, melhore em torno de um segundo - concorda Tobias.
   - O Rio  uma cidade muito quente,  melhor substituir a bobina eltrica por uma com mais capacidade. A colocao debaixo do cap  muito prxima ao bloco do
motor e, depois de aquecida, pode fazer o carro falhar.
   - Exato. Por isso, temos que trocar a ventoinha do radiador, que vem equipada com quatro ps, por uma de seis ps, que vai ventilar mais e baixar a temperatura
- sugere Tobias Esteves.
   Manoel examina os pneus.
   - Est ameaando chuva. Pra melhorar a aderncia,  bom frisar os pneus com serrote para aumentar as ranhaduras. O Chico Landi e o Pintacuda fazem isso.
   Terminando a inspeo minuciosa, ele abaixa-se atrs do carro.
   - Pronto. S falta agora colocar um cano de descarga reto no lugar do silencioso. A potncia do Lagonda vai melhorar e a Diana vai se fazer notar pelo ronco ensurdecedor
da mquina, antes mesmo que o pblico possa v-la na pista.
   Tobias diverte-se com a ideia:
   -  tudo que a menina gosta, j chegar fazendo um barulho louco...
   As Esganadas
   16
   Rio de Janeiro, domingo, 29 de maio de 1938. Desta vez, a previso do tempo acertou. Chove forte antes das nove, hora da largada do i Circuito da Gvea Nacional.
Com mais de cem curvas e quatro tipos de piso diferentes: asfalto, cimento, paraleleppedo e areia, o traado  um verdadeiro desafio  percia dos pilotos, e a
chuva torna o percurso mais perigoso ainda. No local da largada, os corredores passam pelos trilhos escorregadios dos bondes, aumentando o perigo. Oduvaldo Cozzi
vai irradiar o acontecimento pela rdio Nacional e, dada a presena das autoridades, a rdio Tupi resolve transmitir o evento na voz de Rodolpho d'Alencastro:
   "Muito bom dia, amigo rdio-ouvinte da prg-3, Tupi do Rio de Janeiro. Os heris da pista esto literalmente get out little cockroaches race, expresso que, segundo
me consta, vem da monrquica Gr-Bretanha e significa 'fora das baratinhas de corrida'. Digo isso porque as divindades no pouparam os valorosos competidores das
pesadas btegas d'gua que se abatem sobre suas cabeas, encharcando-lhes os blidos e deixando o traado ainda mais periclitante, o que em nada favorece o aguardado
embate. Enfim, trocando em midos para os menos ilustrados, chove muito."
   Mello Noronha, Calixto e Tobias Esteves esto num lugar especial junto s tribunas, graas  posio privilegiada do delegado. Apesar de ocuparem uma arquibancada
coberta, o precavido Calixto permanece com o guarda-chuva aberto para se proteger de eventuais respingos. Tobias  o mais nervoso de todos. Conhece bem os riscos
do percurso, ainda mais com a chuva que cai. Noronha manifesta a ranzinzice de sempre:
   - S falta agora essa moa se estabacar contra uma rvore ou mergulhar do trampolim. - O delegado se refere ao Trampolim do Diabo, uma das curvas mais perigosas
do trajeto. - Bom, pelo menos no se tem notcia de outra gorda assassinada. Minha mulher ficou to assustada com o artigo da Diana n'O Cruzeiro que comeou a fazer
dieta.
   - Mas a dona Yolanda no  gorda - pondera Calixto.
   - Toda mulher acha que  - filosofa Noronha.
   - Ser gordo ou se achar gordo so duas coisas diferentes - afirma Tobias Esteves. - Minha alcunha em Lisboa, junto aos colegas da delegacia, era Gordo; no entanto,
no me acho gordo.
   - O senhor no  gordo,  s um pouco baixo pro seu peso - declara o diplomtico Calixto.
   Escuta-se um alvoroo e  dada a partida. Os vinte pilotos se lanam em alta velocidade em busca da vitria.
   o circuito

   A largada  na rua Marqus de So Vicente, em frente s tribunas. Os carros seguem pela Visconde de Albuquerque, margeando o canal, e entram na avenida Niemeyer,
beirando o mar. Depois, se afastam da orla martima e seguem, em terreno plano, at subir pela estrada da Gvea. Passam pelo Trampolim do Diabo e, tendo atingido
o topo da montanha, retornam  Marqus de So Vicente. So vinte voltas num percurso de onze quilmetros. Nas retas, as mquinas chegam a alcanar duzentos quilmetros
por hora. Com chuva,  quase um suicdio. Tobias teme pela jornalista.
   O peloto completa a primeira volta e a voz hipntica de Rodolpho d'Alencastro faz-se ouvir pelos alto-falantes instalados sobre as tribunas:
   "Por mais que me esforce, como profissional dedicado,  difcil transmitir a emoo que me embarga em momentos de tamanha intensidade. S no enrouqueo porque
fao uso permanente do Xarope So Joo, que evita graves afeces da garganta e do peito. O Xarope So Joo  um remdio cientfico apresentado sob a forma de saboroso
licor. No ataca o estmago nem os rins e facilita a respirao, tornando-a mais ampla. O Xarope So Joo fortalece os brnquios e protege os pulmes da invaso
de perigosos micrbios."
   No tempo que Rodolpho d'Alencastro leva para ler o reclame, Nascimento Jnior, Chico Landi e o resto do peloto passam em frente ao palanque completando a quarta
volta.
   - Olha l! A dona Diana est em quarto lugar! - grita o impetuoso Calixto.
   - Mas, pelo ronco, o motor est a falhar - informa Esteves, que entende do assunto.
   Na altura da dcima segunda volta, eles notam a ausncia de Diana. Os trs se preocupam, h sempre a possibilidade de um acidente fatal. Vrios carros desistiram
da corrida. De repente, veem a moa, desolada, vindo a p pela Marqus de So Vicente, em direo ao palanque. Ela tira a touca de couro e sacode seus cabelos lisos
empapados de suor, sob a chuva que continua a cair. Lembra um cozinho desprotegido saindo da gua. O rosto est coberto de lama, a no ser no espao protegido pelos
culos que ela traz nas mos. Os culos deixaram um espao limpo formando uma mscara branca. Ela senta-se ao lado dos trs, lamentando-se:
   - No deu.
   - Como, no deu? - protesta Tobias. - Ficaste em quarto lugar durante boa parte da prova. No te esqueas que correste junto a profissionais excelentes. E o trajeto
no  fcil. O Quirino, irmo do Chico Landi, parou na quinta volta - consola ele, segurando timidamente a mo de Diana.
   O grande prmio segue numa certa monotonia at a ltima volta, confirmando a vitria de Nascimento Jnior, na ponta desde o incio da prova, com Chico Landi no
seu encalo.
   Noronha, que odeia automveis, apressa-se a sair, empurrando os companheiros.
   - Calixto, amanh, segunda-feira, s nove, na minha sala.
   Esteves comenta baixinho com Diana:
   -  impressionante como o delegado forma frases inteiras sem usar verbos.
   O pblico vai pouco a pouco deixando o Circuito da Gvea. H um clima melanclico de final de domingo. Ainda se escuta Rodolpho d'Alencastro tecendo seus ltimos
comentrios:
   " quase impossvel a este locutor, amigo rdio-ouvinte, resistir a tanta emoo. A corrida contou, inclusive, e pela segunda vez, com a participao de uma mulher,
a notvel sportswoman Diana de Souza, reprter d'O Cruzeiro, revista que, como a nossa emissora, pertence ao doutor Assis Chateaubriand. Se consegui ter foras para
narrar evento to extraordinrio, foi devido  mo salvadora da Phytina Ciba. Tal  a Phytina: seu elemento de fsforo vegetal assimilvel tem uma ao excelente
sobre o sistema nervoso, neurastenia, excitabilidade, insnia, falta de memria, falta de apetite, esgotamento nervoso, enfim, todos os padecimentos provocados pela
perda diria de fosfatos. Alm disso, a Phytina Ciba contm clcio e magnsio, elementos..."
   A cantilena maviosa  interrompida pelo grito longnquo de um espectador que retorna a casa:
   - Cala a boca, veado!
   Pela primeira vez na vida, Rodolpho d'Alencastro no sabe o que falar.

   As Esganadas
   17
   Nos primeiros dias de junho, h um relaxamento na vigilncia ostensiva das ruas da cidade. Primeiro porque no houve nenhuma repercusso a favor do golpe integralista
e, segundo, e mais importante ainda, o Brasil estreou na terceira Copa do Mundo, na Frana, com uma vitria de seis a cinco sobre a Polnia. Os europeus se espantaram
com a habilidade de Lenidas da Silva, o Diamante Negro, criador da "bicicleta". Durante o jogo, no meio do campo encharcado, Lenidas perdeu as chuteiras, mas,
mesmo assim, descalo, fez um gol. A Copa vem sendo marcada pela poltica. A Alemanha nazista invadira a ustria e incorporara alguns jogadores austracos  sua
seleo. Os italianos eram vaiados por entrarem em campo fazendo a saudao fascista.
   Caronte no  torcedor, odeia futebol. Na verdade, odeia qualquer tipo de esporte. A coisa mais parelha a uma arena esportiva que ele conhece  o cercado das
rinhas de galo. Ele adora uma boa rinha. Principalmente aquelas mais sanguinolentas, quando os donos revestem os espores das aves com esporas de ao afiadas como
navalhas.
   O que importa  que a competio est sendo transmitida em cadeia nacional diretamente da Europa. Acomodado nas gerais, junto ao pblico, o speaker Leonardo Gagliano
Neto, da rdio Clube, narra os jogos do Brasil.
   Pouco interessa a Caronte o resultado das pelejas. O que vai favorecer o seu passatempo predileto  que a maioria da populao fica em casa ouvindo pelo rdio.
Os que no tm aparelho se juntam diante da galeria Cruzeiro ou nos estdios de futebol para ouvir as transmisses pelos alto-falantes que as emissoras ali instalaram.
Caronte acha esse entusiasmo de uma absoluta vulgaridade. Prefere ouvir programas de msica clssica.
   Lendo os jornais, soube que o jogo da vspera pelas quartas de final, contra a Tchecoslovquia, havia sido de uma violncia mpar e que o radialista, ao narrar
a disputa, criara um trocadilho devido  brutalidade dos adversrios, dizendo: "Eles no so tcheco-los-vacos, so tcheco-los-toros". E que repetira essa tolice
ad nauseam durante a partida.
   Tarde de quinta-feira, 16 de junho de 1938, feriado de Corpus Christi. Milhares de torcedores escutam a transmisso feita por Gagliano Neto do confronto semifinal
da Copa do Mundo, entre Brasil e Itlia, no Stade Vlodrome de Marselha. Exceto por um ou outro transeunte desinteressado, a cidade est deserta. No seu gabinete,
Noronha e Calixto, ouvidos colados ao rdio, sofrem com a irradiao. Faltam vinte e cinco minutos para terminar o primeiro tempo, e o placar ainda no se moveu.
Num dado instante, referindo-se ao zagueiro italiano Pietro Rava, o locutor deita o verbo numa linguagem elaborada: "Em um impacto mais violento de encontro ao p
do stopper itlico, a esfera perdeu sua rotundidade legal, ficando inadequada para a prtica do viril esporte breto".
   - O que  que aconteceu? - pergunta o intrigado Calixto.
   Noronha responde, lacnico:
   - A bola furou.
   A "esfera"  trocada e a partida continua.
   Indiferente ao certame, Caronte aproveita o momento para retomar a caa s adiposas. Lera com desprezo o que Diana escrevera sobre ele. Impotente? Ele? Logo ele,
que subjugava as gordas a todas as suas vontades? "Eu s me sentiria impotente na ndia, onde as vacas so sagradas", ele sorri do prprio gracejo. Nem chega a sentir
dio daquela fmea burra falando em banana com seu psicologismo hortigranjeiro. "Ah, ser que ela  gorda?..." Ele imagina uma Diana imensa saindo da redao. Caronte
afasta o pensamento dispersivo e se concentra no seu prazer macabro. Logo aps o incio do jogo, ele volta  espreita habitual, no vo escuro do Beco dos Barbeiros.
 l que as escolhe,  l que tocaia o prximo butim. Sua boca enche-se de saliva numa anteviso do gozo reprimido. Duas gordas saem do reduto. Ele se encolhe junto
ao muro e, num gesto generoso, as deixa passar. "Hoje, tenho algo singular", ele pensa, sua magra silhueta camuflada pelas sombras dos portais. Caronte j seguiu
a presa ideal inmeras vezes e sabe para onde ela se dirige, porm quer sentir novamente a emoo da caa. Como um atirador de elite, ele aguarda o alvo. Agora,
com a cidade tomada pela paixo dos jogos,  tempo de abate.
   Na delegacia, Calixto ri as unhas. O ataque italiano procura superar o meio-campo brasileiro. Aos trinta minutos do primeiro tempo, o Brasil vai ao ataque e
Gagliano Neto se entusiasma, narrando rpido, sem fazer vrgula:
   "O Brasil ataca pela esquerda Percio combina com Luisinho Luisinho a Martim Martim passa de primeira para Romeu Romeu a Patesko Patesko perde para Ferrari Ferrari
a Andreolo que estende a Serantoni Zez interfere e devolve a Romeu Romeu a Lopes Lopes avana pela lateral e chuta a gol o goalkeeper Olivieri salta e espalma para
a linha de fundo!"
   Caronte no tem que esperar muito. Logo surge a candidata eleita. Basta segui-la ao local da colheita. Ela vem andando rpido, com seus passinhos estreitos; olha
para todos os lados da rua deserta, para certificar-se de que ningum a observa. Quer passar despercebida, tarefa pouco provvel para algum daquele tamanho. "Ainda
mais com essa roupa!" Caronte ri baixinho, quase revelando sua posio.
   O drama continua a se desenrolar no campo do Vlodrome. Noronha e Calixto se esforam para decifrar, entre os rudos da esttica, a locuo irrepreensvel de
Gagliano, que, num flego, consegue a proeza de pronunciar com clareza cerca de duzentas palavras por minuto:
   "Faltam poucos minutos para o trmino do primeiro tempo a bola  lanada por Domingos que adianta para o centro do campo a Luisinho mas Ferrari corta o passe
e desvia para Meazza Meazza para Piola dentro da rea vem Machado e rouba-lhe o balo de couro Machado devolve a Romeu Romeu passa para Lopes que escorrega e perde
a bola para Locatelli Locatelli entrega para Colaussi na entrada da rea Colaussi chuta com violncia porm nosso goalkeeper defende com firmeza e o juiz Hans Wthrich
da Sua trila seu apito encerrando o primeiro tempo!"
   Sem ter ideia do monstro que a acossa, a jovem deixa o Beco dos Barbeiros e entra na igreja do Carmo. Caronte observa da porta a moa se benzer molhando os dedos
na gua benta da pia ao lado da entrada. Ela se ajoelha com dificuldade, segurando um pequeno frasco entre as palmas unidas, numa orao silenciosa. Levanta-se e
sai na rua Primeiro de Maro. Caronte a acompanha pela calada oposta. A gorda vira  direita na rua So Jos e anda at o largo da Carioca, para pegar o bonde no
Tabuleiro da Baiana, em direo  zona sul.
   Durante o intervalo, Diana e Esteves chegam ao gabinete de Noronha. Como Portugal foi eliminado pela Sua, Esteves torce pelo Brasil. Nervosa, Diana fuma em
cadeia seus cigarros Liberty Ovais. Noronha acende um Panatela, adensando o nevoeiro. Valdir Calixto e Tobias Esteves tossem.
   Tabuleiro da Baiana. O bonde est quase vazio. H poucos carros circulando devido ao jogo. O condutor, que preferia estar na galeria Cruzeiro ouvindo o jogo pelos
alto-falantes, ajuda a gorda a subir no estribo. Ela transpira bastante, empapando o leno que usa para enxugar o rosto. As vestes largas no lhe ocultam a nediez.
Caronte instala-se no ltimo banco do carro e permanece de atalaia. Tilinta a campainha do condutor e o motorneiro avana pela Senador Dantas, o bonde rangendo nos
trilhos. No largo da Glria, uma brisa suave atravessa o carro aberto e agita o chapu de largas abas brancas da jovem, que ento se assemelham s asas de uma gaivota
alando voo. O que primeiro excitou a imaginao do monstro foi precisamente o fato da gorda ser freira.
   Na Itlia, so dezenove horas e seis minutos. Gagliano Neto retoma sua metralhadora verbal:
   "Ateno torcedor brasileiro! Vai recomear o confronto entre Brasil e Itlia! Os players das duas equipes vo para as suas respectivas posies! O juiz apita
e Romeu d a sada passando a Lopes que d a Luisinho este vem com velocidade e retorna a Lopes que o acompanha e chuta contra o gol italiano mas o back Foni percebe
e pe a bola a corner! Luisinho bate o corner mas novamente Foni intercepta e cabeceia pondo a bola para a lateral! Domingos cobra para Percio Percio perde para
Piola na altura da nossa linha mdia Piola d um passe longo para Biavati na extrema direita Afonsinho o persegue mas no consegue apoderar-se da bola! Domingos
domina a situao e devolve a bola para Patesko Patesko rompe a linha mdia adversria mas  derrubado por Foni! O bandeirinha assinala e o rbitro marca o foul
contra a Itlia no limite da rea perigosa! Grande oportunidade para o Brasil! Machado bate a penalidade mandando a esfera para fora do gramado!"
   Catete. O bonde desliza nos carris. Irm Maria Auxiliadora refestela-se no banco duro de madeira. Continua a suar muito, confirmando que o pesado hbito monacal
no se constitui na vestimenta ideal para os trpicos. Seu nome de batismo  Genoveva, em homenagem  santa de quem sua av era devota. Sendo filha de pai desconhecido
e tendo sua me, Mirtes de Souza, uma lavadeira vinda do interior do Paran, morrido muito cedo, a pequena Genoveva fora criada pelas Irms Clarissas, no mosteiro
Nossa Senhora dos Anjos da Porcincula, na Gvea.  para onde a irm Maria Auxiliadora se dirige. Herdara da me os lindos olhos azuis e o extenso dimetro. Aos
trinta anos, depois do noviciado, Genoveva recebera, na consagrao, o nome de irm Maria Auxiliadora. Nesta quinta-feira de Corpus Christi, o convento est praticamente
vazio. A abadessa aproveitou o feriado para organizar uma peregrinao at a cidade de Aparecida, em So Paulo, para alegria das freiras e novias. Sua hospedagem
ficaria a cargo da arquidiocese de Nossa Senhora Aparecida. Irm Maria Auxiliadora sente-se culpada, porque burlou a confiana da abadessa. Inventou uma forte enxaqueca
para permanecer sozinha no Rio. No podia faltar ao encontro no Beco dos Barbeiros e era a ocasio perfeita para se ausentar sem muitas explicaes. O veculo deixa
o largo do Machado, passa pela praa Jos de Alencar e chega  rua Marqus de Abrantes. Para Caronte, a viagem  o aperitivo antes da ceia.
   O prlio estende-se pelo gramado francs e Gagliano informa ao Brasil:
   "Luisinho passa para Percio e este a Patesko que embora acossado por Andreolo consegue devolver a bola a Percio que chuta a gol Olivieri num salto felino pula
mandando a bola para corner! O Brasil perde uma tima oportunidade de abrir a contagem! Tiro de meta a pelota vai em direo a Martim que cabeceia para Luisinho
este para Romeu que estende um belo passe a Patesko Patesko escapa quando vai chutar  derrubado por Foni e a bola volta ao centro do campo! Patesko consegue romper
a linha mdia adversria e entra na rea italiana mas  derrubado por Foni! Nosso ponta-esquerda sofre foul! O bandeirinha assinala mas o juiz no consigna! Para
mim a Sua deixou de ser neutra!"
   Botafogo. O Gvea, bonde eltrico no 10, atravessa a praia e entra na Voluntrios da Ptria. Caronte se abana com o chapu preto de abas largas, sem desgrudar
a vista da monja. Para passar o tempo, irm Maria Auxiliadora l os anncios que esto afixados naquele vago, bem como em todos os vages da Light:
   Larga-me... deixa-me gritar!...
   Na tosse, bronquite ou rouquido,
   use Xarope So Joo.
   O clssico:
   Veja, ilustre passageiro,
   O belo tipo faceiro
   Que o senhor tem a seu lado.
   E, no entanto, acredite,
   Quase morreu de bronquite,
   Salvou-o o Rhum Creosotado.
   E o reclame de um produto muito usado por Maria Auxiliadora:
   Coceira, frieira, assadura,
   Ai, meu Deus, que grande tortura;
   Mas eis que encontrei a soluo:
   Passei a pomada de So Sebastio.
   A irm enrubesce de vergonha, como se o mundo associasse aquela propaganda s intertrigens das suas reentrncias. Ela se benze e pe-se a rezar o tero.
   Na Frana, o drama toma forma de tragdia:
   "Dez minutos do segundo tempo e Machado dispara o tiro de meta para o Brasil Luisinho apodera-se da pelota mas  desarmado por Andreolo Andreolo entrega para
Biavati Biavati foge pela direita e centra para Colaussi na cabea da rea Colaussi chuta e  gol."
   Humait. O no 10 segue pela Voluntrios da Ptria, bamboleando nos trilhos, serpenteando como um drago nos festejos do ano-novo chins. "Olha  direita!", grita
o condutor, avisando sobre uma passagem mais estreita.
   Na chefatura, a decepo  total. Noronha, nervoso, acende mais um charuto, esquecendo-se do primeiro fumado pela metade, e profetiza:
   - Agora, no tem mais jeito.
   O eterno otimista Calixto replica:
   - Calma, doutor, ainda d tempo.
   Esteves, o sem metafsica, torce a teoria de Ockham:
   - Pela lgica, quando algo comea errado, geralmente termina errado.
   Diana enuncia a frase mais gasta pelas torcidas do mundo inteiro:
   - Futebol no tem lgica.
   Calixto replica com outra verdade acaciana:
   - Eu diria at mais: futebol  uma caixinha de surpresas.
   Pelas ondas curtas do rdio, Gagliano Neto tenta animar a torcida:
   "Nosso valoroso goleiro Walter no se abate amigos ouvintes de todo Brasil pois sabe que o tiro itlico era indefensvel! Romeu d nova sada passa a bola a Luisinho
Luisinho perde para Andreolo que chuta para fora! Zez cobra o lateral em direo a Machado mas quem recebe o balo  Colaussi Colaussi mata a bola no peito mas
perde para Lopes Lopes tenta fugir pela direita mas  desarmado por Foni que passa a Locatelli! Nosso meio-campo com Martim Luisinho e Percio parece envolvido pelos
adversrios! Nesta altura o tcnico Adhemar Pimenta deve lamentar a ausncia daquele que j  considerado o maior crack da competio Lenidas da Silva o Homem de
Borracha! Adhemar alega que o player sofre de dores musculares porm alguns comentam que Pimenta estaria poupando o Diamante Negro para a final! A verdade  que
o nosso brilhante center-forward est fazendo falta!"
   Largo dos Lees. Escutam-se os berros da multido que se aglomera em torno dos alto-falantes instalados pela Light nos portes da imensa garagem de bondes localizada
no largo. Irm Maria Auxiliadora se assusta e Caronte boceja.
   "Apesar da desvantagem de um gol nossos heroicos atletas no desanimam! Patesko conduz um perigoso ataque pela esquerda mas  desarmado por Pietro Rava e os italianos
se fecham na defesa trocando passes com o objetivo de gastar o tempo! A falta de Lenidas na nossa equipe ganha dimenses dantescas! O Brasil domina territorialmente
a Itlia sem entretanto atingir o alvo! Serantoni desce pela direita e desfecha um potente chute mas Walter pratica uma bela defesa aplaudida pela multido! Ferrari
se apodera do couro e cruza para Biavati que passa a Meazza o forward italiano dribla Martim e devolve a Ferrari que perde o couro para Domingos! Domingos estende
para Lopes no centro do gramado mas  Locatelli quem responde! Walter sai do gol e pe a bola para fora! Epa! Que que  isso minha gente! Piola d um violento tranco
em Domingos e Domingos revida aplicando-lhe uma rasteira! O juiz apita penalty! A pelota estava fora de jogo mas mesmo assim ele assinala penalty contra o Brasil!
Meu Deus meu Deus meu Deus! Penalty! Sua Senhoria errou! A bola estava fora de campo o mximo que o rbitro helvtico poderia fazer era nos punir com a expulso
do back! Domingos da Guia apenas revidou a agresso do atacante italiano mas o juiz no viu! Ateno torcida brasileira toramos juntos! Estamos a doze minutos da
segunda etapa! So mais de quarenta milhes de brasileiros colgados no silvo do apito de Hans Wthrich! Meazza acaricia a pelota antes de pous-la na marca para
cobrar a penalidade mxima! Ele corre para a bola e na corrida seu calo arrebenta e desce-lhe pelas pernas mas mesmo assim Meazza chuta! A esfera fatdica vai
para um lado Walter pula para o outro! Gol."
   -  culpa do escroto do puto do filho da puta do Filinto Mller! - esbraveja Noronha, esmurrando a mesa, no final do jogo.
   Esteves quer saber como  possvel responsabilizar Filinto pela derrota.
   - Trama fascista! - explica o delegado, sem explicar nada.
   -  isso mesmo, doutor. Drama fascista! - arremeda Calixto, bajulando Noronha.
   Depois de sofrer o segundo gol, o Brasil reage, mas s consegue marcar poucos minutos antes do trmino da partida. Por todo o Brasil, o resultado equivale a uma
hecatombe.
   Um fantico por estatsticas calculou que Gagliano Neto pronunciou pelo menos quinze mil palavras durante o jogo, o que equivale a uma velocidade de doze mil
palavras por hora.
   - Mesmo assim, ainda tem o jogo contra a Sucia, contando com Lenidas. Ns podemos subir ao pdio no terceiro lugar - lembra Diana, tentando consolar o grupo.
   -  verdade, doutor Noronha - anima-se Calixto. - Terceiro lugar, numa Copa do Mundo, l na Europa. No  nada, no  nada...
   - No  nada - arremata Tobias Esteves, com sua lgica arrasadora.
   Jardim Botnico. O no 10 chega  praa Santos Dumont. Irm Maria Auxiliadora e Caronte saltam do carro simultaneamente. Ao observador imaginoso, o sincronismo
da cena lembraria uma marcao teatral.
   O bonde segue sua rota.
   "S falta completar a p a distncia que vai nos levar ao destino final. No caso da freira, literalmente...", pensa Caronte.
   A cidade est silenciosa como nas Quartas-Feiras de Cinzas, depois do Carnaval. Na praa Santos Dumont, o caador separa-se da caa.  uma separao temporria.
Irm Maria Auxiliadora atravessa a estreita rua das Magnlias para a Doze de Maio e sobe resfolegando,  direita, a rua do Jequitib at o mosteiro das Clarissas
Pobres. Caronte segue-a de longe, porm continua em frente, para o largo Allyrio de Mattos, no fim da mesma rua. Foi l que ele guardou seu carro de manh cedo.
Nem se preocupou em escond-lo. Sabe, pela experincia adquirida em anos como papa-defuntos, que as pessoas evitam se aproximar dos furges funerrios, por uma associao
inconsciente com a sua prpria morte.
   As ruas do bairro permanecem desertas. Caronte entra pela porta lateral do veculo destinada aos atades e abre a tampa do caixo que trouxera. Dentro dele, dispostas
com esmero, h uma batina de frade bem dobrada, a corda que cinge a cintura, sandlias franciscanas, uma Bblia antiga, bastante desgastada pelo uso em vrios velrios,
uma maleta abaulada de couro, como aquelas que os mdicos utilizam para transportar seus instrumentos, e uma adaga gitana.
   A adaga era das usadas nos rituais ciganos de passagem da adolescncia para a idade adulta. Caronte se encantara com o desenho gtico do punhal e o comprara,
por meia-pataca, de uma velha romena bbada, numa feira de bugigangas em Augsburg. A faca, de longa lmina dupla e cabo esculpido, valia decerto muito mais do que
ele pagara.
   Caronte fecha-se no estreito compartimento do furgo, tira a roupa, meias e sapatos. Em seguida, ele veste a batina e sai do carro para amarrar a corda rstica
em volta da cintura. Cala as sandlias e as acha bastante confortveis. "Pena que no combinem com os ternos que uso para trabalhar", pensa, num devaneio. Escamoteia
o mrbido punhal dentro das largas mangas do hbito, prendendo-o na bainha atada ao brao. O rosto plido e a magreza quixotesca do-lhe a aparncia de um frade
recm-sado do claustro. Ele senta-se no banco da frente, com a maleta ao lado, e finge ler a Bblia.
   Percebe-se que h pouco movimento atrs dos muros do convento. L ficaram apenas algumas freiras idosas e irms leigas para ajudar nos trabalhos, sendo que a
quase totalidade das freiras e novias participam da peregrinao a Aparecida. Pacientemente, Caronte acaricia a maleta onde leva seus prprios petrechos litrgicos,
e aguarda o anoitecer, logo depois das Vsperas, quando irm Maria Auxiliadora se dirige, como  de seu costume,  capela do mosteiro e se confessa, procurando absolvio
para seu nico pecado.
   As Esganadas
   18
   A capela do mosteiro Nossa Senhora dos Anjos da Porcincula, erigida alguns anos antes pelas Irms Clarissas,  o principal amparo de seu capelo, frei Crispiniano
Boaventura. O bondoso frade cumpre outras diligncias religiosas; contudo, a capela, onde ele celebra missas e atende  confisso das freiras,  tambm o abrigo
das oraes de frei Crispiniano sempre que o indulgente monge  consumido por dvidas quanto a sua vocao.
   O crepsculo desta quinta-feira de Corpus Christi  um desses momentos. A capela est vazia. As poucas religiosas de mais idade que no embarcaram na piedosa
excurso participaram, como todas as quintas-feiras e domingos, da Adorao ao Santssimo Sacramento, das oito s dezoito horas, e j se recolheram s suas celas
em profunda meditao, desprendidas do universo temporal que as cerca.
   Frei Crispiniano  alto e magro, e, quando ele anda com suas passadas rpidas, os cabelos muito ruivos e desalinhados do-lhe o aspecto de uma tocha bruxuleante.
Agora, ajoelha-se diante do altar e pede ao arcanjo Miguel, seu protetor desde os tempos do seminrio, quando era consumido pelas tentaes da carne, um sinal que
lhe assevere a f. De olhos fechados e braos estendidos, ele reza com fervor, suplicando uma confirmao do seu chamamento:
   "So Miguel Arcanjo, primeiro raio de Deus, gldio da proteo e mensageiro da vontade de Deus, defende-me das vacilaes na minha crena, s nosso guardio contra
as tentaes e as ciladas do demnio. Tu, prncipe da milcia celeste, pela virtude divina, precipita ao inferno com tua espada todos os espritos malignos que assolam
minha alma com incertezas. D-me um indcio de que minha devoo  aceita e ser recompensada nos cus."
   No auge do enlevo, num instante de plena adorao, frei Crispiniano Boaventura tem uma epifania e sabe que a dor fulgurante que lhe trespassa o corao como um
raio  a espada de so Miguel Arcanjo abrindo-lhe as portas do paraso.
   Na verdade, a espada  apenas a adaga gitana de Caronte abrindo caminho para o confessionrio.
   Assim que irm Maria Auxiliadora entra s escondidas na capela, para a confisso diuturna,  atrada pelo som do rgo raramente tocado, a no ser por ocasio
das missas solenes celebradas pelo arcebispo. Ela estranha a presena daquele frade capuchinho de magreza eremtica, cujas mos longas e esqulidas extraem to sublime
som do rgo empoeirado. Sua palidez compete com a das imagens de santos que enfeitam a capela. Irm Maria Auxiliadora reconhece o tema interpretado com tanta maestria.
 a missa Se la face ay pale, de Guillaume Dufay.
   Irm Maria Auxiliadora se pergunta a que deve essa bno e indaga por frei Crispiniano, seu confessor habitual.
   - Pax et lux, irm Maria Auxiliadora. Sou o frei Annunciatto. Nosso amado irmo Crispiniano foi obrigado a atender uma convocao da Ordem - mente Caronte, que
escondeu o corpo do pobre frade na sacristia. - Pediu-me que ouvisse a confisso da irm Maria Auxiliadora, caso a irm no veja nenhuma objeo, claro.
   - Como recusar um confessor que interpreta Se la face ay pale de maneira to angelical? A msica  minha segunda paixo.
   - Posso perguntar qual  a primeira?
   - Pode, mas s durante a confisso - responde irm Maria Auxiliadora, dirigindo-se, saltitante, ao confessionrio.
   Ele levanta-se e, com a maleta na mo, a acompanha at o cubculo colocado perto do plpito. Ela observa a pequena mala enfeitada com um crucifixo. Caronte nota
a curiosidade da freira e explica:
   - Dentro dela trago objetos do ofcio. Costumo cham-la de meu estojo sacro de emergncia, mas ainda  surpresa.
   Irm Maria Auxiliadora desculpa-se, embaraada:
   - Perdo, frei Annunciatto, no quero parecer abelhuda.
   - De forma alguma, no deve haver segredos entre ns. Vamos - ele diz, apontando o confessionrio.
   Caronte ajuda a irm Maria Auxiliadora a ajoelhar-se no seu lado da cabine, instala-se no outro e segreda, um sorriso servil estampado no rosto:
   - Fico feliz que a minha ousadia musical no tenha ofendido seus ouvidos. Guillaume Dufay  o meu compositor medieval favorito.
   A freira nem escuta as palavras de Caronte, pois j comeou o palavreado em latim:
   - Ignosce mihi, Pater, quia peccavi!
   E emenda numa ladainha veloz, repetida mecanicamente ao longo dos anos:
   - Deus meus, ex toto corde panitet me mnium merum peccatrum, eque detstor, qui peccndo, non solum...
    interrompida por Caronte:
   - Minha filha, tenho certeza de que Deus conhece bem o ato de contrio. Quando foi sua ltima confisso?
   - Ontem.
   - E que srio pecado a irm cometeu de ontem para hoje?
   - O da gula.
   -  um pecado capital, minha filha, mas pode ser mortal.
   - Eu sei, eu sei! Mas, por mais que eu reze, no consigo me livrar dessa tentao! Basta ver um docinho que eu no resisto. s vezes, as irms me oferecem uma
nesguinha de um bolo de chocolate e, quando eu me dou conta, comi o bolo todo. Sabe como  que me chamam aqui no mosteiro?
   - No.
   - A Novia Rolia.
   Caronte pigarreia para disfarar o riso.
   - A irm conhece o real significado de pecado mortal?
   - Claro que sim, frei. Quer dizer que, quando eu morrer, vou direto pro inferno.
   - Acho que a palavra mortal pode expressar algo mais imediato.
   - Como assim? - ela pergunta, ansiosa.
   - Calma. Tudo a seu tempo. Primeiro, sou portador de boas-novas. Vim aqui hoje como capelo, para cumprir uma misso especial. Um emissrio do Vaticano trouxe-me,
em confidncia, uma Litterae Apostolicae, uma bula papal, do nosso Santo Padre, a ser publicada ainda este ms, tratando desse problema que a aflige. O ttulo da
carta apostlica : Gula. Indulgentia de obesitate. No texto, o Sumo Pontfice explica que a gula, ou gastrimargia, no deve mais ser considerada pecado.
   Irm Maria Auxiliadora mal consegue se conter de tanta alegria. Ser essa nova "Bula da gula" o trmino do seu sofrimento, da sua culpa? No mais comer s escondidas,
temendo a zombaria das irms ou a severa recriminao do seu confessor?
   Caronte susta-lhe o devaneio:
   - No entanto, h uma penitncia a cumprir.
   - Uma penitncia? Que penitncia? - preocupa-se a freira.
   - Nada de muito grave. Para redimir-se das transgresses cometidas anteriormente, a irm deve ingerir a causa das suas faltas at no poder mais, como se devorasse
o mal que lhe consome as entranhas.
   Irm Maria Auxiliadora no resiste a uma gargalhada:
   - Mas essa penitncia  melhor que o pecado!
   Ela logo se arrepende do que disse. Parece-lhe falta de respeito com a Igreja.
   - A palavra de Sua Santidade  infalvel! - admoesta Caronte, erguendo a mo. - O que no te contei, e est escrito na carta apostlica, foi que o Santo Papa
foi informado pelos escolsticos da Confraria dos Taumaturgos de que a Gula  um dos demnios do inferno; filha de Lilith com Pazuzu, irm de Jezebeth e de Abigor,
prima de Asmodeus e Astaroth! Segundo so Toms de Aquino, ela  o ncubo da concupiscncia e dos prazeres libidinosos transportados para o palato. Sob a forma de
uma serpente astral, a Gula se instala, com a bocarra escancarada, no esfago do pecador. Assim, quanto mais o pobre mrtir come, em vez de saciar a fome, mais vontade
tem ele de comer. So Toms cita o filsofo grego Ccero, para alicerar a teoria: "Ab igne ignem capere". Ou seja,  como "apagar o fogo com fogo". Tudo est revelado
na parte oculta da Summa theologiae guardada a sete chaves no Vaticano e  qual s tem acesso o Conselho de Ancies da Confraria e o prprio papa!
   Irm Maria Auxiliadora se benze, aterrorizada. Caronte sai do confessionrio, puxando a freira pelas mos. Senta-se ao lado dela no primeiro banco da capela e
declara:
   - Por sorte, estou em condies de ajudar. - Ele puxa do bolso da batina uma carta escrita num pergaminho rebuscado. - No  por acaso que estou aqui. Sou dos
primeiros sacerdotes formados em Roma pela Sagrada Congregao para a Doutrina da F na prtica deste tipo especial de exorcismo.
   Caronte destrava a maleta.
   - Tenho tudo que  necessrio para remisso dos seus delitos. Trago-lhe absolvio e indulgncia plenria. Aqui est seu castigo, Irm Clarissa.
   Unindo o gesto  palavra, ele levanta o guardanapo de cambraia de linho branco com bordas rendadas que protege o contedo da valise. Junto  estola e  Bblia,
dispostos em vrias camadas, em filas simtricas, surgem dezenas de Pastis de Santa Clara.
   Irm Maria Auxiliadora no consegue desviar os olhos daquele tesouro. No desvario da sua glutonaria, a Novia Rolia imagina que os pastis olham de volta para
ela.
   - Repare na delicadeza difana da forma. Um sopro reverteria a massa fina em poeira de farinha - Caronte segreda em seu ouvido, aulando-lhe o desejo.
   Irm Maria Auxiliadora estende as mozinhas vidas para a maleta, mas ele interrompe seu gesto, segurando-lhe os pulsos:
   - Calma, irm! Como eu disse, antes h de se fazer o ritual do exorcismo desse poderoso demnio! Segundo o meu bispo,  a primeira vez que este esconjuro  praticado
no mundo. Os olhos de Roma esto sobre ns! - Ele pega a Bblia e a estola, ordenando, imperioso: - Ajoelha-te!
   Irm Maria Auxiliadora obedece, de mos postas, porm sem desgrudar a vista dos folheados.
   - Abre a boca e come o mais rpido que podes, enquanto eu leio o exorcismo!
   Inicia-se, ento, o grotesco exerccio. A pattica freira abocanha os pastis, entupindo-se, e Caronte despeja uma algaravia em latim improvisado, comeando pela
receita do pastel:
   - Pastillus Sancta Clara! Coque aqua calore saccharo altum usque punctum stamina. Lutea ovorum addere commoventes semper. Add amygdalas, aut nuces et citrinusve
aquas. Excita cum coquina et bene ire cacabum relevet frigus!
   O falso frade continua em falso latim:
   - Exorcizo te, omnis spiritus immunde, in nomine Dei Patris omnipotentis, et in noimine Domini et Judicis nostri, et in virtute Spiritus et descedas ab hoc plasmate
Dei unus, irm Maria Auxiliadora, pecatoribus quod Dominus noster ad templum sanctumsuum vocare dignatus est, et fiat templum lux, exitus Gula Demonium! Exitus Gula
Demonium! Exitus irm Maria Auxiliadora! Dei vivi, et Spiritus Dominum nostrum, qui venturus est judicare vivos et mortuos, et saeculum per saeculum saeculorum!
   Irm Maria Auxiliadora segue num ritmo frentico. Alternando as mos para imprimir maior velocidade ao movimento, ela embatuma-se quase sem mastigar, estimulada
pela cantilena cada vez mais rpida de Caronte:
   - Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium!
   Sua voz leva a freira a um compasso mais veloz:
   - Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium!
   Ela entulha as bochechas, pastel sobre pastel, e ele acelera:
   - Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium!
   Irm Maria Auxiliadora procura acompanhar-lhe a cadncia, mas engasga nas folhas finas dos pastis. Sofre um acesso de tosse. Tenta comer tossindo, o que se revela
impossvel. Nem mesmo a devoo da freira vence a barreira da fsica.
   Nesse instante, Caronte pega um punhado dos poucos pastis que sobraram e soca-lhe goela abaixo. Num meneio, como um toureiro volteando a muleta, ele passa-lhe
a estola tapando-lhe a boca e aperta o lao.
   Antes de sufocar polvilhada de acar de confeiteiro, irm Maria Auxiliadora observa, horrorizada, a frente da batina de Caronte erguida pelo seu membro intumescido.

   As Esganadas
   19
   Onze e meia da noite de sexta-feira. Depois de uma longa viagem, os nibus que levaram as Irms Clarissas em romaria a Aparecida chegam  rua do Jequitib. As
freiras, fatigadas, saltam dos veculos e cruzam os portes do mosteiro, ainda conversando sobre as maravilhas da segunda baslica erigida em homenagem  padroeira
do Brasil. Trazem viva na memria a imagem da santa coberta pelo belssimo manto azul. A madre superiora, abadessa Celestina de Arago, pede a sua auxiliar, a mestra
de novias irm Clemente, que v com as religiosas at suas celas.
   - Irm, por favor, acompanhe as meninas. Estamos todas exaustas, mas, antes de me deitar, quero rezar por ns e agradecer por essa viagem tranquila, ocorrida
sem incidentes - ela explica, indo para a capela.
   As Clarissas esto para se recolher, quando so estacadas, a meio caminho dos quartos, pelo grito pungente da madre superiora. Tamanho  o pavor sugerido pelo
berro interminvel que os corpos das moas so atravessados por um arrepio como domins em cascata. O urro  seguido pelo pranto alto e gemidos dilacerantes da pobre
madre Celestina. Irm Clemente, segunda em comando, prxima abadessa na linha de sucesso, com a autoridade que lhe foi conferida ordena que as freirinhas sigam
para as celas e, reunindo a coragem que lhe resta, dirige-se para a capela.
   O quadro com que ela se defronta  comparvel s mais horrveis vises do inferno. Assemelha-se a um cenrio de grand-guignol. Irm Clemente apoia-se, trmula,
no encosto do ltimo banco, para permanecer de p. Ajoelhada junto  pia batismal, a madre superiora solua incontrolavelmente, agarrando-se ao rosrio de cento
e sessenta e cinco toscas contas de madeira que sempre traz preso  cintura. O rosrio, vindo de Assis, fora presente do pai quando ela recebera os votos.
    frente da abadessa Celestina de Arago, estendida ao longo da nave da capela, de braos abertos em cruz, encontra-se irm Maria Auxiliadora completamente nua.
O hbito, arrancado com violncia e empapado numa mistura de sangue e smen, jaz nos degraus do altar.
   O ventre da infausta jovem, cujo nico pecado na vida fora o incontrolvel fato de ser gorda, est rasgado de cima a baixo, expondo uma enorme quantidade de Pastis
de Santa Clara. Mais pastis tambm cercam o corpo de Maria Auxiliadora.
   No lugar dos globos oculares extrados com preciso, foram enfiados dois apetitosos Olhos de Sogra.
   Ao lado da maleta abandonada por Caronte, um bilhete em latim, escrito  mo com o prprio sangue da infeliz:
   Ego te absolvo a peccatis tuis... Ha! Ha! Ha!
   (Risus Sardonius)
   Avisada da ocorrncia, a delegacia do bairro localizou de imediato o delegado Mello Noronha na Central e passou-lhe a informao. Na madrugada de sbado, Noronha,
Esteves, Diana e o sonolento Calixto encontram-se na capela transformada em cena do crime. O delegado quis impedir a jornalista de comparecer, imaginando a situao
que os aguardava. Nada a dissuadiu.
   - J basta o que eu sofro com o dpdc - ela argumentou, referindo-se ao Departamento de Propaganda e Difuso Cultural, que controlava a Censura. - Sou bastante
grandinha pra enfrentar qualquer calamidade. No ser pior do que os horrores que vi na Guerra Civil Espanhola.
   A capela foi invadida por vrios funcionrios do Departamento Nacional de Segurana Pblica. Como a sustentao do Estado Novo depende de uma polcia forte e
bem equipada, houve um esforo no sentido de modernizar a corporao. E pelo menos nos aspectos tcnicos e cientficos a medicina legal beneficiou-se com isso. A
Polcia Tcnica conta, agora, com os melhores sistemas de investigao cientfica.
   Tcnicos especialistas em datiloscopia cobrem o confessionrio, o altar e os bancos da frente com carbonato de chumbo, o p branco utilizado para revelar impresses
digitais.  como se uma fina camada de talco revestisse parte da capela. O objetivo de revelar uma impresso latente  visualizar o desenho das cristas papilares,
que so as linhas do desenho das impresses digitais. Os detalhes dos desenhos dessas linhas  que vo permitir a classificao da impresso e o confronto da impresso
latente com as digitais do suspeito. Sabe-se que nem mesmo gmeos univitelinos possuem impresses digitais iguais.
   Outro grupo recorta a frente do hbito manchado da freira assassinada, para tentar identificar os fluidos fisiolgicos no laboratrio do iml.
   Uma cuidadosa busca na cela de irm Maria Auxiliadora nada informou aos investigadores; apenas confirmou a expresso "pobreza franciscana". Como objetos pessoais,
fotografias de famlia, uma escova de dentes e uma barra de sabo de coco. No criado-mudo, uma moringa, um copo e um frasco de vitaminas naturais.
   Foi impossvel interrogar a abadessa Celestina de Arago, ainda em estado de choque, mas a mestra de novias, irm Clemente, tambm bastante alterada, conseguiu
explicar que o mosteiro estava praticamente vazio, devido  peregrinao das freiras e novias a Aparecida.
   - No entendemos por que Maria Auxiliadora alegou estar doente pra no viajar conosco.  um mistrio que acabou em tragdia - desabafa irm Clemente, sem conter
as lgrimas.
   - A que horas a senhora acha que a irm Maria Auxiliadora veio  capela? - pergunta Esteves, estendendo-lhe um leno.
   - No sei dizer. Normalmente, s quintas-feiras, ela procurava seu confessor frei Crispiniano, logo depois da Adorao ao Santssimo Sacramento, mas ontem ningum
a viu. As poucas irms que ficaram aqui pensaram que ela estava repousando em sua cela. Se eu soubesse que ela... - despeja a freira, consumida por uma culpa que
no tem.
   - A que horas termina a Adorao ao Santssimo Sacramento?
   - s dezoito horas.
   - Pelo estado do corpo, presumo que a vtima tenha sido atacada entre as dezoito e as dezenove horas - arrisca Esteves. - Sem pr em dvida a castidade da falecida,
a mestra acha possvel que ela tenha sido seduzida por algum aldrabo? Percebe? Uma vez, em vora, uma freirinha...
   Tobias Esteves  interrompido pelo pranto convulsivo da mestra de novias.
   - Temos certeza de que no  o caso - intervm Diana, com um olhar de reprovao para Tobias. - Irm Maria Auxiliadora no  a primeira vtima desse monstro.
   Depois da inspeo da cela e da entrevista com a mestra de novias, Noronha, Esteves e Diana sentam-se no cho da capela formando um semicrculo em volta da maleta
abandonada por Caronte. Calixto, protegendo seu ilibado terno de linho 120, evita o convite, alegando que prefere se familiarizar com o local do crime.
   A maleta foi examinada, virada e revirada pelos tcnicos,  procura de impresses ou de qualquer indcio. Encontraram apenas farelos, as digitais da freira e
alguns borres numa Bblia encadernada em couro, desgastado por anos de uso.
   -  claro que ele deixou a maleta como uma provocao - declara, irritado, Noronha.
   - E obviamente estava disfarado de padre, ou melhor, de frade franciscano - completa Esteves.
   - Por que "obviamente"? - Diana pergunta.
   - Pela estola usada pra sufocar a pobrezinha, pela cruz na maleta e pela Bblia dentro dela. Quanto ao facto de estar disfarado de frade franciscano, no h
melhor maneira pra se ganhar a confiana de uma Clarissa. O nosso prximo passo ser encontrar o verdadeiro confessor da freira.
   - Ai, meu Deus do cu! Valei-me, minha santa Brbara, que sois mais forte que a violncia dos furaces!
   O grito agudo e lancinante vem da sacristia. Calixto surge, lvido de pavor, apoiando-se no umbral da porta.
   - Tem mais um defunto morto aqui!
   A redundncia do inspetor anuncia o corpo ensanguentado de frei Crispiniano Boaventura.
   A descoberta do frade na sacristia leva a equipe de tcnicos a uma nova busca por provas da presena do assassino. Diana, aproveitando-se da distrao momentnea
motivada pelo achado, pega sua Leica 250 e tira vrias fotografias da capela e das vtimas. Pretende escrever outro artigo sobre o psicopata. No publicar as fotos,
so horrveis demais, porm vai arquiv-las como registro da bestialidade dos crimes.
   Tobias Esteves quer examinar a marca deixada no cadver pelo punhal. Noronha concorda.
   - Tem que ser logo, antes que o chato do Varejo chegue - diz o delegado, referindo-se ao legista Ignacio Varejo. - Ele se acha dono de todos os defuntos.
   -  preciso sacar a sotaina ao clrigo. Calixto, uma ajudazinha, se me faz favor.
   - Eu!?
   - No me digas que tens medo dos mortos - debocha o portugus.
   - De jeito nenhum, doutor Tobias,  que eu sou religioso demais pra tirar batina de padre.
   Sob o comando de Noronha, os tcnicos do iml despem o frade e guardam a batina para lev-la ao laboratrio.  bvio aos detetives que esse homicdio foge ao modus
operandi do assassino. O frei teve a infelicidade de estar na hora errada no lugar errado. Esteves vira o corpo de lado e percebe que a faca trespassou o corao.
   - Morreu na hora - comenta Noronha.
   -  possvel.
   - Claro que sim! Furou o corao! - replica Noronha.
   - Nem sempre a morte  imediata, a no ser que o golpe tenha seccionado alguma artria principal. O que provoca a parada cardaca  o vazamento de sangue do pericrdio,
que reveste o corao. Mas o senhor doutor delegado sabe muito bem disso.
   - Evidente - resmunga Mello Noronha, sem ter ideia do que Esteves est falando.
   - O mais interessante  o formato da leso feita pela entrada do punhal - observa ele, examinando a fenda dilacerada. - Veja, senhor doutor delegado, ambas as
bordas da ferida nas costas, por onde a faca entrou, esto rasgadas, mas, na sada, ela deixou apenas duas marcas pequeninas, como se a arma tivesse duas lminas
com os fios trabalhados. Alm disso, senhor doutor delegado, ladeando a entrada h duas laceraes causadas pela guarda do cabo.
   - Ento no  uma faca qualquer?
   - Bem, ns costumamos generalizar, chamando de faca os instrumentos de corte; na verdade, existem vrios tipos do que ns chamamos de armas brancas: as cortantes,
as perfurantes, as perfurocortantes, as corto-contundentes; h os punhais de dois gumes, os faces, a faca Bowie, a gacha, as Tants japonesas, a lendria Kukri,
do Nepal, a Djambia, do Imen, ligeiramente curva, as adagas rabes, as navalhas espanholas, as facas serrilhadas; enfim, a quantidade  infindvel. Mas o utenslio
que vitimou o frei  de uma raridade extraordinria. S existe uma arma branca no mundo inteiro capaz de infligir esse ferimento. - Tobias faz uma pausa para realar
a importncia da revelao. - Trata-se de uma adaga cigana.
   - ?
   - A adaga  entregue ao cigano numa cerimnia ritualstica quando ele passa da adolescncia  vida adulta.  associada  vida e  morte. Muito difcil de encontrar.
Um colega meu foi assassinado com uma igual - conta Esteves, melanclico, lembrando-se do amigo morto.
   - Quer dizer que foi o matador das gordas que matou o seu amigo? - pergunta o obnubilado Calixto.
   O raciocnio obtuso do inspetor fica sem resposta devido  chegada intempestiva do legista Ignacio Varejo. O mdico entra aos berros na sacristia:
   - Quem mandou tirar a roupa do padre? Vocs esto contaminando a cena do crime!
   - A nica pessoa contaminadora aqui  voc - responde, calmamente, Noronha, saindo da sacristia.
   A busca se revelou to infrutfera quanto a que fizeram na capela. As nicas impresses diferentes pertencem ao frade assassinado.
   - Pura perda de tempo. O canalha usou luvas - conclui Noronha.
   - Pode ser... - retruca Esteves, pensativo.
   - Como, pode ser? Qual  a dvida agora?! - responde Noronha, impaciente.
   - Nada, nada, delegado.  provvel, ele no poderia mesmo limpar tudo que pegou ou onde esbarrou. S que...
   - S que o qu?!
   - Custa-me imaginar um frade de luvas.
   """"
   "Tupi, G3 do Rio, a pr- que esto ouvindo", enuncia o ubquo Rodolpho d'Alencastro, invertendo a ordem do prefixo. "Alastra-se a tragdia no Caso das Esganadas.
Unindo o terror ao sacro, o monstro assassino vitimou uma freira indefesa no mosteiro das Clarissas. Desta vez, todavia, o prfido homicida no perde por esperar.
O chefe de polcia, capito Filinto Mller, colocou  disposio dos investigadores a mais moderna parafernlia cientfica, capaz de detectar a mais nfima impresso
digital.
   "Esta notcia de ltima hora chega aos vossos lares numa cortesia da Ankilostomina Fontoura. Sente-se cansado? O corpo no quer trabalho? Seu rosto magro e amarelo
denuncia um estado doentio. Esse braseiro na boca do estmago, essa preguia sem fim e a palidez da pele so sintomas de opilao. No se alarme: a molstia  terrvel,
mas curvel prontamente com a Ankilostomina Fontoura. Ankilostomina Fontoura  recomendada por todos os mdicos.
   "E ateno, muita ateno! Nossa fonte ligada ao palcio Central da Polcia acaba de nos informar que tambm h um experiente detetive lusitano colaborando nas
pesquisas."
   As Esganadas
   20
   O professor Friedrich Berminghaus, do Colgio Real de Qumica e diretor do Departamento de Anatomia da Universidade de Munique, de quem Caronte fora discpulo
na Alemanha, era gro-mestre enxadrista da Deutscher Schachbund, a Federao Alem de Xadrez, e participara da ii Olimpada do jogo, realizada em Haia, em 1928.
Naquela ocasio, conhecera o vencedor daquele ano, o suo Oskar Naegeli, e tornara-se amigo dele. Alm da paixo pelo enxadrismo, outro interesse unia os dois homens.
Oskar Naegeli era mdico. Tendo se especializado em patologia na Universidade de Freiburg com o Prmio Nobel de Fisiologia Robert Brny, o professor doutor Naegeli
dirigia o Departamento de Dermatologia Clnica da Universidade de Berna. Sua pesquisa atual referia-se  venereologia e  gentica. Em 1927, o cientista quase concorrera
ao Nobel, ao descobrir, numa famlia sua, uma incomum alterao gentica. Oskar a descrevera como familirer Chromatophoren-Naevus. Desde a descoberta, o fenmeno
passara a ser conhecido como Naegeli Syndrom ou sndrome de Nagali, em sua homenagem. Trata-se de uma m-formao excepcional do feto. A probabilidade de um beb
nascer com essa deficincia  infinitesimal. A sndrome caracteriza-se pela fragilidade das unhas, dos cabelos e dos dentes, que correm o risco de cair espontaneamente,
e por manchas marrons irregulares na pele.
   Porm, a distoro mais extravagante desse rarssimo defeito gentico  que os portadores da sndrome de Nagali no tm, nem nunca tero, impresses digitais.
   Em 1929, durante a semana do Torneio Internacional de Xadrez em Munique, Berminghaus hospeda o amigo e colega Oskar Naegeli em sua magnfica manso da ber der
Klause, no bairro nobre da cidade. Naegeli  recebido na porta por um moo magro, de poucos cabelos e sorriso de porcelana. Desperta sua ateno aquele rapaz to
jovem com dentaduras postias guarnecendo
    -lhe as gengivas. Ao apertar a mo dele, nota-lhe a flacidez das unhas e a falta de aderncia na ponta dos dedos. No entanto, nada diz, mas por pouco no consegue
conter a excitao. A possibilidade de encontrar um paciente que sofria da sndrome recm-descoberta por ele era praticamente nula! Subindo as escadas, o adolescente
acompanha Naegeli at o quarto de hspedes, carregando-lhe a mala.
   - Herr Professor Berminghaus o aguarda na sala de jantar daqui a meia hora, Herr Doktor. H um banheiro no final do corredor - informa o jovem, falando baixo,
de forma quase servil, e, sem esperar resposta, escafede-se escada abaixo.
   Durante o jantar, Naegeli nem responde quando seu anfitrio pergunta sobre o torneio do qual ambos participaro a partir do dia seguinte.
   - Meu caro Friedrich, h coisa mais interessante na sua casa do que pode ocorrer no tabuleiro.
   - A que voc se refere?
   - Ao jovem que me abriu a porta!
   - Caronte? - pergunta o professor, rindo. - Reconheo que ele  meio extico, mas interessante? No, meu amigo, o rapaz no  interessante,  brasileiro.
   - O que  mais intrigante ainda! Que faz um moo da selva, portador da minha sndrome, na sua casa?
   - Ele no  da selva,  do Rio de Janeiro - retifica Berminghaus. - Depois, como  que voc diagnosticou-lhe, to rapidamente, uma doena to rara? Voc est
me parecendo aqueles cientistas que enxergam suas descobertas em qualquer esquina. Voc toca a campainha, e quem abre a porta? O prprio familirer Chromatophoren-Naevus!
- troa o professor, que, como cientista, conhece e admira as pesquisas do amigo.
   Naegeli bate os punhos na mesa, rubro de raiva.
   - Sei muito bem da improbabilidade disso ter acontecido, mas s favas com as estatsticas! No sou nenhum velho senil! Pelo menos me explique por que  que voc
tem um criado estrangeiro.
   - Ele no  criado - responde o professor, comeando a se irritar. -  um jovem aluno meu, no Colgio Real de Qumica. Deixo que ele ocupe um dos quartos perto
do meu laboratrio pessoal. Sua famlia  dona da maior empresa funerria do Brasil, e, quando o pai soube que eu estudei com Von Hofmann, quis que ele aprendesse
comigo as tcnicas modernas de embalsamamento e a utilizao do formaldedo. - Um sorriso desanuvia o semblante de Berminghaus. - Meu querido amigo, agora entendo
a sua confuso! Voc notou o desgaste da ponta dos dedos do rapaz, causado por queimaduras do formaldedo, e confundiu com ausncia permanente de impresses digitais.
Eu o preveni vrias vezes pra que fosse cuidadoso, mas os jovens so impetuosos! - completa Friedrich, rindo. - Pode ficar tranquilo que elas crescem de novo!
   O professor doutor Oskar Naegeli sabe que no baseou seu diagnstico somente nos dedos do rapaz, porm no quer perder o amigo.
   Depois do jantar, sem ter noo de que Caronte, oculto no jardim de inverno, a tudo escutou, os dois enxadristas discutem, entre goles de Armagnac e baforadas
de charuto, as ltimas vitrias de Capablanca.
   As Esganadas
   21
   No antigo matadouro da rua Elpdio Boamorte, no bairro Praa da Bandeira, seu abrigo favorito, Caronte limpa cuidadosamente a lmina da adaga cigana, antes de
recolh-la ao estojo. No pretende us-la de novo. Depois de lav-la e poli-la vrias vezes numa repetio obsessiva, ele a guarda junto ao retrato entronizado de
seu pai morto. Fotografara o cadver sentado, de pernas cruzadas e olhos abertos. Era a memorabilia mais valiosa da sua pequena coleo.
   Quanto s impresses digitais, Caronte nunca se preocupou em no deix-las nos locais onde praticava seus crimes, simplesmente porque no as tem. Conhece muito
bem a Naegeli Syndrom, a sndrome de Nagali. Desde que escutou a discusso entre seu professor e Oskar Naegeli, tratou de se informar sobre a rarssima deformidade
ocorrida quando ele ainda estava na barriga da me: "Claro! Isso foi alguma porcaria que a gorda grvida comeu, a puta gulosa!".
   A aberrao no o incomodava. Divertia-se sabendo que a polcia percorria cada centmetro em volta das vtimas procurando sinais que nunca encontraria. Antes
de tomar conhecimento da enfermidade, Caronte atribua o fenmeno ao fato de ter comeado a lidar com formaldedo e derivados muito cedo. A fina espessura das unhas
e dos cabelos o aborrecia muito mais. Desde rapazinho, acostumara-se ao uso das prteses dentrias totais, feitas sob medida em Zurique, com o tradicional rigor
suo. Gostava do alvor exorbitante do seu sorriso.
   O nico distrbio causado pela sndrome que Caronte execrava eram as manchas marrom-escuras disseminadas pelo corpo. As poucas que apareciam acima das camisas
de gola alta, no pescoo e no rosto, semelhantes a largas sardas, ele ocultava com maquiagem. J sentia repulsa pelas manchas quando era muito jovem.
   Antes que Caronte voltasse da Alemanha, seu pai pediu-lhe que fosse ao Peru para estudar o embalsamamento das mmias incas. Uma descoberta fora feita na cidade
sagrada de Machu Picchu. As mmias eram de mulheres jovens presumivelmente oferecidas em sacrifcio. Nem todas eram virgens, s aquelas oferecidas s divindades
mais importantes no panteo dos deuses incas.
   A viagem  exaustiva: primeiro, de navio at Lima; depois, de nibus at Cuzco, e, finalmente, uma trilha de quarenta quilmetros para chegar  Cidade Perdida
dos Incas, localizada no topo de uma montanha, a dois mil e quatrocentos metros de altitude.  uma jornada perigosa, sem falar nas cusparadas de lhama e em outros
incmodos do percurso, porm Caronte nada pode negar ao pai.
   Em Machu Picchu, conhece o guru boliviano  Humia - no dialeto quchua pronuncia-se Bilu -, que vinha em peregrinao desde o lago Titicaca. O homem santo
complementava sua renda traficando cocana.
    Humia inicia Caronte no uso de uma infuso mstica feita  base do cacto Tocha Peruana. Esse cacto, semelhante a um enorme falo peludo, contm dez vezes
mais mescalina do que o peiote. A beberagem, chamada pelos sacerdotes de yacapachi, era usada nas cerimnias religiosas dos antigos incas em homenagem ao deus Viracocha
Pachacaiachi, o "Criador de todas as coisas". O guru dubl de traficante boliviano conta a Caronte que, segundo os incas, foi s margens do Titicaca, o lago mais
alto do mundo, que Viracocha terminou sua obra de criao depois do Uno Pachacuti, uma grande inundao que assolou o mundo. Viracocha desceu dos cus e, apiedando-se
dos homens que erravam pela Terra sem destino, deu-lhes como soberanos os seus filhos, Manco Capac e sua irm Mama.
   De toda essa magnfica e edificante narrativa, o que interessou mesmo a Caronte foi o ch.
   Aps ingerir uma cabaa do lquido, Caronte arrancou todas as suas roupas. Quando se olhou nu no espelho, sob o efeito alucingeno da poo, enxergou as manchas
do seu corpo distorcidas, se alastrando pela pele.  Humia, tambm alterado pelo yacapachi, gritava na lngua secreta dos antigos sacerdotes incas: "Pracnatan!
Pracnatan!", que significa "leopardo louco". O guru, em transe, deu um uivo terrvel e caiu fulminado, espumando pela boca.
   Nunca mais Caronte conseguiu olhar suas manchas de outra forma. Um calafrio gela-lhe a espinha sempre que recorda o episdio.
   Satisfeito com sua ltima faanha, ainda vestindo a batina para prolongar o prazer da aventura, ele senta-se ao piano e comea a tocar uma transcrio da Nona
de Beethoven. Pensa na prxima vtima. Talvez esteja na hora de apimentar seu cardpio. A cozinha portuguesa  rica em doces e salgados. Ele fecha os olhos e navega,
alheio ao tempo, pela melodia. Assim que os abre, assusta-se ao ver a figura de um ancio de boca enrugada refletida no piano. D uma gargalhada grotesca. O velho
retribui na mesma intensidade. A imagem que v espelhada  a dele mesmo. Caronte esqueceu-se de colocar a dentadura. As duas prteses esto repousando num copo d'gua
sobre a pia, sorrindo para ele.

   As Esganadas
   22
   Uma semana depois dos ltimos assassinatos, no incio do inverno suave do Rio de Janeiro, h uma sensao de desnimo no gabinete do delegado Mello Noronha. Por
mais que examinem,  lupa, as vrias fotos dos crimes e os documentos esparramados sobre a mesa de reunies, nenhuma ideia nova lhes ocorre. Em vo, eles leem pela
milsima vez as poucas informaes dos arquivos e tornam a examinar os objetos recolhidos nos locais dos delitos,  procura de pistas.
   As pastas que continham relatrios de outras investigaes e geralmente ficavam empilhadas no escritrio do delegado, deram lugar ao Caso das Esganadas. As pesquisas
realizadas pela equipe da Polcia Tcnica nas residncias das moas no revelaram nada de significativo.
   Os quatro reexaminam a disparidade das vtimas. Tentam imaginar o que elas teriam em comum alm da obesidade. Frequentariam o mesmo banho turco? Difcil vislumbrar
uma freira e uma prostituta compartilhando o mesmo banho. Como faria o assassino para encontr-las? Seria obra do acaso? Esteves deduz, erradamente, que o assassino
deve perder um tempo enorme limpando qualquer trao de impresses. Diana conclui, de forma mais incorreta ainda, que o executor deve ter um cmplice para ajud-lo
a eliminar os vestgios do massacre. Noronha, macambzio, no sugere nada.
   O surpreendente Calixto, que foi coroinha na infncia, reza, em silncio, num tero escondido no bolso do palet. Est muito nervoso. Jamais pensou em se envolver
na investigao de ocorrncias to pavorosas. Entrou para a polcia considerando uma carreira tranquila como guarda de trnsito, mas, devido ao seu excepcional porte
fsico, logo foi encaminhado para servios mais temerrios na Diviso de Homicdios. Ainda teve muita sorte ao ser escolhido por Noronha como assistente, escapou
por pouco de ser requisitado para a Diviso da Polcia Especial. No se via de quepe vermelho montado numa motocicleta, com a sirene ligada, como batedor, abrindo
caminho para algum chapa-branca a cem quilmetros por hora.
   O grupo permanece calado, pensativo, as fotografias espalhadas pelo tampo da mesa, formando um quebra-cabea sangrento.
   Noronha quebra o mutismo:
   - O pior  que no h nada que nos leve a investigar nenhum suspeito. Todos so inocentes.
   Tobias Esteves volta  sua lgica no estilo de Ockham:
   - Perdo, mas no se pode provar uma inocncia, no h como faz-lo porque a inocncia  uma negativa,  a ausncia de culpa. Neste caso, a presena do assassino
s pode ser provada pela ausncia de provas. Ele  to inteligente que a prova de sua presena  a ausncia.
   - Faz sentido - concorda Calixto, que como Diana e Noronha no entendeu coisa alguma.
   O detective portugus prossegue, evocativo:
   - Isso faz-me lembrar do caso da "Viva Negra de Setbal".
   A frase desperta de imediato a ateno dos outros. Esteves no diz mais nada. Depois da pausa, Mello Noronha pergunta:
   - Ento?
   - Ento o qu?
   - No vai nos contar que caso foi esse da aranha negra?
   - Ah, percebo! Querem que eu conte o caso? Mas no  aranha,  viva.
   - Sim, mas a viva-negra  uma aranha.
   - No neste caso. Neste caso  um apodo.
   O desinformado Calixto interfere:
   - Gozado, eu pensei que a aranha fosse um inseto.
   - Meu querido Calixto, antes de tudo a aranha no  um inseto,  um artrpode aracndeo - corrige Tobias. - Mas apodo  o que vocs c chamam de apelido. A Viva
Negra de Setbal era Conchita Gutierrez, uma espanhola de rara beleza, que, como a aranha, matava seus machos. Depois de matar o primeiro marido em Badajoz, mudou-se
para Setbal, fugindo da polcia espanhola. Em Setbal, casou-se mais sete vezes com homens riqussimos, que morriam envenenados em circunstncias misteriosas. Ningum
encontrava o veneno. O chefe de polcia mandou-me de Lisboa para investigar. Conchita acabava de casar-se pela oitava vez e sempre passava a lua de mel na ilha da
Madeira. De l, voltava viva e mais rica. Dessa vez casara-se com o milionrio Ernesto Balourinho, o rei da sardinha em lata. Segui o casal recm-casado at a ilha.
No hotel onde se hospedava, chamavam-na  socapa de Conchita, La Concha Asesina - diz Tobias Esteves, rindo sozinho.
   Percebendo que a diminuta plateia no entendia a graa, ele explica:
   - Isso porque ela era espanhola, e, em espanhol, concha  a maneira vulgar de se referir  vagina. Concha Asesina. Entenderam?
   - Ela assassinava os maridos com a concha? - pergunta Calixto, subitamente interessado.
   Tobias esclarece:
   - No com a prpria concha. Se assim o fizesse, a morte seria um delrio de gozos...
   - Tudo isso deve ser muito engraado em Portugal - corta Noronha, perdendo a pacincia. - Mas como foi que voc esclareceu o mistrio?
   - Digo-lhe j. Como bom portugus, sou amante do mar e conheo muito bem nossa fauna marinha. Lembrei-me que, na costa da ilha, vive a perigosa Hypselodoris tricolor,
a lesma-do-mar. Seu veneno  fatal e quase impossvel de detectar se for ingerida por inteiro.
   Diana manifesta sua curiosidade cientfica:
   - Como se acha essa lesma?
   -  bastante comum na regio da Madeira. Vive debaixo de pedras e sempre perto de esponjas.
   - Ser que d pra concluir? - pergunta Noronha, impaciente.
   - Pois bem, assim que o casal instalou-se, ela foi-se ao banho de mar e pediu que preparassem duas dzias de ostras-portuguesas pra mesma noite, que era a de
npcias. Queria que as servissem no quarto. Ningum estranhou, porque dizem que as ostras so afrodisacas.
   - Quer dizer que as ostras tm dois sexos? - pergunta o ignorante Calixto, confundindo afrodisacas com hermafroditas.
   Noronha e Diana nem se do o trabalho de explicar. Querem saber o final da histria. Diana pressiona Esteves:
   - E da, Tobias, o que foi que aconteceu?
   - Disfarcei-me de camareiro e fui levar as ostras. Pus a bandeja na mesa da sala, mas, em vez de ir-me embora, escafedi-me para detrs das cortinas. Os dois se
esfregavam trocando beijocas, e Conchita, j de calcinha e suti, sugeriu que o marido fosse pr-se em pijamas. Assim que Balourinho entrou no quarto, Conchita,
mais que depressa, puxou de sob a mesa uma cestinha com as lesmas-do-mar e as substituiu pelas ostras-portuguesas, colocando-as nas mesmas conchas. A aparncia das
duas  idntica. Quando o marido voltou e estava quase a comer as lesmas, saltei de meu esconderijo e dei voz de priso  assassina, salvando a vida do milionrio.
To agradecido ficou ele que, durante anos, todo Natal mandava-me uma lata de sardinhas.
   Tobias reprime a emoo ao terminar de contar o caso.
   - E o que  que esse caso tem a ver com o nosso? - indaga o delegado.
   - Nada. Por isso mesmo fez-me lembrar.
   Ningum contesta a lgica tortuosa de Tobias.
   - Ento Conchita matava com a concha e com as conchas - arremata o filosfico Calixto.
   - Ela foi condenada a quantos anos de priso? - pergunta Noronha.
   - Tinha dinheiro suficiente pra contratar os melhores advogados do pas. A defesa argumentou falta de sanidade mental e convocou os grandes psiquiatras de Portugal
e de toda a Europa. Depois de examin-la, eles atestaram que ela sofria de uma nevropatia psicoptica mrbido-compulsiva que a levava a um comportamento scio-homicida.
Enfim, que tratava-se de uma deficiente. Acabou pegando apenas dez anos num manicmio particular, onde infernizava a vida dos enfermeiros.
   - Acabou se dando bem - resume Diana.
   - Nem tanto, menina Diana, nem tanto...
   - Por qu?
   - Poucos anos depois, o neurologista portugus Egas Moniz inventou a lobotomia, uma pequena interveno cirrgica no crebro pra controlar o comportamento...
indesejvel de certos doentes.
   Calixto, com pavor de doenas e de hospitais, diz que precisa ir ao banheiro e sai da sala. Tobias Esteves continua em tom professoral:
   - Na verdade,  um procedimento bastante simples. O cirurgio espeta um picador de gelo com uma martelada no crnio do paciente, logo acima do canal lacrimal,
cortando as ligaes entre os lobos frontais e o tlamo. A operao deixa os mais incmodos doentes psiquitricos num estado de placidez absoluta. Devido ao seu
comportamento rebelde, Conchita foi escolhida como "voluntria" pra receber o novo tratamento. A interveno, chamada de psicocirurgia, foi um tremendo sucesso.
Conchita ficou calminha, sentadinha, a olhar p'as paredes...
   - Nenhum efeito colateral? - ironiza Diana.
   - Bem... ela baba um pouco.
   De repente, escuta-se uma balbrdia na antessala. A porta do gabinete gira nos gonzos com violncia, e Calixto entra rolando no cho, agarrado a um homem de batina.
Ele monta a cavalo sobre o intruso, tentando passar-lhe as algemas.
   - Peguei o assassino, doutor Noronha! J estava entrando quando eu pulei em cima dele! Ia matar o senhor de surpresa, usando o mesmo disfarce de padre! T preso,
canalha, safado!
   Tobias e Noronha arrancam Calixto de cima do eclesistico. A situao cria um imenso mal-estar, porque no se trata do assassino, e sim de frei Mariano Campanela,
arcebispo da Ordem Franciscana.
   - Peo mil desculpas pelo excesso de zelo do meu subordinado, Eminncia. Esqueci de avisar que o senhor viria hoje  tarde conversar sobre a liberao dos restos
mortais dos dois religiosos.
   - No tem importncia, meu filho - responde frei Mariano, levantando-se e recuperando-se do susto. - Bem-aventurados os pobres de esprito. So Francisco nos
ensina a perdoar os arroubos dos seres contemplados com a parvoce.
   - Obrigado, padre - agradece Calixto, pensando tratar-se de um elogio.
   Noronha tenta amenizar o vexame:
   - Depois da percia, os corpos foram finalmente liberados pelo iml. Sabemos que o assassinato do frei Crispiniano Boaventura foi obra do acaso. Infelizmente,
ele estava na hora errada no lugar errado. Quanto  irm Maria Auxiliadora, seu perfil  igual ao das outras vtimas. Se Vossa Eminncia quiser, eu mesmo me encarrego
de enviar os dois corpos pro local de vossa escolha.
   - Agradeo a gentileza, delegado. Em geral, as cerimnias fnebres franciscanas primam pela humildade, mas, devido  excepcionalidade do caso, a Cria achou de
sua obrigao providenciar para que as exquias fossem realizadas pela mais celebrada empresa da cidade, a funerria Estige.
   - No se preocupe, Eminncia, vou tratar de tudo pessoalmente.
   - Paz e bem a todos - abenoa o bispo, despedindo-se.
   Antes que ele saia, o arrependido Calixto ajoelha-se e beija-lhe o anel, pedindo absolvio pelo ataque equivocado. O arcebispo retira-se, com Calixto ainda agarrado
s suas pernas.
   As Esganadas
   23
   Depois da trgica exploso do dirigvel Hindenburg, em Nova Jersey, o transatlntico Cap Arcona, da Hamburg Sd, passou a ser o orgulho da marinha alem e da
propaganda nazista. Incomparvel em luxo e rapidez, o Cap Arcona  o mais famoso de todos os navios a singrar o Atlntico na chamada Rota de Ouro e Prata. Seus imensos
tanques de leo combustvel permitem ao verdadeiro gigante dos mares uma autonomia de cruzeiro equivalente a uma viagem de ida e volta com escalas entre Hamburgo
e Buenos Aires. A poucas milhas do Rio de Janeiro, onde devem desembarcar cerca de trezentos passageiros, um incidente ocorrido a bordo preocupa o capito de longo
curso Hans von Schilemberg, comandante do vapor. Como  de praxe, o oficial comunica o episdio  Abwehr, o servio de espionagem alemo, usando o novo cdigo Enigma
da marinha alem:

   cruzarmos a ilha dp fprnando dp noronha, pprto da costa brasilpira,
    a quatro dias dp viagpm do porto
    do rio dp janpiro, Wpdi ao doutor hprmann wprdprgard, mdico dp bordo, qup pxaminassp o Wassagpiro prnst wabpr, cantor, baixo-bartono, mpmbro da comWanhia dp
Wpra dp
    o cantor aWrpspntava, dpsdp as Wrimpiras horas da manh, sinais dp uma violpnta intoxicao, com vmitos p diarrpia contnuos. como npnhum outro Wassagpiro ou
mpmbro da
    os mpsmos sintomas, foi afastada
    a Wossibilidadp dp um pnvpnpnampnto alimpntar causado

   Cauteloso por natureza, tambm registra o motivo de sua apreenso no dirio de bordo.
   Dirio de Bordo do Cap Arcona
   Quinta-feira, 30 de junho de 1938 - 10h25 UTC.
   Ao cruzarmos a ilha de Fernando de Noronha, perto da costa brasileira, a quatro dias de viagem do porto do Rio de Janeiro, pedi ao doutor Hermann Werdergard,
mdico de bordo, que examinasse o passageiro Ernst Waber, cantor, baixo-bartono, membro da Companhia de pera de Mnchengladbach. O cantor apresentava, desde as
primeiras horas da manh, sinais de uma violenta intoxicao, com vmitos e diarreia contnuos. Como nenhum outro passageiro ou membro da tripulao manifestasse
os mesmos sintomas, foi afastada a possibilidade de um envenenamento alimentar causado pela despensa de bordo. O doutor Werdergard diagnosticou o caso como botulismo.
Indagado pelo facultativo, Waber declarou que tinha na sua bagagem algumas latas de pat de fgado em conserva, e que, na vspera, ingerira, sozinho, parte de uma
delas. Sem mais delongas, o mdico ordenou ao camareiro-chefe que recolhesse os comestveis no camarote do cantor, inclusive as latas fechadas, e incinerasse todo
o material nas fornalhas do navio. Ernst Waber foi imediatamente recolhido  enfermaria e posto em quarentena.
   """"
   Para Franz Lopenheim, diretor da Mnchengladbach Festspielhaus, o acontecimento  uma tragdia de dimenses incalculveis. Para ele, a notcia tem um efeito pior
do que se tivessem torpedeado o Cap Arcona. Mnchengladbach  a terra natal do ministro de Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels, e a Companhia de pera,
a menina dos seus olhos. Franz Lopenheim foi colocado na direo da companhia por ser afilhado do Reichspropagandaminister, e no por ter alguma competncia especial.
Na verdade, nada entende de msica. No o confessaria nem aos torturadores da Gestapo, mas odeia pera. Mais do que a pera, odeia seu padrinho e o nazismo.
   A viagem da companhia ao Brasil faz parte da campanha de divulgao da cultura germnica na Amrica do Sul, projeto pelo qual o ministro nutre grande simpatia.
Ao mesmo tempo, atende ao pedido do seu colega brasileiro, Lourival Fontes, diretor do Departamento de Propaganda e Difuso Cultural. Fascista convicto e admirador
de Goebbels, Lourival  a prova viva de que o carisma independe da beleza; o que tem de feio, tem de inteligente. Estrbico, seus inimigos caoam dele, dizendo que
um dos seus olhos  brigado com o outro. Lourival no cuida da aparncia; roupa amarfanhada, manchada pelas cinzas do cigarro sempre preso na ponta da piteira. Os
mais ntimos dizem que suas cuecas so borradas, porque ele se limpa sem esmero ao usar as latrinas. Higiene  parte, Lourival Fontes  um dos homens mais poderosos
do governo. Dedica a Getlio a mesma idolatria que Goebbels devota ao lder da Alemanha nazista.
   A pera selecionada para abrir a temporada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro  Das Rheingold, O ouro do Reno, primeira do ciclo de quatro peras picas que
formam O anel do nibelungo, de Richard Wagner, compositor favorito do Fhrer Adolf Hitler. A escolha de Der Ring des Nibelungen se encaixa como uma luva com as intenes
de Goebbels e Lourival: estreitar as relaes entre os dois pases promovendo a cultura alem. O tema das peras trata de deuses e heris mitolgicos teutnicos,
valqurias, guerreiros e dos nibelungos, gnomos que habitam o interior da Terra.
   No primeiro quadro d'O ouro do Reno, as trs ninfas irms, Woglinde, Wellgunde e Flosshilde, guardis do ouro, brincam no fundo do rio com o ardiloso ano Alberich,
um gnomo nibelungo, que tenta cativ-las. Durante o jogo de seduo, as ninfas revelam um segredo: quem se apoderar do ouro do rio Reno e com ele forjar um anel,
dominar o mundo. Portanto, a primeira cena do espetculo cabe s ninfas e a Alberich, interpretado por Ernst Waber, que no  ano mas  baixo. Baixo-bartono,
no baixo em altura. O fato dos cantores nunca serem anes  uma conveno teatral aceita por todos. Na pera, o que vale  a voz e no a estatura.
   Ernst Waber continua entre a vida e a morte, isolado na enfermaria do Cap Arcona, com o zeloso mdico aplicando-lhe uma srie de enemas para purgar seus intestinos
do resto de veneno. Seu desembarque no Rio pronto para atuar  improvvel; por que no dizer?, impossvel. Caso sobreviva, dever permanecer em isolamento at seu
retorno  amada Vaterland.
   Diante da hecatombe, o primeiro pensamento de Franz Lopenheim  o suicdio. O navio passa por uma regio infestada de tubares. Desiste logo da ideia e faz o
que todo membro do partido faria. Por meio de um telegrama, transfere o problema para seu superior, um funcionrio do ministrio em Berlim. Este, mais experiente,
envia um telegrama ao Departamento de Propaganda e Difuso Cultural, no Rio, transferindo para eles o problema. Devem encontrar um cantor de pera baixo-bartono
para completar o elenco alemo interpretando o papel do ano Alberich. Tanto o funcionrio como Franz dormem tranquilos sonhando com o Valhalla, a morada dos deuses.
   """"
   No Rio de Janeiro, instala-se o pnico no Departamento de Propaganda e Difuso Cultural. Seus servidores esto mais acostumados a perseguir a cultura do que a
difundi-la. A nica vez que algum deles ouviu falar em pera foi assistindo ao filme Uma noite na pera, dos irmos Marx. Sabem que o tal projeto alemo  importante
para o chefe. No querem aborrec-lo. Resolvem procurar algum que entenda do assunto. Um deles, o Nogueirinha, funcionrio pblico nomeado por pistolo depois de
uma fracassada tentativa como goleiro reserva do Canto do Rio, e malogrado professor de violo em Cordovil, conhecia o compositor e violonista Boror das madrugadas
de samba. Boror era assduo frequentador da boemia carioca. Moreno e atarracado, ganhara o apelido ainda na infncia, quando um professor do colgio Santo Incio,
onde fazia o primrio, descobriu que um grupo de ndios borors tinha visitado seu pai. Boror relacionava-se com todo mundo da classe artstica e era bem informado
sobre qualquer gnero musical.
   A pedido dos colegas, Nogueirinha marca um encontro com Boror sexta-feira  noite, no caf Nice, na avenida Rio Branco. L se renem bomios, cantores, compositores
e intelectuais.
   - Nogueirinha, h quanto tempo! - sada o compositor, estranhando o cenho franzido do servidor. - Como vai essa bizarria?
   - Calado, Boror. Pra manter o emprego no dpdc, o melhor  ficar de boca fechada. Como dizem por l, Deus nos deu dois ouvidos, dois olhos e uma boca s. Uma
boca com dentes pra morder a lngua.
   Boror sabe que Nogueirinha no trabalha no dpdc por convico, mas para sobreviver. Um dirigente de certo prestgio poltico do Canto do Rio Football Club se
apiedara do desditoso ex-goleiro e conseguira-lhe um "cabide" na famigerada repartio. To infortunado era Nogueirinha que quebrara dois dedos ao defender uma bola
nos treinos, o que prejudicara sua promissora carreira de professor de violo. O barnab, como so chamados os funcionrios pblicos de baixa posio,  magro, de
olhos tristes, veste calas de fundilhos lustrosos e palet de cotovelos gastos. Uma gravata salpicada de manchas de gordura enfeita-lhe o colarinho pudo da camisa.
   - O que posso fazer pelo amigo?
   Nogueirinha mal consegue explicar o desastre:
   - Parece que uma companhia alem vai estrear no Municipal e o ano ficou doente.
   - O ano ficou doente?  pea infantil?
   - Que nada,  pera. Se cancelarem, o chefe vai ficar puto da vida. O Filinto confirmou presena na estreia e o Geg s no vai porque no  teatro de revista
- informa Nogueirinha, referindo-se ao presidente.
   Depois de muitas doses de cachaa e garrafas de cerveja, Boror desvenda o mistrio:
   - Pelo que eu entendi, o baixo-bartono que faz o ano Alberich, n'O anel do nibelungo, est internado no navio com botulismo e vocs tm que encontrar um substituto
 altura. Sem trocadilho, claro.
   -  mais ou menos isso - concorda Nogueirinha, enrolando a lngua.
   - Pois h males que vm para o bem, acho at que o seu chefe vai ficar agradecido pelo acidente, meu ignaro amigo.
   - Como assim?
   - Temos, aqui no Rio, o cantor ideal. Conhece as peras de cor e, alm de baixo,  ano.
   - Ou estou muito bbado ou no estou entendendo mais nada - retruca Nogueirinha, confuso.
   - Obscuro e iletrado companheiro, pela primeira vez na histria, Alberich, o gnomo nibelungo, vai ser vivido por um verdadeiro ano. Acho que Wagner ficaria encantado.
O papel do duende deformado  sempre cantado por um baixo-bartono, mas nunca por um ano de verdade. Acontece que ns temos esse ano e ele  baixo. J o ouvi cantar
numa serenata.  um dos maiores baixos do mundo! - afirma Boror, tambm meio bbado.
   Passa das quatro quando os dois amigos se despedem cambaleando em direes opostas. Boror vai em busca do bife do Lamas, e Nogueirinha, para o aconchego da sua
cama, antevendo a acolhida triunfal que ter na manh seguinte, ao revelar ao chefe o endereo de Otelo Cerejeira, mais conhecido como o palhao Rodap ou, o que
de fato interessa ao Departamento de Propaganda e Difuso Cultural, il cantante Battiscopa.
   As Esganadas
   24
   Mesmo que tivesse dois metros de altura, Battiscopa, o baixo ano, no caberia em si de felicidade. Pela primeira vez, ensaiava num palco de verdade, com uma
companhia alem e no Theatro Municipal. O maestro Wolfgang von Hasslocher, monstro sagrado da Oper Mnchengladbach, encantara-se com o porte e com a voz privilegiada
do pequenino cantor. Sonhava em lev-lo para a Alemanha. Que comoo ter um gnomo verdadeiro cantando o papel de Alberich. "Que jogo de cena! Que voz! Esse ano
 o grave mais profundo que j ouvi!  um mistrio, um som to poderoso sair de uma caixa to pequena!" Wolfgang vislumbra o sucesso que faria apresentando o fenmeno
no Festival de Bayreuth. Desde a sua inaugurao, em 1876, por coincidncia com a performance de Das Rheingold, jamais se vira algo igual. Presente, naquele dia,
alm do Kaiser Wilhelm e outros membros da nobreza europeia, por mais uma coincidncia: o imperador do Brasil dom Pedro ii. Certamente, a elite nazista, aferrada
a horscopos e alegorias msticas, veria o duende como um bom pressgio. Para o maestro, o surgimento improvvel e inesperado do ano era um verdadeiro deus ex machina.
   Franz Lopenheim, o diretor da companhia, comea a achar que o envenenamento por botulismo de Ernst Waber foi obra dos deuses nrdicos. Basta observar o assombro
do elenco alemo e a inveja do coro brasileiro. Lopenheim traz no bolso uma proposta milionria irrecusvel para Otelo Cerejeira, agora, oficialmente, Othelo Battiscopa.
Lopenheim quer oferecer o ano de presente a Hitler, em setembro, na conveno do partido em Nuremberg.
   """"
   O Cap Arcona aporta s seis da manh de segunda-feira 4 de julho, um dia antes do que previra o comandante. O estado de sade de Ernst Waber piorara e ele no
pudera avistar a baa de Guanabara pela escotilha da enfermaria. Ningum do elenco se importou muito, primeiro porque desconfiavam que Ernst era um espio da Gestapo
e seu envenenamento no fora acidental, depois porque souberam pelo rdio de bordo que j havia sido encontrado um esplndido substituto. Com uma semana de ensaio,
conseguiriam estrear no dia marcado.
   Os alemes so recebidos no cais com todas as pompas, com direito a susticas e hinos ufanistas. O embaixador da Alemanha, Karl Ritter, Lourival Fontes e Filinto
Mller esperam que a vinda dos artistas alemes amaine os conflitos diplomticos surgidos entre os dois pases depois que Vargas, no Estado Novo, proibiu o funcionamento
dos partidos polticos, inclusive o Nazista.
   A companhia se hospeda na magnfica sede da embaixada, na rua Paissandu, 93, no Flamengo. Durante toda a temporada, os visitantes tm como cicerone a conselheira
cultural da embaixada, Greta Seschlitz, uma bela ariana de tranas louras e bochechas rosadas.
   Greta Seschlitz  afilhada do almirante Wilhelm Canaris, chefe da Abwehr. Sua posio de conselheira serve de fachada para sua verdadeira funo. Greta  chefe
da rede de espies que a Abwehr pretende montar no Brasil. Mesmo pelos padres de esttica das cervejarias da Baviera, a avantajada germnica  considerada gorda.
Seu fsico vasto, estampado na primeira pgina dos jornais cariocas por ocasio da entrevista coletiva com a trupe da pera de Mnchengladbach, chama a ateno de
Caronte. "Ah, a minha presa internacional! Acho que o momento  apropriado...", ele pensa, recortando as fotos da gorda cuja cinta  incapaz de reprimir-lhe as banhas.
"Em homenagem ao pas onde tanto aprendi, terra da charcutaria, vou mudar de doce pra salgado. A marafona tinha receitas portuguesas bem adequadas", lembra-se, referindo-se
 prpria me. "Curioso, comecei pelas sobremesas e agora passo aos pratos principais. A rameira odiaria essa inverso..." No seu refgio na rua Elpdio Boamorte,
Caronte imagina um acepipe especial enquanto executa ao piano a Sonata em si bemol de Richard Wagner, compositor que aprendera a amar nos tempos de Munique.
   """"
   Alm das complicaes musicais de algumas peras wagnerianas, como a necessidade de um Heldentenor - literalmente, "tenor heroico" -, em Siegfried e n'O crepsculo
dos deuses, capaz de grande potncia vocal, com resistncia fsica para cantar por mais de duas horas ininterruptas e competncia para a interpretao dramtica
dos papis, h as complexidades cnicas das montagens. O ouro do Reno, por exemplo,  um desafio para os cantores, para a orquestra e para os maquinistas. Com duas
horas e quarenta minutos de durao sem intervalo, a pera comea com as ninfas nadando nas profundezas do rio, onde a primeira ao  ambientada. L, elas se encontram
com Alberich, o ano nibelungo. Depois, sem cortes na msica e em cena aberta, as guas se transformam em nuvens, e a seguir numa nvoa espessa. Para criar a impresso
de que as ninfas esto realmente nadando, foram concebidas mquinas especiais. Tamanha  a importncia dessas mquinas que, em 1876, Wagner supervisionou sua construo.
A Companhia de Mnchengladbach trouxe toda a aparelhagem especial do seu acervo.
   Na segunda-feira  noite, sob o comando do diretor de cena Fritz Steiner, a equipe de maquinistas brasileiros monta sem dificuldade os sofisticados aparelhos.
Ao raiar do dia, Fritz e os maquinistas saem para comemorar o sucesso num botequim da Cinelndia. Numa conversa animada digna da torre de Babel, os brasileiros apresentam
a nossa cachaa ao alemo. Tudo est pronto para a temporada.
   """"
   Assim que Othelo Battiscopa, ex-Rodap, deita os olhos em Greta Seschlitz, ambos so dominados por uma paixo fulminante. No intervalo do primeiro ensaio, a
vigorosa valquria enlaa o ano nos braos rolios e arrasta-o, semissufocado entre os seios abundantes, para uma das coxias do Municipal. Escondidos por uma tapadeira,
sem se preocupar com a possibilidade de serem vistos pelo elenco ou pelos tcnicos, Greta engolfa Othelo sob a saia e, ao simples contato do gnomo com suas coxas,
estremece de prazer. Sente-se como Wellgunde, a mais bela das ninfas do Reno. Battiscopa, por sua vez, j se imagina agarrado quelas tranas louras cavalgando a
valquria.
   """"
   - Eu vou e voc tambm vai! - afirma um enfurecido Mello Noronha ao resignado Valdir Calixto, na tarde de sexta-feira.
   Estavam todos no gabinete do delegado quando Yolanda telefonou avisando ao marido que ele teria de acompanh-la  estreia d'O ouro do Reno. O pior era que, durante
a temporada, a companhia pretendia apresentar O anel do nibelungo inteiro!
   - O bilheteiro do Municipal me disse que so quatro peras totalizando quinze horas de msica e cena interligadas na mesma narrativa! Claro que a Yolanda vai
querer assistir s quatro! - desespera-se Mello Noronha.
   - Ora, senhor doutor, no se desalente! Vamos todos juntos, pode ser divertido - sugere Tobias Esteves.
   - Wagner, divertido? Duvido muito. A msica  to alta que nem d pra dormir.
   -  a rigor. O senhor vai ter que pagar o aluguel do meu smoking - lembra, rindo, Valdir Calixto.
   O olhar do delegado congela o riso do subalterno.
   - pera, ou a gente ama ou odeia. No tem meio-termo. Eu adoro - declara Diana.
   - Tambm eu - concorda Tobias Esteves, que odeia pera mas adora Diana. - Pelo menos refrescamos as ideias sobre os assassinatos.
   - Quanto a mim, vou passar o fim de semana relaxando. No quero ver gorda na minha frente. Nem viva nem morta - desabafa o delegado. - Domingo, vou s Laranjeiras
ver meu Fluminense jogar. Amanh, vou ao Jockey Club, porque um bookmaker que me deve alguns favores me deu uma barbada imperdvel no terceiro preo: Patuska. Diz
ele que  pule de cinquenta.
   Diana e Esteves perguntam-se que favores seriam esses.
   - Eu estou de planto na delegacia, doutor. A no ser que o senhor precise de mim - informa Calixto, numa splica.
   - Preciso.
   Todos se despedem, deixando Mello Noronha a imaginar como a vida seria doce se a sua bela Yolanda fosse surda.
   """"
   No sbado, o detective Tobias Esteves leva Diana para conhecer a primeira loja criada pelo seu tio. A pequena casa, onde a fortuna de Esteves comeou antes dele
expandir os negcios,  um primor de arquitetura art nouveau. No est mais aberta ao pblico, Esteves a preserva como a uma relquia e usa apenas a parte dos fundos
como seu escritrio particular. Localizada em frente ao Mercado das Flores, na rua General Polidoro, em Botafogo, a casa ostenta uma decorao que segue o estilo
da fachada, com azulejos vindos de Portugal e vitrais de flores coloridas. Sobre o balco de mrmore rajado, Esteves conservou as vitrines arredondadas de cristal.
Um espelho bisotado cobre toda a extenso da parede dos fundos. Um lustre de bronze e pte de verre rosa pende do teto, bem no centro da loja. Duas mesinhas de ferro
forjado, com tampo de mrmore branco e cadeiras Thonet, ocupam as laterais da sala. Eram usadas por alguns fregueses antigos do tio, que vinham, no final do dia,
tomar um clice de vinho do Porto. O cho quadriculado em branco e coral lembra um imenso tabuleiro de xadrez.
   Um ar saudosista surge no olhar de Tobias quando ele se recorda da famlia:
   - A paixo pela culinria comeou com minha bisav, Luizinha Esteves, do Algarve. Era mestra em doces e salgados. Mesmo com as receitas mais misteriosas, bastava
que provasse um bocadito de doce ou de salgado, que, pelo gosto, ela decifrava-lhe os segredos. Acho que herdei dela a minha vocao de detective. - Esteves faz
uma pausa relembrando a histria que ouviu do pai, quando criana. - Sabes, ela processou o governo britnico, pois alegava que era dela a frmula do Bolo Ingls.
   - E o resultado?
   - Perdeu.
   - Quanto ela queria?
   - Nada. S queria que trocassem o nome de Bolo Ingls pra Bolo Portugus.
   Diana disfara, mudando de assunto:
   - Como se chamam os doces e os salgados portugueses mais famosos?
   - A quantidade  imensa. Receio que a menina j foi apresentada a alguns deles em circunstncias pouco favorveis... - diz Esteves, recordando o triste destino
das gordas.
   - Foi mal - concorda Diana, consciente da gafe cometida. - E os pratos mais gostosos? A cozinha portuguesa no  s feita de bacalhau.
   - Claro que no, temos o Borrego  Camponesa, Orelhas de Porco, Perna de Carneiro com Poejo, Leito  Bairrada... A nossa salsicharia  quase to grande quanto
a alem, tem Chourio de Carne, Chourio de Sangue, Farinheira Branca, Alheira de Mirandela; nas canjas quentes, o saboroso Caldo de Beldroegas, a Sopa de Grelos...
   - Esse prato  melhor voc no mencionar. Grelo aqui no so brotos,  outra coisa - explica Diana, segurando o riso.
   - Sei muito bem o que quer dizer, estava s a caoar - responde Tobias Esteves, tambm rindo.
   - Falando srio, qual  o seu prato portugus favorito?
   -  um prato que, quando como, quase ponho-me a chorar. Lembra-me de uma poesia do meu querido amigo, e grande poeta, Fernando Pessoa. Estava ao p dele, junto
com Almada-Negreiros, quando o leu pela primeira vez, no caf A Brazileira, no Chiado. Chama-se "Dobrada  moda do Porto".
   Com os olhos marejados, Tobias Esteves segura as mos de Diana, sem se dar conta, e comea a dizer os versos do poema:
   - Um dia, num restaurante, fora do espao e do tempo...
   O tempo e o espao mudaram. Agora, na Elpdio Boamorte, embaixo da linha do trem,  Caronte quem continua a dizer a poesia de lvaro de Campos, um dos heternimos
de Pessoa:
   - ... Serviram-me o amor como dobrada fria...
   O corpo nu de Greta Seschlitz alastra-se na mesa de metal do assassino. Presa s correias de couro, a alem mal consegue mexer a cabea. Estacionado na rua
Paissandu, do lado oposto ao da embaixada, Caronte a havia atrado para o furgo funerrio transformado, agora com prateleiras recheadas de amostras de salsichas.
Conhecia bem a "freguesa", das suas caadas pelo centro da cidade. Era noite e Greta sara satisfeita do Municipal antes do final dos ensaios, que seguiriam madrugada
adentro.
   Ele prossegue, ao cozinhar as tripas num imenso caldeiro:
   - Disse delicadamente ao missionrio da cozinha
   Que a preferia quente,
   Que a dobrada (e era  moda do Porto) nunca se come
   [fria.
   Impacientaram-se comigo!...
   No fim do verso, Caronte esmurra violentamente a mesa.
   - Por qu?! Por que a vaca sempre se impacientava comigo?! - Numa alucinao raivosa, ele confunde a alem com a me. - Warumw, Mutti?! Warum, Mutti liebchen?!
   Caronte declama cada vez mais alto. Receita e poesia terminam ao mesmo tempo:
   - Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
   Est pronta a ltima ceia de Greta Seschlitz.
   As Esganadas
   25
   O Theatro Municipal, na Cinelndia, foi inaugurado em 1909 pelo prefeito Pereira Passos. O teatro fica prximo  Biblioteca Nacional e ao Museu Nacional de Belas
Artes. Construdo com materiais nobres, como mrmore de Carrara, bronzes, nix e espelhos importados, decorado com esculturas e pinturas de artistas plsticos consagrados,
, sem dvida, um dos mais suntuosos do mundo. Seus arquitetos inspiraram-se, obviamente, na belssima pera de Paris.
   No incio, o Municipal era apenas um lindo teatro que recebia companhias estrangeiras, a maioria vinda da Itlia e da Frana, porm, a partir de 1930, passou
a ter seus prprios corpos artsticos: cantores, orquestra, coro e bal.
   Em seu palco, equipado com o que havia de mais moderno, exibiram-se estrelas internacionais como Isadora Duncan, Anna Pavlova, Nijinsky e Richard Strauss.
   No entanto, nada foi cercado de maior divulgao do que a vinda da Companhia de pera de Mnchengladbach. O Departamento de Propaganda e Difuso Cultural obrigou,
anonimamente, a diretoria do Municipal a cancelar um concerto do pianista polons Stanislaw Niedzielski marcado para o mesmo dia. Um dos diretores do teatro argumentou
que o cancelamento poderia criar um incidente diplomtico com a Polnia. "Entre a Polnia e a Alemanha, fico com a Alemanha", contra-argumentou o pragmtico Lourival
Fontes. Conhecia bem o desprezo do Fhrer pelos poloneses. A diretoria do teatro teve de fazer milagres a fim de reorganizar a programao, j que tinha anunciado
para a temporada, entre outras peras, Les contes
   d'Hoffmann, de Offenbach, Pellas et Mlisande, de Debussy, e a indita, no Rio, La Monacella della Fontana, de Giuseppe Mul. Sem falar na ciumeira criada pelo
baixo Albino Marone, internacionalmente famoso pelo seu Mefistofele, de Arrigo Boito, que no via com bons olhos o ano usurpador de um papel que seria seu.
   Desde a temperatura amena e o cu estrelado da segunda-feira  noite, tudo indica que a estreia far um sucesso estrondoso. O luxuoso salo Assyrio, no andar
inferior do teatro, est lotado pelo grand monde do Rio de Janeiro. Polticos, militares, artistas e intelectuais confraternizam emborcando o champanhe francs Dom
Prignon, 1921, oferecido pelo embaixador alemo Karl Ritter.  a primeira safra do vinho, que s foi posto  venda quinze anos depois. Seu buqu especial mescla
sndalo, pralin e baunilha. Ritter trouxe da sua adega particular as caixas para o coquetel.
   Ao lado de Noronha, a bela Yolanda atrai os olhares dos homens do salo. Est magnfica, num vestido de cetim de seda, ombro nico, verde-turmalina, da mesma
cor dos seus olhos, contrastando com seus cabelos negros. O longo parece ser original da haute couture francesa; na verdade,  cpia de um Robert Piguet, clebre
costureiro francs, tirada da revista A Cigarra, pela sua talentosa costureira Ritinha do Graja. As lindas costas desnudadas pelo modelo no preocupam Mello Noronha,
no seu smoking amarrotado, com cheiro de naftalina. Seguro de si, h muito tempo deixou de ter cimes da mulher. Todos se perguntam quem  aquele homem amarfanhado
de brao com aquela mulher fascinante. "Deve ser um milionrio excntrico", conclui um general invejoso, a farda de gala coberta de medalhas sem guerras.
   Diana, como sempre, traja um sbrio Chanel, e Tobias Esteves aperta-se num dinner jacket. H quinze quilos que no o veste. O mais elegante dos trs homens 
Valdir Calixto, envergando uma impecvel casaca inglesa alugada s custas da delegacia.
   Nos bastidores do palco, Othelo Battiscopa, tenso, ri as unhas at o sabugo. A ansiedade nada tem a ver com a apresentao. Ele passou e repassou as rias com
firmeza absoluta. O motivo da aflio nada tem a ver com o bel canto; faltam apenas cinco minutos para a cortina subir, e sua amada Greta no aparece.
   """"
   Escuta-se o primeiro sinal chamando o pblico para a sala de espetculos. O luxo do salo rivaliza com o foyer do teatro, em estilo Lus xvi. As quatrocentas
poltronas da plateia, estofadas em veludo vinho, as vinte frisas, os balces, as galerias e os camarotes totalizam mais de dois mil lugares, nesta noite todos eles
tomados. No h como ignorar o imenso lustre em bronze dourado com mangas e pingentes de cristal. Na sua condio de delegado especial adjunto ao palcio Central
da Polcia, Mello Noronha teve direito a uma frisa localizada prxima ao palco. Nem o fato de estar ao lado de duas lindas mulheres desfaz-lhe a carranca. Tobias
Esteves tambm parece apreensivo, seu instinto de policial sente algo de estranho no ar. O nico totalmente  vontade  o garboso Calixto, um cravo branco na lapela,
de p atrs dos quatro para no amassar a casaca.
   A convite de Getlio, ausente ao evento, o embaixador Karl Ritter senta-se no camarote do presidente da Repblica. Ele  ladeado pelo temido chefe de polcia
do Distrito Federal, capito Filinto Mller, e por Lourival Fontes, diretor do Departamento Nacional de Propaganda e Difuso Cultural.
   Segundo sinal. Silncio de expectativa. Para Noronha, a campainha  o arauto de duas horas e quarenta minutos de tortura.
   O zarolho Lourival Fontes no tira um dos seus olhos da deslumbrante mulher que ocupa o camarote  sua esquerda. Est acompanhada do grande Portinari e do ministro
da Educao, Gustavo Capanema. Trata-se da poetisa Adalgisa Nery, viva do pintor Ismael Nery. Alm da beleza, Adalgisa sobressai pela personalidade vivaz. De repente,
ri alto de alguma coisa que o ministro lhe diz. Lourival pede emprestado o pequeno binculo do embaixador e, colando o olho torto numa das lentes, lana a vista
cobiosa sobre a poetisa.
   """"
   Na coxia, paramentado de gnomo nibelungo, o coraozinho esmagado dentro do peito de pombo, Battiscopa sabe que no podem mais esperar por Greta Seschlitz.
Soa o terceiro sinal. Othelo Battiscopa esconde-se atrs de uma das rochas do fundo do rio, colocada no proscnio, junto  ribalta.  de l que o baixo entoar os
primeiros versos para a consagrao universal:
   Oh, ninfas!
   Como me parecem lindas!
   Desejveis criaturas!
   Venho
   Da terra dos nibelungos!
   Das profundezas sem fim!
   Posso ir at vocs,
   Se vierem at mim!...
   As trs ninfas irms tomam posio na parte superior do espao cnico e comeam a ondear os braos, como se nadassem nas guas do Reno. O maestro Wolfgang von
Hasslocher ataca as primeiras notas da pera. Sobre a cortina fechada, focos de luz em movimento simulam a correnteza do rio.
   A obra inicia com um preldio de cento e trinta e seis compassos representando o fluxo eterno do rio. Dura cerca de quatro minutos. Em sua autobiografia, Wagner
menciona que a ideia surgiu quando estava sonolento num quarto de hotel, na Itlia. No esclarece se o preldio despertou-o ou f-lo dormir de vez. Aps os quatro
minutos, a cortina sobe com vagar, e as ninfas Woglinde, Wellgunde e Flosshilde cantam alegremente.
   Sbito, as irms ficam mudas em cena. Battiscopa no entende por que as trs ninfas pararam de cantar. Ao mesmo tempo, o maestro interrompe a msica. Em unssono,
vem da sala um pavoroso grito de terror. Devido  sua pequenez, Othelo  o ltimo a ver o motivo do berro incontrolvel da plateia. Ele segue o olhar horrorizado
dos msicos, maestro, maquinistas, contrarregras, cantores e plateia em direo ao urdimento. Servindo de contrapeso para alar o pano de boca, desce o corpo nu,
enrolado em linguias, de Greta Seschlitz.
   O cadver sem olhos balana na extremidade da corda, como um pndulo grotesco de um relgio invisvel. Enfiado na cabea, v-se um capacete com chifres igual
ao elmo das valqurias, toque de humor macabro do assassino. As tranas louras se entrelaam com salsichas vienenses. Da sua boca escancarada escorrem restos de
tripas, ou, como prefere o poeta, dobradas  moda do Porto.
   No resistindo  perda do segundo grande amor de sua vida nas mos do mesmo manaco homicida, o homnculo, cego de dor, atira-se de cabea no fosso da orquestra
e morre entalado na campnula da tuba.

   As Esganadas
   26
   Instala-se o pnico no Municipal. Largando estolas, binculos e programas, o pblico voa pelos dois lances da famosa escadaria, correndo em atropelo para os portes
de sada. Duas senhoras de idade estatelam-se no cho, quase esmagadas pelo estouro da cavalgada humana que foge para a Cinelndia. O tropel transforma O ouro do
Reno de tragdia pica em tragdia hpica.
   Embora tenham escapado ilesas da avalanche, as idosas, que eram assduas frequentadoras das temporadas lricas, fazem ali mesmo o pacto de nunca mais sair de
casa. pera, s na vitrola.
   Prtico, Mello Noronha salta da frisa para a plateia seguido do atltico Calixto e corre para o palco. Grita ao cortineiro que desa o pano de boca para poderem
retirar do urdimento a vtima atada s cordas do contrapeso. O homem obedece, plido, saindo da letargia em que se encontrava. Em vinte anos de teatro, jamais assistiu
a semelhante grand-guignol. Assim que as mos trmulas do cortineiro comeam a baixar a cortina, Noronha ordena a Calixto que suba ao urdimento para resgatar o corpo.
   - Desculpe, doutor Noronha, mas isso eu no fao nem pela minha me. O senhor sobe l e pega a moa, que eu fico tomando conta aqui embaixo.
   Mello Noronha hesita, calculando a altura do palco e o peso da alem.
   - Sozinho, eu no consigo. Faz o seguinte, vai buscar dois dos guarda-costas da Polcia Especial que fazem a segurana do Filinto. Manda um motorista da Central
levar dona Yolanda e dona Diana pra casa - ele ordena, apontando para as duas, que acabam de entrar na plateia acompanhadas por Esteves.
   - Sou jornalista e no vou pra casa to cedo - declara Diana, olhando a carcaa pendente.
   - Eu sou portugus e tambm fico - afirma Tobias Esteves.
   - E eu vou vomitar - anuncia a bela Yolanda, do fundo da sala, hipnotizada pelo quadro dantesco armado no palco do Theatro Municipal.
   - Tranca-se a porta depois da casa arrombada - comenta Noronha, ao ser informado de que Filinto deu ordens para que um batalho da Polcia Especial fechasse todas
as sadas e examinasse os documentos da pequena parcela do pblico que no havia conseguido escapulir. Os "quepes vermelhos" executaram a rotina intil.
   Sentados no banco traseiro da limusine Mercedes-Benz da embaixada, Lourival Fontes e Filinto Mller desculpam-se junto ao embaixador alemo pelo "pequeno desconforto
causado na estreia", no dizer de Lourival. Karl Ritter est enlouquecido de raiva. A morte da alem nada faz para melhorar as relaes delicadas entre os dois pases,
tensas desde que o Partido Nazista foi proibido no Brasil. Alm de furioso, Ritter teme uma violenta represlia pessoal:
   - Quando o meu Fhrer souber do assassinato humilhante da minha funcionria, afilhada do almirante Canaris, e, o que  pior, quando ele souber que o crime aconteceu
durante a apresentao da sua pera preferida, vai me mandar ser embaixador no campo!
   Lourival procura consol-lo:
   - No se amofine, Excelncia, eu tambm prefiro a cidade, mas a vida no campo  mais saudvel.
   - Lourival, o embaixador est se referindo aos campos de concentrao... - explica, embaraado, Filinto Mller, que conhece bem o assunto.
   - Talvez haja uma declarao de guerra!
   - Calma, pra tudo tem sada - afirma Lourival, homem das maquinaes criativas. - O meu departamento pode divulgar pela imprensa que se trata de um compl comunista.
   - Ningum vai engolir essa histria - dispara, rspido, Filinto, tentando a tarefa impossvel de encarar ao mesmo tempo os dois olhos de Lourival. - Todos que
estavam no teatro ouviram falar do Caso das Esganadas. A vtima  um exemplo claro. O senhor pode garantir ao ministro Ribbentrop que no foi um atentado ao Reich.
O nosso melhor delegado, com o auxlio de um famoso detetive portugus, est no encalo desse assassino louco. A priso do mentecapto  iminente - bazofia o chefe
de polcia.
   """"
   O rabeco do Instituto Mdico-Legal j levou os corpos de Greta Seschlitz e de Othelo Battiscopa, este ainda encravado na tuba. Foi em vo o esforo dos atendentes
do iml para desentalar o ano do instrumento. Msicos, tcnicos e elenco saram apressadamente do teatro. Traumatizados, os cantores nem retiraram a pesada maquiagem
que usavam na pera.
   Noronha e Esteves do uma busca na cena do crime. Tm uma vaga esperana de encontrar o assassino escondido no urdimento, nos camarins ou no alapo do palco.
A procura  intil. Interrogam o vigia da noite, o porteiro e a equipe encarregada de cuidar dos bastidores: maquinistas, carpinteiros, contrarregras e o diretor
de palco. Nenhum resultado. Diana fotografa todos os detalhes com a Leica 250, que traz na bolsa.
   No fazem a menor ideia de como o insano homicida conseguiu ter acesso aos bastidores do teatro, carregando os despojos monumentais da pobre rapariga. O enigma
parece insolvel at mesmo para o detective Tobias Esteves, exmio decifrador de charadas inextricveis.
   """"
   Em sua residncia, uma manso na rua Real Grandeza, anexa  funerria, o solitrio Caronte pensa no desespero da polcia procurando descobrir como ele transportou
a gorda para o Municipal sem que ningum percebesse. "Nem Houdini! Nem Houdini!", vangloria-se o matador.
   Desta vez, ele no se aplica a soluo costumeira de alucingenos. Para celebrar a carnagem, fuma um cigarro de cocana. Inalada, a droga produz efeito igual
ao causado pela aplicao endovenosa, sem o inconveniente da agulha e da seringa. A reao provocada pela cocana  intensa. Rindo, Caronte acende o segundo cigarro.
Sua gargalhada nscia de drogado ressoa pelo casaro vazio.
   A bem da verdade, ningum poderia imaginar o bvio. Dois anos antes, Caronte realizara o sonho secreto de fazer parte da orquestra do Theatro Municipal do Rio
de Janeiro. Vencera com brilho o concurso para preencher a vaga aberta na seo de contrabaixos.
   Na vspera do espetculo, foi fcil passar despercebido pela portaria dos fundos arrastando, sobre rodas, a gorda espremida no estojo do instrumento. Depois,
usou as roldanas do palco para iar o corpo at o urdimento.
   No dia seguinte, voltou para a estreia de gala, integrando a Sinfnica. Quando a cortina subiu e a gorda desceu, Caronte teve orgasmos mltiplos ao ver sua obra
exibida diante do pblico, em pleno palco do Theatro Municipal.
   Ele gosta do contrabaixo. Ensaia  noite, na Elpdio Boamorte, nas sombras do antigo matadouro. Sempre que o coloca entre as pernas esqulidas, lembra-se da me
e golpeia com vigor as cordas com o arco, como se a chibateasse. Ser um dos contrabaixistas da Sinfnica era o seu segredo mais bem guardado. Jamais os colegas da
orquestra acreditariam que aqueles dedos geis e delicados no pizzicato pertenciam s mos que esganavam as gordas.
   O efeito euforizante da droga se esgota, e o riso alucinado transforma-se em apatia. Ele enxerga apalermado sua magra silhueta refletida no contrabaixo. Num surto
paranoico, v-se distorcido na madeira envernizada.  a imagem de um Caronte gordo, enorme, vasto, colossal, desmensurvel. Ele despenca em prantos no cho, agarrado
ao instrumento como se estivesse abraando a prpria me.
   As Esganadas
   27
   "O cu plmbeo de inverno que cobre a Guanabara, pressgio do temporal que se aproxima, acoberta outra borrasca, esta sem bonana", profetiza, solene, Rodolpho
d'Alencastro, o orculo das ondas mdias. "Devastado pelo pesar, o locutor que vos fala atravs da prg-3, Tupi do Rio, transmite, diretamente do cemitrio So Joo
Batista, o derradeiro cortejo que transportar ao mausolu os despojos mortais de Greta Seschlitz e Othelo Battiscopa, mais conhecido nos meios circenses como
o palhao Rodap. O ananicado artista deu fim  prpria vida ao ver a Greta tanto amada sucumbir nas mos do prfido psicopata que ronda nossas ruas.
   "Nestes momentos horripilantes de tenso, ao presumir que o assassino pode atacar outra jovem obesa em qualquer ponto da cidade, nada melhor para acalmar os nervos
do que fumar um bom cigarro enrolado em seda Zig-Zag. Zig-Zag  o melhor papel francs para cigarros. Fumadores!, exijam em todas as lojas de tabaco o Zig-Zag, a
primeira marca do mundo."
   """"
   Para gudio de Caronte, as exquias ficam a cargo da sua empresa. O fato no o surpreende, j que sua funerria  a melhor da Amrica do Sul. Houve at um argentino
que pediu, em testamento, para ser enterrado no Rio, devido  fama internacional dos servios da Estige.
   Alm de fazer uso do blsamo aromtico composto de plantas, resinas e leos, receita secreta inventada por seu pai para o trato dos defuntos, Caronte  criativo
nos ritos fnebres. Transforma simples funerais em espetculos de luxo e originalidade. No caso especfico, concebeu um caixo para que Othelo Battiscopa permanecesse
dentro da tuba. Apesar das dimenses do instrumento, o esquife do ano "entubado" era bem menor do que a arca pag da mitologia nrdica, encomenda da embaixada alem.
   Os amantes so inumados ao mesmo tempo.  inevitvel a comparao entre os dois caixes. Presentes  cerimnia, cantores e artistas de circo de um lado, oficiais
e autoridades alems do outro. A monumental germnica  levada  sua ltima morada com honras de Estado. O embaixador Ritter l uma mensagem do Fhrer concedendo
a Greta Seschlitz a Grosskreuz des Deutschen Adlerordens, "Gr-Cruz da guia Alem", a ttulo pstumo. A medalha  a maior honraria concedida a membros de corpos
diplomticos. Entre os poucos alemes merecedores da distino, est o prprio ministro das Relaes Exteriores, Joachim von Ribbentrop. Dos brasileiros que compareceram
 solenidade, o nico que leva a srio a homenagem  Lourival Fontes, a quem chamam, em surdina, pelo apelido de Um Olho no Padre.
   Assistindo ao enterro duplo de Greta Seschlitz e Othelo Battiscopa na esperana de surpreender o assassino, o delegado Mello Noronha revela no compreender
como um homem to pequenino podia ser dotado de uma voz to especial. Esteves relata, devaneando:
   - No final da Idade Mdia, o papa Benedito xi quis empregar o extraordinrio pintor Giotto di Bondone. Mandou um emissrio a Florena pra verificar como eram
suas obras e se Giotto era to genial quanto diziam. O mensageiro pediu ao pintor um trabalho pra mostrar ao papa, como prova da sua genialidade. Giotto pegou um
papel, um carvo e, num movimento rpido  mo livre, traou um crculo perfeito. Diante da perplexidade do emissrio, Giotto tranquilizou-o: "Leve o desenho ao
papa que ele vai entender".
   - O que  que essa histria tem a ver com Battiscopa? - pergunta Noronha, curioso.
   - Giotto tambm era ano. Talento no escolhe tamanho - declara Tobias Esteves.
   Os quatro fazem uma pausa reflexiva. Calixto rompe o silncio, repetindo o que todos j sabem:
   - Parece que, quando os dois se encontraram logo no primeiro ensaio, foi amor  primeira vista.
   -  verdade - concorda Tobias Esteves. - Um verdadeiro coup de foudre.
   Calixto olha acanhado para Diana e diz em tom de reprimenda:
   - Bom, seu Tobias, esse detalhe sobre sexo anal eu desconhecia.
   """"
   A firme insistncia do delegado Mello Noronha com Filinto Mller faz com que o embaixador Karl Ritter, depois de muito negar, permita que a Polcia Tcnica, sob
a chefia do cientista forense Alosio Pelegrino, nico do departamento com curso de especializao no Laboratrio Cientfico de Deteco de Crimes do fbi, nos Estados
Unidos, examine o quarto da alem.
   Mesmo assim, a busca acontece sob o olhar vigilante de um funcionrio mal-encarado, Hans Sauckel, sem dvida da Gestapo. Em todas as delegaes alems do mundo
havia desses sicrios ligados ao setor "cultural" das embaixadas. Pelo menos era o que constava nos seus passaportes. A ironia maior  que o marechal Hermann Goering
proclamara numa conveno do partido: "Toda vez que escuto falar em cultura, pego a minha Luger".
   O quarto de Greta Seschlitz era um verdadeiro sacrrio nazista. Na parede, fotografias do documentrio O triunfo da vontade, de Leni Riefenstahl, sobre o congresso
do partido em 34. Diana registra tudo com a sua cmera. Acima da cama, um imenso retrato a leo do Fhrer Adolf Hitler, mos na cintura, enfeita o dossel como o
anjo da morte. Os olhos azuis do facnora no suavizam a dureza do rosto. A colcha, presente do "tio Rudolf", como Greta chamava carinhosamente Rudolf Hess, secretrio
de Hitler, tem a cor e o emblema da bandeira. At a estamparia do enorme pijama tipo "coelhinho" dobrado sobre um dos travesseiros  feita com centenas de pequeninas
susticas.
   O alemo, suando em bicas no seu pesado casaco de couro talhado para o frio prussiano, apressa os peritos da Polcia Tcnica.
   - Schnell! Macht Schnell! Rasch! Husch! - grita Hans Sauckel.
   O berro de Hans leva o velho tcnico Mangabeira, baiano de Juazeiro h anos na Forense, a ralentar ainda mais a peritagem:
   - Na minha terra a gente tem um adgio: "O apressado come cru", seu Ramos.
   - Non  Ramos!  Hans! Hans! - vocifera, apopltico, o alemo.
   - Cuidado, seu Ramos, assim o senhor vai ter uma congesto raivosa que pode lhe dar uma trombose da boca torta...
   Alheio ao debate entre o fanatismo huno e a sabedoria nordestina, Tobias Esteves senta-se no confortvel leito em forma de nave viking. Ao ajeitar os travesseiros,
descobre um caderno com uma refinada capa de couro entalhado. Destaca-se a famigerada sustica e o ttulo em letras douradas:
   mein tagebuch
   - Doutor Noronha, acho que isso pode interessar-lhe - diz Esteves, folheando o livro negro.
   Noronha senta-se ao seu lado.
   - Do que se trata?
   -  o dirio da menina Greta.
   - Voc fala alemo?
   - Como qualquer filsofo que se preze formado em Coimbra. Grego clssico, s leio.
   O portugus no cessa de assombrar Noronha.
   - O que tem anotado a que possa nos ajudar? - pergunta o delegado, querendo arrancar o dirio das mos de Tobias.
   - Vrias informaes sobre uma rede de espionagem a ser formada no Brasil, a comear pelo sul do pas. Pontos de desembarque clandestinos para submarinos no litoral
brasileiro, em Santa Catarina. Nomes de simpatizantes em Blumenau que poderiam formar a base da "quinta-coluna". Em alguns dias ela anota que sente-se seguida por
um vulto e desconsidera os episdios. Imagina que seu seguidor pertena ao servio de contraespionagem brasileiro.
   - Servio de contraespionagem? Eu pensei que o governo fosse a favor... Tobias, isso  matria que interessa ao servio secreto do Ministrio da Guerra. Vou mandar
o Calixto sair com esse calhamao escondido nas calas. O que eu quero saber so detalhes ntimos da gorda que possam nos ajudar.
   Tobias Esteves procura anotaes corriqueiras sobre o cotidiano da gorda:
   - Nada de especial. Seno vejamos: "Quinta-feira, 24 de maro. Fui ao centro comprar mais plulas. Voltei e ordenei  cozinheira que preparasse um prato de Kartoffelklsse
para o jantar".
   - O qu?!
   - So bolos de batata. Uma delcia.
   - V em frente.
   - "Sexta-feira, 25 de maro. Hoje, vou comer uma Pfefferpotthast no almoo e, no jantar, uma coisa mais leve: Schweineschnitzel com Bananastrudel de sobremesa.
Sbado, 26 de maro. Acordei um pouco nauseada. Acho que foi uma fatia de ma assada que comi antes de dormir."
   Noronha arranca, irritado, o caderno das mos de Tobias.
   - Isso no  dirio,  um livro de receitas!
   - E as tais plulas? - pergunta Esteves.
   - Sei l, devem ser cpsulas de cianureto. Coisa de espio - responde, ansioso, Mello Noronha, indo para as ltimas pgina do dirio.
   A partir do encontro com Othelo Battiscopa, as folhas so preenchidas com vrios desenhos de coraes entrelaados com susticas cor-de-rosa. A nica entrada
legvel data de tera-feira, 5 de julho:
   - "Enfim encontrei o grande amor da minha vida! Othelo Battiscopa! Mein Schatzi!
   Z Liebst!... Schatz! Liebst du mich? Eu te amo! Voc me ama?"
   Essa pattica declarao de amor era repetida, sem alteraes, por diversas pginas. Obnubilada pela paixo, Greta Seschlitz, formada em literatura alem na
Universidade de Heidelberg, perdera a capacidade de se expressar com clareza.
   O resto da busca efetuada pela equipe da Polcia Cientfica nada encontrou de significativo. No armrio do banheiro, vrios frascos vazios e um pela metade, com
rtulos que indicavam tratar-se de uma mescla de ervas da Amaznia com outras de florestas menos notveis. Enfim, a miscelnea que se acha habitualmente na farmacopeia.
Por via das dvidas, Alosio Pelegrino leva os frascos e as cpsulas para o laboratrio, a fim de certificar-se de que o contedo corresponde s etiquetas.
   Noronha chama o rgido Calixto, que a tudo observa da soleira da porta. Entrega-lhe o dirio enrolado.
   - Calixto, temos que levar esse documento daqui sem que os alemes percebam. Diz respeito  segurana nacional. Enfia ele no bolso da cala assim como est.
   O relutante Calixto recolhe a maaroca.
   -  melhor o senhor ir na frente, e o seu Esteves logo atrs de mim. O alemo parrudo pode pensar que o volume do bolso  outra coisa. Desde que eu cheguei que
ele me olha sorrindo. No sei no, doutor Noronha, mas eu acho que o gringo  fancho - declara Calixto, usando um vocbulo pouco vernacular.
   As Esganadas
   28
   Uma atmosfera geral de desalento abate-se sobre os quatro amigos espalhados no gabinete do delegado Mello Noronha. Como era de esperar, nada de revelador surge
no relatrio no 7 do Caso das Esganadas. Nenhum ponto em comum com as outras seis, a no ser,  claro, o fato de todas serem gordas. Somente as obesas despertam
o interesse do psicopata. A segunda autpsia, efetuada pelo doutor Gregor Becker, das ss, mdico pessoal de Goering, vindo s pressas no avio particular do Fhrer,
apresentou a mesma concluso a que chegara o intragvel legista brasileiro Ignacio Varejo:
   "Petquias na conjuntiva indicam, mais uma vez, morte por asfixia. Acredita-se que resultem do aumento da presso venosa na cabea e do dano ao endotlio, resultante
de hipxia. Leses em vrias partes do corpo, produzidas na vtima agonizante, provavelmente numa tentativa de comprimir o corpo em algum recipiente. Manchas com
aparncia de lquido seminal espalham-se pela face externa da coxa direita. Como nos casos precedentes, h sinais do uso de anestsico na subjugao da vtima. Os
globos oculares foram enucleados."
   - O mais irritante  a falta de impresses digitais em todos os lugares por onde ele passou - desabafa Mello Noronha.
   Para o delegado, era uma ironia no poder se beneficiar de todos os novos recursos de identificao agora  disposio dos rgos de segurana.
   - Sei l, doutor Mello, vai ver que o homem no tem impresso pra deixar - sugere o ingnuo Calixto.
   - Impossvel! - A rplica fulminante de Noronha vem acompanhada de uma verdadeira dissertao sobre datiloscopia, sua defesa de tese na Escola de Polcia. - 
a primeira coisa que se aprende. Desde que Alphonse Bertillon, em 1879, e Francis Galton, em 1892, pensaram num processo de identificao pelas marcas deixadas pelos
dedos, alegando a impossibilidade de que duas pessoas, mesmo gmeas, tivessem impresses iguais, vrios criminosos foram condenados devido ao mtodo. O primeiro
caso ocorreu aqui ao lado, na Argentina, em 1892. O chefe de polcia de Buenos Aires, Juan Vucetich, associou as impresses digitais ao sistema de antropometria
fotogrfica criado por Bertillon e estabeleceu o primeiro arquivo organizado de identificao-padro.
   - Pois  verdade - contribui Esteves, que conhece bem o caso.
   O assunto desperta o interesse jornalstico de Diana.
   - Boa matria pra minha revista.
   - No mesmo ano - continua o delegado - Francisca Rojas, da cidade de Necochea, foi encontrada, com machucaduras no pescoo, numa casa com seus dois filhos menores
degolados. Francisca acusou um vizinho, que, mesmo sob violento interrogatrio, no confessou o massacre. O inspetor Alvarez, colega de Vucetich, encontrou, na cena
do crime, a impresso de um polegar sangrento na porta da casa. A marca era idntica  do polegar de Francisca. Quando interrogada novamente, a mulher confessou
ter matado os filhos.
   - Os prprios filhos? - pergunta o horrorizado Calixto, que traz, junto ao corao, a fotografia de sua me.
   - Exatamente. Mas, como se deu na Argentina, o crime foi noticiado apenas nos jornais de Buenos Aires. O primeiro julgamento a pr em evidncia a importncia
dessa nova forma de identificao aconteceu no Caso Scheffer, em 1902, quando Alphonse Bertillon conseguiu a condenao do assassino pelas impresses colhidas meses
antes, na ocasio em que Scheffer havia sido detido por uma pequena infrao. O processo continua a ajudar a polcia. Isso porque, se h uma certeza na medicina
forense,  a de que todo mundo tem impresses digitais e nenhuma  igual a outra - termina Noronha. E berra, mais uma vez, para Calixto: -  impossvel algum no
ter as marcas nos dedos. Entendeu? Impossvel!
   Calixto cala-se, ensimesmado.
   No gabinete, a depresso  densa como o fog londrino. O mutismo  quebrado pelo sotaque carregado de Tobias Esteves. O detective levanta-se, pe a mo no ombro
de Calixto e cita Shakespeare:
   - "H mais mistrios entre o cu e a terra, Horcio, do que sonha a vossa v filosofia."
   - Meu nome  Valdir, seu Esteves - lembra Calixto, achando que o portugus perdeu a razo.
   - Sei-o bem, querido Calixto, sei-o bem. Estava a me referir ao verso de Shakespeare ao seu amigo Horcio quando Hamlet v o fantasma do pai.
   - Entendi - afirma Calixto, mentindo.
   Noronha, que odeia esse tipo de divagao, fecha ainda mais a carranca.
   - E o que  que o fantasma do pai do Hamlet tem a ver com esta histria?
   - Nada, senhor doutor delegado.  que, quando surge-me um problema to inexplicvel, vem-me logo  mente o que j disse-lhe antes: o Princpio da Parcimnia...
a Navalha de Ockham.
   - Sei, sei, o tal frade filsofo da Idade Mdia. Mas como  que isso pode nos ajudar? - pergunta Mello Noronha, mais impaciente ainda.
   - Pode nos ajudar porque a chamada "navalha" corta fora qualquer informao que no seja estritamente necessria  explicao dos fatos.  simples. "Se em tudo
o mais as vrias explicaes de um fenmeno forem idnticas, a mais simples  a melhor."
   - Desculpe, seu Esteves, mas, se envolve navalha, estou fora. Odeio arma branca - confessa Calixto, encolhendo-se na poltrona.
   - Calma,  s um velho axioma muito usado por Sherlock Holmes nas suas aventuras: "Quando se elimina o impossvel, o que resta, por mais improvvel que parea,
tem de ser a verdade".
   - O que  que voc est dizendo?
   - Estou a dizer que o nosso Calixto tem razo. O assassino no deixa impresses porque no as tem. Resta saber como ou por qu. - Ele cumprimenta Valdir: - Parabns,
meu amigo.
   Valdir Calixto sente-se a pessoa mais importante da sala e agradece, acanhado:
   - Obrigado, seu Esteves. Puxa, eu sou filsofo e no sabia.
   """"
   Sbado, 16 de julho. H trs dias, a chuva incessante forma pequenos crregos pelos corredores traados entre os tmulos do cemitrio So Joo Batista. Caronte
observa da janela dos fundos da funerria. Depois, examina no espelho os fios remanescentes dos seus cabelos. "Poucos, muito poucos", pensa. A maquiagem aplicada
para cobrir as ndoas escuras que lhe maculam a pele quase no disfara a deformidade. As cutculas sangram pelas unhas finas que se desfolham como papel. A angstia
invade o assassino. Nem as cerimnias fnebres, que tanto o excitavam, conseguem dissipar-lhe o spleen. Cada vez mais, deixa tudo nas mos do seu diretor funerrio,
Aristarco Pedrosa, formado em tanatopraxia e fiel a Caronte como um co de guarda. Empedernido, de aparncia cadavrica, o eficaz administrador veste sempre uma
sobrecasaca preta combinando com o cargo. A fisionomia soturna de Aristarco s se transforma  noite, nos fins de semana liberais da Lapa, onde ele  conhecido como
Cu de Veludo.
   Para evitar os olhares curiosos dos clientes, Caronte refugia-se nos recantos escuros do casaro. Sente falta da caa; a carnificina  a sua droga. Ele sabe que
a abstinncia intensifica a sndrome de Nagali. A ligao patolgica entre o corpo e a mente j havia sido observada no sculo x, pelo cientista persa Ahmed ibn
Sahl al-Balkhi. Ahmed fora o primeiro a associar a sade fsica  mental. No caso de Caronte, a relao  evidente. Ele precisa de outras vtimas e sabe onde encontr-las.
A colheita viosa est logo ali, pulsando ao alcance da mo. Basta escolh-la, oculto nos vos sombrios do Beco dos Barbeiros.
   """"
   Por mais que adore Diana, Tobias Esteves no se acostuma  velocidade que ela imprime ao seu Lagonda Drophead. Tobias tambm preferiria que a moa baixasse a
capota do conversvel, mas no tem coragem de pedir. Vai segurando com uma das mos o feltro Borsalino enfiado na cabea e com a outra agarra-se ao banco. s dez
horas da manh de segunda-feira, os dois dirigem-se ao instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, onde estagia o italiano Luigi Peterzani, especialista em gentica humana.
Aos quarenta anos, Peterzani  tambm formado em psicopatologia, e Diana o conhecera quando o cientista viera ao Brasil, em janeiro, para uma srie de palestras
a convite da Universidade do Rio de Janeiro.
   Mulherengo e vaidoso, o belo romano interessou-se por Diana e concedeu-lhe uma entrevista recheada de fotos, nas quais ele fazia questo de mostrar apenas o perfil
direito. " o meu lado bom. O esquerdo fa schifo...", afirmou, com um sorriso perolado.
   Diana felicita-se por ter mantido contato com o cientista. Galanteios  parte, Peterzani tinha reputao internacional, com doutoramento em gentica, epidemiologia
e sade pblica pela Universidade de Massachusetts, em Boston. Era um dos srios candidatos ao Nobel, mas apaixonara-se pelo Rio no Carnaval e estendera sua visita.
No era raro v-lo, durante as pesquisas sobre a vacina contra a peste bubnica, cantarolando, com sotaque romanaccio, a marchinha de sucesso do ano anterior: "Mame
eu quero, mame eu quero, mame eu quero mamar! D a chupeta! D a chupeta! Ai! D a chupeta pro beb no chorar...".
   - Ma guarda che bella ragazza! - grita Luigi Peterzani, desgrudando o olho do microscpio e levantando-se para beijar Diana. - J sei! Nostalgia di me? - Ele
usa a palavra que mais se aproxima de "saudades".
   - Nunca, voc  muito perigoso... mas eu preciso da sua ajuda.
   - Eu sabia, fanciulla interesseira... quem  este senhor idoso em forma de barrica di vino, seu tio?
   O olhar de Esteves atravessa o crnio do italiano.
   - Se me permite, no sou idoso, nem tio, nem barrica. Sou o delegado auxiliar provisrio Tobias Esteves, convocado para ajudar a Central de Polcia numa importante
investigao criminal. Presumo que tenha ouvido falar no Caso das Esganadas.
   - No se aborrea, delegato, foi uma pequena crise de cimes. Como posso ajud-los? - pergunta Peterzani, comeando a falar srio.
   Esteves explica o motivo da visita:
   - O que mais nos espanta em todos os crimes  a total falta de impresses digitais por onde o matador passou.
   - Alm das marcas deixadas pelas vtimas, a percia s conseguiu recolher esses borres - completa Diana, mostrando ampliaes das fotos que fez.
   Tobias continua:
   - Em princpio, sabe-se que  impossvel as pessoas no terem os desenhos nas pontas dos dedos; no entanto, o estudo da lgica e da filosofia ensinou-me que,
como diz um velho ditado da minha terra: "Impossvel  Deus mentir e rato fazer ninho em orelha de gato".
   O professor Luigi Peterzani impressiona-se com o fervor do portugus. Olha-o com renovado respeito, afasta-se da bancada e puxa da estante um pesado compndio
sobre dermatologia e gentica. Corre o dedo pelo ndice e abre o livro no captulo indicado.
   - Cara Diana, quero felicitar seu amigo pela persistncia e pelo raciocnio perfeito. Ele tem razo,  claro.
   Diana e Esteves entreolham-se, surpresos. Peterzani l o artigo cientfico para os dois:
   - Aqui est. Sndrome de Nagali. Tambm chamada de chromatophore nevus de Naegeli. Descoberta pelo dermatologista suo Oskar Naegeli, em 1927. Forma rara de
displasia ectodrmica caracterizada por uma pigmentao reticular da pele, disfuno das glndulas sudorferas, fragilidade capilar, ausncia de dentes, hiperceratose
palmar e da planta dos ps. Assemelha-se  dermatopatia pigmentosa reticular.
   - No estou a entender patavina.
   - Nem eu.
   - O que tem a ver essa barafunda descrita no alfarrbio com o patife que ps-se a matar gordas?
   O cientista sorri, criando suspense, e explica:
   - A caracterstica mais espantosa causada pela sndrome  a ausncia total de impresses digitais.
   O rudo surdo feito pelo cientista ao fechar o livro tira Esteves e Diana do transe provocado pela notcia.
   - Em todos os meus anos como policial da cidade de Lisboa, nunca ouvi disparate mais estapafrdio - sentencia Tobias Esteves.
   - No  culpa sua - tranquiliza-o Peterzani. - Trata-se de um fenmeno rarssimo, atinge apenas uma em cada trs milhes de pessoas.
   - Uma em trs milhes!? - admira-se Diana.
   - Eh s. Em todos os meus anos como mdico e pesquisador, nunca encontrei um portador.
   - E essa sndrome causa distrbios neurolgicos ou psicolgicos? - pergunta Tobias Esteves.
   - Claro que no, a doena nunca afetou o crebro de ningum! Dio mio, que ignoranza galopante! Pelo que eu li nos jornais, o assassino  um psicopata. Mas isso
no tem nada a ver com a sndrome.
    porta do instituto de Manguinhos, construdo no estilo mourisco das Mil e uma noites, Diana despede-se do sedutor cientista italiano, sentindo-se como Sherazade
fugindo do sulto.
   """"
   - Valeu a pena a visita - ironiza Tobias Esteves, quando saem de Manguinhos. - Agora basta procurar por um gajo sem digitais, desdentado, manchado e sem alfarreca.
   - Sem o qu?
   - Sem cabeleira, enfim, com poucos cabelos.  uma expresso l nossa - explica ele. - Aproveito pra pedir perdo  menina Diana pela minha resposta abrupta ao
comentrio jocoso do italiano - desculpa-se.
   Diana engata a terceira marcha ao sair de uma curva.
   - No ligue pra ele, Tobias, o Luigi  um cientista genial, mas acha que tudo lhe  permitido. Foi expulso da Universidade de Roma, onde era catedrtico, porque
se recusou a fazer a saudao fascista numa visita de Mussolini.
   - Comeo a simpatizar com ele. Mussolini e Hitler so dois malucos que ainda vo causar muitos problemas. No queria estar na Europa agora.
   - Pois  pra onde eu vou.
   Esteves espanta-se com a revelao de Diana.
   - A menina est a troar comigo?
   - No, Tobias,  verdade. Costa Rego me convidou pra ser correspondente internacional do Correio, na Frana.
   Costa Rego, um dos jornalistas mais importantes do pas,  redator-chefe do famoso Correio da Manh. Diana o conhecia dos saraus de sua me, Dulce de Souza Talles,
onde se reuniam artistas e intelectuais, encontros que rivalizavam com os sales de Laurinda Santos Lobo, em Santa Tereza.  num desses saraus que Diana solicita
o posto ao jornalista. Apesar das splicas da me, que a quer perto de si, Costa Rego, um renovador na histria da imprensa, encanta-se com a ousadia da moa e com
a ideia de ter uma mulher no foco do conflito iminente.
   Diana estica a terceira do Lagonda e passa a quarta, com suavidade, aproveitando a reta. O feltro Borsalino escapa das mos de Esteves. Ele toma coragem e pergunta:
   - No h nada que possa faz-la desistir de uma aventura to perigosa?
   - No, Tobias,  tudo que eu quero. Estar no lugar certo, no momento certo.
   Esteves despeja a sentena guardada desde que conheceu Diana:
   - Ento me foras a dizer sem mais delongas que estou inexoravelmente apaixonado por ti.
   Diana enfia o p no freio e o carro vai ziguezagueando at parar junto  calada. Ela vira-se, segura o rosto do inspector entre as mos e beija-lhe a boca. Esteves
retribui com o fervor h tanto tempo reprimido.
   - O meu beijo tem dois motivos: primeiro,  prova de que tambm gosto de voc. Segundo,  um beijo de despedida. No momento, no h, na minha vida, espao pra
esse grande amor. Toda a minha paixo est concentrada no meu ofcio.
   - Quem sabe, um dia? - diz, esperanoso, o portugus.
   - Quem sabe.
   Ela o beija novamente e dispara o Lagonda em direo ao trnsito da avenida. Satisfeito por ter ao menos declarado o seu amor e no ter sido rejeitado, Tobias
lembra-se, sem motivo algum, de um provrbio da regio do Zambujal que seu av gostava de repetir: "Mais vale ser solteirona em Sintra do que apedrejada em Teer".
   As Esganadas
   29
   Na manh fria de inverno, como  de hbito, Calixto sai da Casa Cav, onde seu amigo, o gerente Castelo, lhe serve todos os dias um lauto caf da manh, e segue,
saciado, a p, para o palcio Central da Polcia, na rua da Relao. Acha que a caminhada ajuda-o a manter a forma.
    o primeiro a "comear o expediente", como costuma dizer. Abre a antessala, inspeciona sua mesa e o gabinete do delegado Mello Noronha. Ao contrrio de Noronha,
Valdir Calixto  exageradamente organizado. Gosta das gavetas arrumadas, dos papis em ordem sobre a mesa e dos fichrios em ordem alfabtica.
   Como Noronha  exatamente o oposto, todos os dias Calixto  compulsado a recompor as pastas espalhadas durante a vspera. O que aborrece o inspetor  o fato de
Noronha culp-lo pelo sumio de qualquer documento. Depois de encontrar o arquivo no lugar onde o delegado o enfiou, ainda tem de ouvir o eterno resmungo ranzinza:
"Eu sabia. Foi voc!". Valdir Calixto nem se d mais o trabalho de protestar.
   H outro motivo para ele chegar bem cedo nesse dia. Quer ler o jornal antes que Mello Noronha o destrua.  impossvel l-lo depois dele. Noronha arranca pginas,
amassa as notcias, demole as manchetes. E o delegado no admite que algum o folheie antes. Calixto desenvolveu uma tcnica especial para redobrar as pginas sem
deixar marcas, a no ser as da dobradura original. Se, acidentalmente, provoca algum vinco suplementar, ele passa o jornal a ferro.
   Seu interesse especial na edio desta quarta-feira refere-se aos anncios que oferecem quartos. Agora que Calixto completou vinte e oito anos, sua adorada me
decidiu que  hora dele ir morar sozinho.  um passo difcil, porm a determinao materna  irredutvel. Ele coloca o peridico em cima da larga mesa de reunies
e, com os olhos rasos d'gua, comea a ler os reclames que cobrem a primeira pgina do Jornal do Brasil.
   - O que  que voc est fazendo com o MEU jornal?! - berra, da porta, Mello Noronha, com um senso de propriedade maior que o do conde Pereira Carneiro.
   Com o susto, o aterrorizado Calixto quase arranca a pgina fora.
   - Nada, doutor, eu nem abri. Eu s estava procurando...
   - No interessa! Ningum l antes de mim!
   - Nem depois... - atreve-se a dizer o subalterno.
   Tobias Esteves, que assiste da porta  cena, solta uma gargalhada.
   - Tem piada... Est certo o Calixto, senhor doutor delegado. Do jeito que ficam os dirios depois que os pega, se calhar no servem nem pra forrar galinheiros.
   As Esganadas
   As Esganadas
   Percebendo que a folha est intacta, e meio acanhado pela presena de Tobias, Noronha se d conta do exagero.
   - Se voc est buscando alguma coisa, basta pedir - ele concede, devolvendo o jornal com relutncia.
   - Estou procurando moradia. Minha me resolveu que  hora de eu sair de casa. - Ele aponta para uma das minsculas ofertas: - Esta aqui parece tima.
   Esteves empresta seu sotaque  leitura das letras pequenas:
   - "Aluga-se, a senhor distinto, quarto de frente, mobiliado, com penso, em casa de famlia mineira. Todo o conforto, no falta gua e tem telefone. Avenida Passos,
34." - Tobias faz uma pausa dramtica e carrega na inflexo, olhando para Noronha: - "Exigem-se referncias".
   - No tem problema, Valdir, pede pro Filinto Mller... - brinca o delegado, vingando-se de Calixto.
   - Prefiro a sua recomendao, doutor - afirma o policial, entregando o jornal a Noronha.
   O superior recusa, com um muxoxo de criana birrenta.
   - Agora, pode ler. No quero mais, voc estragou o meu prazer.
   Tobias Esteves disfara o riso, ante o exagero de Noronha. Calixto aproveita-se da situao para folhear o dirio com todo o cuidado. Sabe que o delegado no
vai aguentar muito tempo sem procurar as notcias do dia.
   No mesmo instante em que Mello Noronha tenta acender um dos temveis charutos, sua bela Yolanda adentra o gabinete. Est deslumbrante, num tailleur azul-escuro
estilo Chanel, boina da mesma cor, o pescoo enfeitado por um fino fio de prolas. Ato contnuo, Noronha apaga o fsforo e guarda o Panatela. Esteves levanta-se
para saud-la:
   - Imenso prazer em rev-la e, se o marido me permite o elogio, linda e elegante como sempre.
   - Nem tanto. Preciso perder dois quilos.
   Tobias Esteves pontifica sobre o assunto:
   - Senhora dona Yolanda, se me permite, sua declarao tem uma caracterstica universal. Toda mulher do mundo acha que precisa perder dois quilos. O que disse
j foi repetido em todas as demais lnguas faladas no dito mundo civilizado. Sabe como a mulher chega a esta concluso? Observando-se nas fotos. No espelho, ningum
se v como realmente . Diante do espelho, acontece uma correo inconsciente do corpo, e ela apresenta o melhor ngulo de si mesma.
    Numa fotografia, as pessoas aparecem chapadas no papel. Ningum faz de si uma imagem real. Nos achamos um pouco melhores do que somos. Por isso  to comum ouvir-se
a frase: "Estou horrorosa nesta foto!". Geralmente, no  verdade. De modo que posso garantir  senhora, dona Yolanda, que a sua beleza  irreprochvel.
   - Muito obrigada, seu Tobias, mas a verdade  que eu preciso perder dois quilos.
   Dizendo isso, Yolanda vira-se para o marido:
   - Antenor, desculpe vir te incomodar no trabalho, amor, mas meu dinheiro acabou.
   - Antenor? - pergunta Tobias, surpreso.
   As Esganadas
   As Esganadas
   -  meu nome de batismo - explica, emburrado, o delegado, que odeia ser chamado assim. - Pra que  que voc precisa de dinheiro agora?
   - Eu tenho de comprar uma nova droga pra emagrecer que est fazendo o maior sucesso.
   - Que remdio  esse? - indaga Noronha, levando a mo  carteira.
   - So umas plulas que s vendem numa farmcia de manipulao aqui no centro. Parece que o resultado  fantstico.
   Calixto, que continuou lendo, entra na conversa.
   - Puxa, dona Yolanda, olha s que coincidncia. Acabei de ler um anncio de remdio. Ser o mesmo? - ele pergunta, mostrando o jornal.
   - Caralluma fimbriata... Onde  que eu vi esse nome? Ser um remdio que a minha me toma pros nervos?
   Noronha arranca a pgina das mos de Calixto:
   - No, meu amigo, eu tambm j vi esse nome e acho que sei onde foi. Calixto, voc  um gnio.
   - Eu!?
   - . De hoje em diante, est autorizado a ler o jornal antes de mim.
   - Obrigado, doutor - agradece Valdir Calixto, sem entender.
   Noronha pega o telefone e liga para o laboratrio da Polcia Tcnica.
   - Por favor, o professor Pelegrino.  o delegado Mello Noronha.
   Alosio Pelegrino atende:
   - Fala, Noronha.
   -  o seguinte, Alosio: por acaso um dos componentes achados nas plulas do quarto da alem era uma tal de Caralluma fimbriata?
   - Era.
   - Pra que serve?
   - No meu entender, pra nada. Est muito em moda, alguns charlates a vendem como moderador de apetite.
   - E adianta?
   - Se adiantasse, a alem seria magra.
   - Tem efeitos colaterais?
   - s vezes provoca acidez no estmago, reteno de lquido e inchao.
   - Ento, em vez de emagrecer, a gorda incha?
   - Em alguns casos.
   - D pra verificar se tinha o mesmo componente nos frascos encontrados nas casas das outras vtimas?
   - S um instante.
   No espao de tempo em que Alosio Pelegrino se afasta do aparelho para verificar seus arquivos, Noronha conta a descoberta aos outros. O cientista volta ao telefone:
   - Noronha, voc est certo. Alm da Caralluma, a mesma mixrdia consta nos rtulos dos frascos achados nos quartos de todas elas. So vrias ervas inofensivas,
como a cscara-sagrada.
   - Cscara-sagrada? Serve pra qu?
   - No mximo, pode causar clicas e diarreia. Em
    vez de cscara-sagrada, o nome melhor seria "cscara-cagada".
   - Obrigado, Alosio. Voc foi de grande ajuda.
   - No, Noronha, eu cometi uma falha. Eu devia ter analisado essas porcarias assim que chegaram ao laboratrio. No dei importncia, mas vou corrigir isso j.
Se os meus amigos do fbi soubessem, nunca me perdoariam.
   Noronha desliga o telefone e vira-se para Yolanda, Esteves e Calixto.
   - Agora temos um denominador comum a todas as vtimas. - Ele mostra o anncio. - As sete gordas eram clientes do famoso "Professor" Pedregal.
   Yolanda conclui, um tanto decepcionada:
   - Quer dizer que eu no vou poder tomar a tal plula pra emagrecer?
   Nesse momento, Diana abre a porta e emenda:
   - Algum falou em emagrecer? Preciso perder dois quilos.
   A excitao da descoberta toma conta do grupo. Noronha mastiga a ponta do charuto apagado, Calixto dobra o jornal, Yolanda abana-se, Diana fuma e Esteves, como
 de seu costume em situaes de tenso, murmulha andando em crculos pela sala. Finalmente, ele sugere o bvio:
   - Primeiro temos que fazer uma visita a esse Professor Pedregal do Beco dos Fgaros.
   - O senhor no quer dizer "Barbeiros"? - sugere o educado Calixto.
   -  a mesma coisa - vocifera Noronha.
   - Talvez seja melhor a gente chamar a Polcia Especial - prope o cauteloso Calixto.
   - Pra qu? Pra fazer papel de bobo?
   - O homem pode ser perigoso, doutor Noronha.
   - Duvido que ele seja o assassino, no ia sair matando a prpria clientela. Nem que fosse portugus! - gafa Noronha.
   Absorto em seu raciocnio, Esteves nem se d conta do deslize do amigo:
   - Parece-me que o mais lgico  que o psicopata esconda-se no beco a escolher as vtimas. De l, ele as segue e as sequestra, metendo-lhes clorofrmio s narinas.
Resta saber como as recolhe e pra onde as leva sem levantar suspeitas. Antes de conceber um plano, faz-se necessria uma visita ao intrujo.
   - A quem? - pergunta Calixto.
   - Ora pois, ao farmacopola - explica Tobias Esteves, deixando Calixto na mesma.
   - Um momento! - manifesta-se Diana. - Vocs no vo conseguir nada indo l. Toda a propaganda do charlato se dirige s mulheres.  muito melhor eu ir investigar
e ver o que ele vende.
   - E eu tambm vou - afirma Yolanda.
   Indiferentes aos enrgicos protestos do delegado e de Tobias, as duas esto irredutveis.
   - Vocs ficam tomando um cafezinho no caf Globo, aquele boteco da Primeiro de Maro que  perto do
    Beco dos Barbeiros, enquanto a gente vai l agora -
    decreta Yolanda.
   - Em princpio, concordo com as meninas; com tanto entusiasmo, resistir quem h-de? Contudo, no se pode desprezar o perigo que as duas esto a correr.
   - No se preocupem - tranquiliza-os Diana. - Vocs se esqueceram daquela senhora que me protege?
   - Que senhora? - perguntam, ao mesmo tempo, Noronha e Tobias Esteves.
   - A Derringer - responde Diana, puxando da bolsa a pequena pistola de cano duplo. -  o meu anjo da guarda, mais guarda do que anjo.
   As Esganadas
   30
   Homero Aguilera Pedregal viera de Encarnacin, no Paraguai, para o Brasil na virada do sculo. Atravessara a fronteira, ilegalmente, ainda no colo de sua me,
a cigana Jimena Espinoza. Jimena tocava harpa no trio paraguaio Los Peruanos. O nome do trio permanece um mistrio. Sabe-se que Jimena amancebou-se com o flautista
Ral Oviedo, lder do conjunto, aps ter sido espancada durante anos, com regularidade, pelo marido.
   O trio obtivera relativo sucesso apresentando-se nos garimpos de Baliza, em Gois. Durante o dia, Jimena lia a buena-dicha nas mos calejadas dos garimpeiros.
Essa atividade, mais lucrativa do que sua participao como harpista no trio, criara certa desarmonia no grupo. O violeiro Chucho Oviedo, comunista foragido que
se destacava na execuo das polcas paraguaias pelos sons emitidos num rpido tremular da lngua contra o cu da boca, socialista convicto, argumentava, no sem
certa lgica, que a quiromancia praticada por Jimena s era possvel graas  presena dos trs. Jimena contra-argumentava lanando-lhe pragas em dialeto romani.
   A infncia do pequeno Homero fora atribulada. Ele no tinha vocao para a msica; alis, odiava particularmente os guinchos produzidos pela juno da harpa com
a flauta, a viola e a lngua paraguaia.
   Aos quinze anos, Homero encontrara o ndio Kuiussi-er, banido de sua tribo por falsa pajelana, e com ele estudara a utilizao de vrias ervas para a cura de
diversas doenas. Todas se revelaram ineficazes. Mesmo assim, Homero intura que o aprendizado adquirido com Kuiussi-er poderia ser de grande valia no futuro.
   Depois de esgotar a pacincia dos garimpos, o trio chegou ao Rio de Janeiro, onde se desfez. Desfez-se tambm o concubinato entre Jimena e Ral. O flautista e
o violeiro conseguiram ingressar na orquestra latina de Xavier Cugat, que, na poca, se apresentava em temporada no Cassino da Urca, e seguiram com a banda para
Hollywood. Chucho no tocava mais viola. Com sua lngua habilidosa, especializara-se no famoso "Huu!" dos mambos cubanos. Ral trocara a flauta pelas maracas e,
com a experincia obtida cuidando de Pedregal ainda infante, prontificara-se a zelar pelos dois cachorrinhos chihuahua do maestro.
   Quanto a Jimena, mantm-se, e ao filho, fantasiada de zngara lendo a sorte num baralho de tar nos mafus da periferia. Nas mesmas feiras onde a me atua, Homero
Pedregal inicia a prtica ilcita de misturar ervas que mal conhece e vend-las, em cpsulas de gelatina, a incautos consumidores. A ignorncia, flagelo da humanidade,
 sua maior aliada.
   Ao atingir a maioridade, Pedregal possui capital suficiente para arrendar o piso superior de um sobrado no Beco dos Barbeiros. Seu inegvel talento mercantilista
e a insipincia dos consumidores  procura de drogas milagrosas unem-se para proporcionar ao "Professor" Homero Pedregal uma prosperidade jamais imaginada.
   Pedregal usa um jaleco branco imaculado e deixou crescer um cavanhaque de pelos lisos. A tez amorenada e os olhos oblquos do-lhe o aspecto pouco confiante de
mgico chins. Hbil comerciante, o falso boticrio percebe a importncia da propaganda.  mister divulgar suas frmulas milagrosas, razo dos reclames publicados
semanalmente nos jornais. "Es un dinero bien gasto, llevando en cuenta la relacin custo-benefcio", pensa ele, ao assinar os cheques. Vrios frascos com substncias
coloridas e vasos de plantas exticas ocupam as prateleiras do notrio Herbanrio Pedregal. Completando o toque enigmtico do ambiente, h, na extremidade do balco,
um vidro de bocal largo onde se v uma serpente morta enroscada, boiando no lcool.
    a esse sobrado do Beco dos Barbeiros, semelhante a um cenrio de bairro chins em filme americano, que chegam Diana e Yolanda. Diana mostra o jornal.
   - Por favor, o Professor Pedregal?
   - Homero Pedregal, a sus ordenes, inclusive domingos e feriados, porque moro aqui mismo. Que desejam las lindas senhoritas? - oferece Pedregal, num perfeito portunhol.
   - O senhor  espanhol? - pergunta Yolanda.
   - Indiano - mente o boticrio -, pero descendente de espanholes. Mi famlia fugiu de Madri durante a Inquisio. Fueran perseguidos como brujos porque j detenan
los segredos orientales de la cura por las hierbas sagradas.
   Diana vai direto ao assunto, mentindo:
   - Ns estamos aqui porque uma amiga nossa perdeu dez quilos numa semana e garante que foi por causa dessas plulas.
   - S, s, es uma frmula indiana muy antiga, milenar!
   - S o senhor  quem vende?
   - Claro! Para preservar o segredo! Es um preparado quase milagroso!
   Yolanda intervm, pondo a teste a credibilidade do indo-paraguaio:
   - O caso  que ns no queremos emagrecer, queremos engordar.
   - No hay problema! Mis cpsulas tambin engordam.
   - As mesmas?! - pergunta Diana, incrdula.
   - S - afirma Pedregal.
   - Como  possvel? - pressiona Yolanda.
   - Es la maravilha de la ambivalncia cientfica! Primeiro es preciso ter f. Lo que muda o efeito es orientar la fora del pensamento positivo todas las manhanas
repetindo trs vezes:
   Evo! Deusas Gordas Sagradas!
   Faam-me to gorda
   Como las vacas cevadas.
   Depois de pronunciar o encantamento, Homero pega na prateleira sob o balco uma caixa com um p amarelo e completa a receita:
   - Entonces, junto com las cpsulas, quatro copos de leite y o caf da manh, tomar, diludas em suco de maracuj, duas colheres de sopa deste farelo sagrado hecho
de Sacoglottis, Uncaria tomentosa, p-de-perdiz, papircea de brosimo, guadicha de quitoco, extrato de mama-cadela y fub.
   As duas amigas mal acreditam no que acabaram de ouvir. O poder de convencimento do paraguaio quase que comprova a validade daquela panaceia universal para todos
os males.
   - E quanto custa esse preparado? - indaga Yolanda, ligeiramente enojada.
   - Muy barato. El farelo es grtis. Las cpsulas, dez mil-ris.
   Yolanda resolve regatear:
   - No d pra fazer por menos?
   - No. Mas posso aumentar o farelo.
   - Desculpe a curiosidade - pergunta Diana -, a cobra serve pra qu?
   - Pra nada - responde Homero Aguilera Pedregal. -  s decorativa.
   Diana pega na bolsa recortes de jornal sobre os assassinatos.
   - Uma amiga jornalista soube que todas essas moas tomavam seus comprimidos.
   - S. Muy triste. Eram freguesas regulares. Coisa rara, infelizmente - ele esfrega os olhos, puxando uma lgrima. - Uma baixa terrible no faturamento.
   Depois de mais algumas perguntas sobre os hbitos da clientela, Yolanda e Diana saem carregando plulas e farelos. Encontram-se com Esteves, Noronha e Calixto,
que, ansiosos, j as aguardavam na esquina.
   - Ento? - perguntam em unssono o delegado e o portugus.
   - Valeu a visita. Fizemos uma descoberta da maior importncia - revela Diana, entregando o embrulho a Mello Noronha.
   - O qu?
   - Farelo engorda.
   """"
   Assim que se afastam do Beco dos Barbeiros, Tobias Esteves convida o grupo para um almoo de pescados no famoso restaurante Albamar, na praa Marechal ncora.
O Albamar foi construdo na antiga torre do Mercado Municipal, perto da estao das barcas da Cantareira, e, alm da tima cozinha, oferece aos frequentadores a
vista magnfica da baa de Guanabara. Calixto, primeiro a consultar avidamente a lista de iguarias do cardpio, abre os pedidos:
   - De entrada, eu gostaria de um coquetel de camaro, anis de lula  milanesa e uma dzia de ostras-portuguesas, como homenagem ao seu Esteves, que est pagando.
Como prato principal, o lombo de bacalhau com batata, cebola e arroz. Capricha na posta. De sobremesa, essa torta de chocolate com sorvete de creme.
   - S isso? Voc anda inapetente? - ironiza Mello Noronha.
   - No, senhor,  que eu comi uns pastis no botequim.
   - Quando? Eu no vi voc pedir pastel nenhum.
   - Quando eu fui ao banheiro lavar as mos. A cozinha  nos fundos, e o cozinheiro  meu amigo de infncia, l do Estcio, o Manduca. Ele  filho da dona Alzena,
que era vizinha de minha me. Fazia muito tempo que a gente no se encontrava. Enquanto botava o papo em dia, ele me deu um prato de pastis de palmito. O senhor
sabe, palmito, eu no resisto.
   - Voc  do Estcio? - interessa-se Diana, amante de samba.
   - Nascido e criado. Vivia na casa do sargento Chystalino, fundador da Deixa Falar. - Ele refere-se  escola de samba. - Eu tenho samba no p, dona Diana. Alis,
foi o sargento que me convenceu a entrar pra polcia.
   - Voc queria ser o qu?
   - Costureiro.
   - Calixto, voc no cessa de me surpreender - afirma Yolanda, ligada nas revistas de moda.
   O garom serve a mesa. Noronha e Esteves, mais comedidos, dividem um prato de frutos do mar. Yolanda e Diana satisfazem-se com o Linguado  Belle Meunire.
   A conversa de Calixto com o cozinheiro do boteco desperta os neurnios do portugus:
   - Por acaso, este seu amigo nunca percebeu algo de estranho na rua Primeiro de Maro?
   - Nunca.
   - Hum. Nada?
   - Nada.
   - Hum.
   - A no ser a caminhonete da Doces Finos, que, de vez em quando, para na esquina oferecendo doces - conta Valdir Calixto, rindo e terminando de comer o bacalhau.
- O Manduca disse que  to grande que parece um rabeco branco.
   Tobias Esteves tenta lembrar-se de alguma viatura semelhante no ramo das confeitarias, porm no consegue identificar nada parecido entre os veculos dos seus
concorrentes. Desconhece a marca Doces Finos. A figura de um imenso carro branco continua a perturbar-lhe o pensamento. Contudo, h uma incongruncia na imagem que
se forma: Tobias no consegue associ-la a nada aucarado. Sbito, pipoca em sua mente, sobressaindo dentre a frota de furges, o imenso carro branco da funerria
Estige, como um lrio de brancura virginal em meio ao luto de orqudeas negras.
   - Qual doaria qual nada! Parece-me o porta-defuntos branco que estranhei quando fomos ao primeiro enterro. Depois no tornei a v-lo nos outros funerais.
   - Tobias, eu acho que as esganadas esto mexendo com a sua cabea. Como  que um rabeco de funerria pode virar balco de doces? - indaga, incrdulo, o delegado,
terminando de comer os frutos do mar.
   - Sabe-se l - responde Esteves, enigmtico, citando outra vez o bardo. - "H algo de podre no reino da Dinamarca."
   - Tambm notei, mas juro que no fui eu - afirma Calixto. - Deve ser do bacalhau.
   Na tarde da mesma quarta-feira, depois de deixar Yolanda em casa e despachar seu motorista com o pacote de inutilidades do pseudo-herbolrio para o laboratrio
da Polcia Tcnica, Noronha parte para a funerria Estige, na rua Real Grandeza, espremido no carro de Diana com Esteves e Calixto. Uma discreta inspeo da garagem
no revela a presena da inslita limusine branca.
   A visita foi sugerida por Tobias Esteves, e Mello Noronha, de m vontade, mesmo sem acreditar que aquilo fosse uma pista, concordou, devido  insistncia de Diana,
sempre  procura de ngulos para sua Leica.
   Escuta-se, ao longe, vinda do prdio, uma gravao da Messa di requiem, de Verdi. Depois de tocar a campainha insistentemente, eles so atendidos pelo sisudo
Aristarco Pedrosa, o qual indaga em tom grave e austero:
   - Que desejam? Por favor, falem baixo. Est havendo um velrio de gala no salo principal.
   Calixto benze-se, em silncio, e Noronha vai logo ao assunto, mostrando sua carteira de delegado:
   - Quero falar com o seu patro.
   - O doutor Caronte no se encontra - declara o diretor funerrio.
   - Doutor? Doutor em qu?
   - Em tanatopraxia e necromaquiagem pela Universidade de Munique - inventa o plido assistente. E dispensa os visitantes: - Com licena, ns estamos no meio da
cerimnia. No se pode faltar ao respeito com os entes queridos que no esto mais entre ns.
   Mello Noronha, com o p, impede que o homem feche a porta.
   - Um momento. Eu tambm falo pelos mortos. Trata-se da investigao sobre o assassinato de sete moas. A imprensa batizou os crimes de Caso das Esganadas. Esta
agncia cuidou de todos os enterros.  s uma rotina, mas eu tenho que interrogar o seu patro.
   - J lhe disse que ele no est! - repete Aristarco, elevando a voz.
   Tobias Esteves resolve interferir:
   - Ouve l. Como  que o senhor entra em contacto com ele em caso de urgncia?
   Aristarco responde, um sorriso maldoso nos lbios:
   - No nosso negcio no h casos de urgncia.
   Diana percebe que o fiel funcionrio no romper, sem trocadilho, seu silncio tumular. Sugere que voltem outro dia. Porm, antes que o discreto Aristarco Pedrosa
feche a porta, Calixto, intrigado, agarra a maaneta.
   - Espera a. Eu conheo voc. Sou o Vav Boas Maneiras, lembra? - diz Valdir Calixto, usando o apelido pelo qual  chamado na malandragem.
   - Nunca o vi mais gordo - afirma Aristarco, tentando trancar a porta.
   Calixto insiste, mais seguro de si:
   - Conheo, sim, s que por outro nome.
   - Impossvel.
   - E de outro bairro.
   Os circunstantes observam que uma fina camada de suor poreja do rosto de Aristarco.
   - Posso lhe falar em particular? - pede ele, quase implorando.
   Calixto leva-o pelo brao para o jardim lateral.
   - Conheo voc das madrugadas da Lapa, nos fins de semana.
   - Sou eu mesmo - confessa o assistente.
   - Custei a reconhecer. Aqui, seu jeito fica muito diferente. L na Lapa,  outra coisa. Eu lembro que no mesmo concurso de fantasias do Carnaval deste ano, que
o Madame Sat ganhou, voc desfilou de...
   - Ma do Paraso - completa Aristarco, baixando a vista, num misto de pudor e vaidade.
   - Isso! Todo enrolado numa cobra!
   - Jiboia...
   - Estou quase me lembrando do seu apelido. Como  mesmo?
   - Por favor, seu Vav, o apelido no.
   - Cu de Veludo!
   - Se o senhor espalhar isso, destri a minha reputao.
   - Pode ficar tranquilo, que a sua vida secreta no sai daqui - afirma Calixto, passando o dedo sobre os lbios cerrados. - Voc tem muito talento. Ainda me lembro
de voc desfilando na passarela e cantando a marchinha do Ary Barroso:
   Eu dei...
   O que foi que voc deu, meu bem?
   Eu dei...
   Guarde um pouco para mim tambm.
   No sei...
   - T bom, seu Vav, chega. Muito obrigado por guardar o meu segredo. Sou seu eterno devedor!
   - Mas, em contrapartida, voc tem de me dizer onde  que est o seu patro - cobra Valdir Calixto.
   - E eu sei l da vida desse homem? - esgania Aristarco, desmunhecando de vez. - Ele est cada vez mais esquisito, me deixa cuidando de tudo e desaparece durante
dias! Daqui e da casa dele, aqui ao lado. Quando vem, fica se escondendo nas sombras, parece o Bela Lugosi - ele explode, referindo-se ao Drcula do cinema. - Est
me deixando doida!
   - Voc no faz a menor ideia de onde ele pode estar?
   - Nem morta. Uma amiga minha, a Ivone, travesti cabeleireira da rua Sotero dos Reis, jura que, volta e meia, ele passa por l de noite, guiando a mil aquele furgo
branco que ele adora. Eu acho um horror. Onde  que j se viu defunto entrar de lado?
   - Voc jura que  s o que voc sabe?
   - Por so Aristarco, meu santo onomstico. Agora, se me d licena, tenho que ir dar sequncia ao velrio. Est na hora dos canaps.
   - Canaps?
   - Claro, amor, com Dry Martini, tudo muito chique. O enterro aqui   la carte.
   Cu de Veludo afasta-se e, a cada passo que d, vai se metamorfoseando outra vez no circuncisflutico diretor funerrio Aristarco Pedrosa.
   Calixto aproxima-se do grupo.
   - Ento? - pressiona Noronha, ansioso.
   - Vocs so amigos? - pergunta Diana, louca para fotografar Aristarco ao lado de Calixto.
   - Ele disse algo que preste? - quer saber Tobias Esteves.
   - Nada. S que a viatura branca pode ter sido avistada pelos lados da Praa da Bandeira. Mesmo assim, no  certo. O... diretor me disse que o homem tem ficado
muito tempo sem aparecer por aqui e na casa dele - informa o discreto Calixto, apontando a manso colada  funerria.
   - Isso e nada  a mesma coisa - irrita-se o delegado.
   Tobias Esteves aplica novamente a lgica de Ockham:
   - Ele c no vem. A casa, tambm no vai. Logo, s pode estar em outro stio.
   Noronha perde a pacincia:
   -  bvio!
   - Meu caro senhor doutor delegado, nunca subestime o poder do bvio - responde Tobias, afastando-se meditabundo.
   Diana pergunta a Calixto, curiosa:
   - Como  que nasceu essa amizade entre voc e esse Aristarco?
   - A gente frequenta a mesma igreja - mente Calixto.
   - Vem c, qual  o mistrio terrvel que voc conhece dele? Como  que voc sabe que ele no escondeu nada?
   - Por causa do apelido.
   - Qual  o apelido?
   -  um segredo que jurei levar pro tmulo - declara, solene, Valdir Calixto, porm no consegue deixar de repetir mentalmente: "Cu de Veludo! Cu de Veludo! Cu
de Veludo!...".
   As Esganadas
   31
   O espao dedicado ao Caso das Esganadas na imprensa  cada vez menor. H mais de quinze dias que o assassino no exerce sua tarefa hedionda. A notcia sensacionalista
que ocupa a primeira pgina dos jornais nesta sexta-feira  a morte de Lampio e Maria Bonita com mais dez cangaceiros na fazenda Angicos, em Sergipe. A realidade
dos cangaceiros no cativa o delegado Mello Noronha, animal tipicamente urbano. Republicano convicto, pouco se lhe d que Lampio seja o rei do cangao ou o prncipe
da caatinga.
   Descobrir o monstro responsvel pela chacina das gordas transformou-se em obsesso. Noronha no consegue pensar em outra coisa. Passa em revista os ltimos acontecimentos.
 clara a ligao existente entre as cpsulas "milagrosas" do Professor Pedregal e as vtimas. Ele no manda prender o charlato imediatamente, na esperana de que
o lugar sirva de isca para o assassino. Na verdade, as investigaes do Caso das Esganadas mostraram que as gordas foram abduzidas em locais diferentes, porm o
instinto lhe diz que no deve negligenciar essa possibilidade. Estranha o desaparecimento do papa-defuntos, mas no considera, como suspeito de crimes to horripilantes,
o dono da maior funerria do pas. "Qui da Amrica do Sul!", ele berra para a sala vazia.
   Nove dias aps a visita ao paraguaio, no final da tarde prematura de inverno Noronha observa da janela o pr do sol que colore a cidade em tons de rosa. Como
ele esperava, o resultado das anlises das ltimas amostras recolhidas na botica do farsante Pedregal no revelaram nada de novo. "A no ser o farelo", conta Alosio
Pelegrino por telefone. " fub de tima qualidade, vou levar pras minhas galinhas", brinca o professor, desligando.
   Desde a ida  funerria, Noronha no se encontra com Tobias Esteves. O portugus desculpou-se, alegando reunies marcadas com os gerentes da empresa, que reclamam
sua presena. Prometeu voltar a v-lo o mais breve possvel. Faz falta ao delegado a companhia do amigo recente. Mello Noronha acende um Panatela e afunda na sua
poltrona.
   """"
   Diana de Souza Talles aproveitou os dias sem novidades na investigao para atualizar seu passaporte. Renova o visto francs e est pronta para ocupar o posto
de correspondente internacional do Correio da Manh, em Paris. Costa Rego entregou-lhe a credencial de reprter e fotgrafa; ela pode partir a qualquer momento.
Diana gostaria de embarcar s depois que fosse desvendado o misterioso Caso das Esganadas. Pensa em Tobias Esteves, no sabe por onde ele anda. Acha pura inveno
a histria das reunies com gerentes. Imagina, no sabe bem por qual razo, que Tobias esteja preparando algum plano arriscado. Teme por ele.  certo que sentir
saudades daquela turma, principalmente do gorducho detective.
   Quando a Alemanha anexou a ustria, em maro, mesmo os analistas polticos mais otimistas viram a Anschluss apenas como um ensaio das pretenses invasoras de
Hitler. A apreenso aumenta nos pases europeus devido s reivindicaes dos sudetos alemes na Tchecoslovquia. Na Espanha, apoiados pelos "voluntrios" alemes
da Legio Condor, os fascistas continuam ganhando terreno. A ameaa de uma guerra na Europa torna-se evidente.
   """"
   Calixto  o mais preocupado dos trs. Todavia, o motivo da sua inquietao est bem longe do cenrio internacional. O que aflige o dedicado policial diz respeito
 Portela, escola de samba do seu corao. A escola amainara a tristeza provocada pela extino da Deixa Falar, no Estcio. Mostrando grande habilidade como passista,
Calixto ser promovido a mestre-sala da Portela no prximo Carnaval.
   Em fevereiro, Valdir Calixto desfilou pela primeira vez, mas no houve premiao para nenhuma das vinte e seis agremiaes que se apresentaram debaixo de uma
tempestade. O temporal impediu que a Comisso Julgadora, nomeada pela prefeitura e pela Unio das Escolas de Samba, chegasse ao local. Calixto estava to interessado
na situao europeia quanto Noronha na morte de Lampio. O que o atormentava era a possibilidade de outra borrasca atrapalhar o desfile no ano seguinte.
   Sbado  noite, Tobias Esteves vai ao teatro Recreio assistir  revista portuguesa Olar quem brinca!, estrelada por Vasco Santana, conhecido de Esteves h muitos
anos. No elenco, a fantstica Mirita Casimiro divide as atenes com Vasco. Grande sucesso de bilheteria, a pea atingiu a marca de cinquenta mil espectadores. Terminado
o espetculo, Tobias dirige-se aos bastidores para cumprimentar o amigo. O camarim est cheio de gente importante da colnia portuguesa, inclusive o embaixador Martinho
Nobre de Melo, a quem Esteves  apresentado como importante empresrio da indstria alimentcia, proprietrio da rede Regalo Luso.
   - Sabe-me muito bem o seu Toucinho do Cu - elogia o embaixador.
   Vasco omite a prvia atividade de Esteves como policial em Lisboa, demitido aps o escndalo do falso suicdio de Aleister Crowley na Boca do Inferno. Afinal,
o embaixador  representante do governo salazarista que o afastou do cargo.
   Tobias congratula Vasco Santana e a atriz Mirita Casimiro pelo esplndido desempenho.
   - Fartei-me de rir - garante ele.
   O embaixador despede-se de todos, e pouco a pouco os visitantes esvaziam o recinto.
   Para surpresa do ator, assim que os dois ficam a ss, Tobias Esteves tranca a porta do camarim. Aproxima-se do amigo e segreda-lhe quase ao p do ouvido:
   - Tudo que for dito aqui h de ficar entre ns.
   Duas horas da madrugada. A fachada est s escuras quando Tobias Esteves deixa o teatro Recreio.
   As Esganadas
   32
   Desmentindo os servios de meteorologia, que previram nebulosidade e baixa temperatura, o cu azul sem nuvens clareia a tarde de domingo. Na ilha de Paquet,
as crianas passeiam de bicicleta sob a vigilncia atenta dos pais, e no Distrito Federal as famlias lotam os parques, com suas cestas de piquenique sobre toalhas
quadriculadas, transformando o Rio de Janeiro num imenso banquete campal.
   Caronte tambm tem fome.
   Seu apetite  diferente, jamais satisfeito por meros sanduches. Cada vez mais, necessita trinchar, destrinchar e destripar sua me reencarnada nas gordas. Reduz-se
o espao de saciedade entre os esplios. A premncia faz com que ele seja menos cuidadoso. Caronte precisa apascentar seu desejo. "Hoje, o populacho foi  praia
aproveitar o sol. O centro est vazio, o comrcio, fechado, a no ser aquele que me interessa. O gringo trapaceiro  to ganancioso que abre at aos domingos e feriados.
So os dias mais movimentados da loja, porque, durante a semana, as gordas tm vergonha de serem vistas indo comprar remdio pra emagrecer. Nem sei por que tomo
tanto cuidado. A polcia  idiota demais pra desconfiar de mim", tranquiliza-se, abrindo a porta lateral do furgo branco estacionado na esquina da rua Primeiro
de Maro com o Beco dos Barbeiros.
   Caronte gira, para fora do carro, a prancha repleta de doces. A isca est armada. Paciente, como bom caador de grandes presas, ele aguarda encoberto pelas sombras
do beco.
   """"
   A gorda chega toda pimpona, bamboleando seu corpanzil. Vindo da rua do Carmo, ela encaminha-se, quase saltitante, para o nmero 13 do Beco dos Barbeiros. Veste
uma saia vermelha plissada que lhe acentua o volume da barriga e reala a alvura das pernas rolias. Uma extravagante blusa azul de bolas amarelas e sapatos brancos
de salto alto completam o figurino. Ao contrrio das magras, que sempre se acham gordas, as gordas vestem-se como se fossem magras. Os cabelos negros e longos e
as faces rosadas do-lhe uma aparncia jovial.
   Alheia  armadilha preparada, seus olhinhos cintilam ao ver a prateleira repleta de petiscos na esquina oposta. Passa direto pela arapuca incua do paraguaio
para cair numa cilada mortal. Est quase chegando ao tabuleiro tentador, quando um vulto sai das sombras e cobre-lhe o nariz com o leno embebido em clorofrmio.
A gorda desaba to rapidamente que Caronte quase no consegue segur-la. Com medo de ser avistado, arrasta-a sem demora para o furgo e a deita na prancha mvel,
estendendo uma mortalha sobre ela. Fecha a porta lateral e recolhe a carga. Assegurando-se de que ningum acompanhou a operao pelas janelas da vizinhana, ele
sai, em alta velocidade, pela Primeiro de Maro.
   Esquecendo-se da prudncia, Caronte entra rangendo pneus na rua Buenos Ayres. Ele segue atravessando a cidade quase deserta, sem dar ateno aos cruzamentos.
Vez por outra, lana, pelo espelho retrovisor, um olhar displicente para a gorda imvel estirada na parte de trs do veculo.
   A anteviso do que pretende fazer deixa-o excitado. Ele pensa que o plat du jour do seu cardpio de horrores requer uma imaginao de Jlio Verne. "Ou dos Irmos
Grimm", diz, e solta uma gargalhada insana.
   Caronte alcana a praa da Repblica e contorna  esquerda. A ausncia de trnsito permite que ele acelere ainda mais.
   Vira  direita na continuao da Visconde do Rio Branco, refazendo, como um autmato, o caminho percorrido centenas de vezes.
   Finalmente, na altura da Mariz e Barros, ele entra na rua Elpdio Boamorte.
   Como de hbito, quando chega ao antigo matadouro, Caronte ri, refletindo na inadequao do nome daquela rua para as vtimas. As mortes que ali ocorrem nada tm
de boas.
   Depois de entrar com o carro no depsito e descer a pesada porta, Caronte corre, ansioso, para o fundo do armazm. L, lembrando os contos de fadas, v-se um
imenso caldeiro de ferro.
   O recipiente, feito de encomenda numa forja de Madureira, repousa sobre uma serpentina a gs das mesmas propores. O duto metlico retorcido em vrias espirais
tambm foi desenhado por Caronte. Ele vai direto ao aparelho e acende a serpentina para esquentar o lquido contido naquela absurda bacia.
   Depois dessa manobra, dirige-se ao carro funerrio e escancara a porta lateral. De um s golpe, arranca a mortalha que cobre o corpo inerte.
   Qual no  sua surpresa quando a gorda empurra-o com os ps, gil e desperta. Por um instante, sua confiana  abalada pelo susto. Refeito, ele volta ao ataque,
mas a gorda j pulou fora do carro e salta-lhe em cima. Os dois rolam no frio piso de cimento. Num gesto simultneo, agarram-se pelos cabelos. Para espanto de ambos,
eles seguram nas mos duas perucas, a da suposta vtima deixando ver a brilhante cabeleira do inspector Tobias Esteves, e a de Caronte pondo-lhe  mostra a calva.
A sndrome de Nagali levou-lhe os ralos fios que restavam e devastou sua pele com manchas indisfarveis pela maquiagem.
   Impossvel dizer quem se assusta mais, Caronte ao ver a transformao da gorda, ou o detective ao perceber que o dono da funerria, careca, de olhos esbugalhados,
envelheceu vinte anos.
   Tobias no perde tempo:
   - Com a autoridade que me foi concedida pelo delegado Antenor Mello Noronha, dou-lhe ordem de priso!
   Em vez de atender ao comando, Caronte, possudo pela fria da loucura, pendura-se num dos ganchos que pendem do teto do matadouro e, impulsionando a carretilha
nos trilhos, lana-se sobre Esteves. Este se desvia e puxa o assassino desvairado para o cho. Para no cair, Caronte firma-se na saia plissada de Esteves. Sua surpresa
 ainda maior quando a saia se desprende entre suas mos, revelando a generosa genitlia do portugus. Esteves no usa nem nunca usou cuecas. Prefere seus rgos
genitais balouando em liberdade.
   Tobias livra-se da blusa e dos sapatos de salto alto e aproveita o impacto causado em Caronte pela viso da sua anatomia avantajada para rasgar uma larga faixa
da mortalha deixada no carro e pass-la entre as pernas. Amarra as duas pontas da tira dilacerada no abdmen. A cachopa portuguesa transforma-se em lutador de sum.
Agora est pronto para a luta, jamais combateria com as partes pudendas desguarnecidas.
   Recuperado do abalo, Caronte atira longe a saia e ataca, empunhando um dos ganchos que serviam para deslocar carcaas no antigo matadouro. Esteves ouve um rudo
de gua borbulhando e desvia a vista para o caldeiro. Um forte odor de tempero toma conta do armazm. Tobias reconhece-o imediatamente. Caronte segue o olhar do
inimigo e percebe, sorrindo com seus dentes falsos, que ele identificou o cheiro provindo da tina.
   - Gosta da receita? Era da minha me. Seria de gorda pra gorda, mas vou ter que me contentar com voc - diz ele, lanando-se, enlouquecido, sobre Tobias.
   Com agilidade insuspeita para um homem de seu porte, Esteves desvia-se, deixando Caronte chocar-se com o carro. O gancho crava-se no para-brisa do veculo, estilhaando
o vidro e desequilibrando o atacante.
   -  a minha vez. Deixe-me apresent-lo  arte marcial lusitana: a galhofa - anuncia Tobias, puxando o inimigo pelos bolsos da cala.
   Ele toma impulso, rodopiando tal qual um pio, e joga Caronte longe, como a um boneco desarticulado. Aturdido, o assassino esparrama-se no solo macio. Esteves
avizinha-se, perorando sobre a histria do combate luso:
   - A galhofa  uma luta corpo a corpo de origem cltica, mas praticada principalmente em Bragana, onde fui campeo regional. Salazar proibiu as competies, pois
a luta  muito perigosa, mas, mesmo assim, continuamos a pratic-la.  to violenta que as mulheres no podem assistir.
   - Violenta por qu? - pergunta o abestalhado assassino, sem conseguir levantar-se.
   - Porque, toda vez que atiramos o oponente ao solo, partimos pequenos ossos dele. Ele demora a se dar conta disso e, quando percebe, no pode mais se mover.
   Esteves agarra-o novamente, desta vez pelo cinto, e, num movimento giratrio do corpo, joga-o mais longe ainda. Urrando de dor, Caronte arrasta-se com dificuldade
em direo  tina quase incandescente. Pelo barulho, nota-se que o lquido l dentro est fervendo, e comea a transbordar com um cheiro forte de alho e cebola.
   - A palavra galhofa, em lngua lusitnica, significa "alegria marcial", e tu nem podes imaginar a alegria que ests a me dar neste momento.
   Tobias Esteves avana sobre Caronte, implacvel como um samurai de Trs-os-Montes.
   - Antes mesmo de Salazar, em tempos no muito recuados, devido  represso cultural, sociopoltica e, principalmente,  Inquisio da Igreja Romana, a galhofa
quase desapareceu.
   Os olhos vidrados de Caronte denotam seu total desinteresse pelo assunto. Ele comea a sentir dores por todo o corpo malhado. Procura se afastar o mais que pode
daquele oponente, que mostra a tenacidade de uma lagosta. Tobias Esteves segue investindo e dissertando, saudoso:
   - Fazem-me falta os encontros secretos,  meia-noite, nos currais, sobre a palha fresca, quando esborrachava lutadores descalos, com camisas e calas velhas...
   Esteves tenta segurar Caronte, literalmente, pelos colarinhos. Pretende aplicar-lhe o "torniquete galego", o qual imobiliza o adversrio sem mat-lo.
   Reunindo o que lhe sobra de energia, Caronte ergue-se com um esgar de sofrimento e, para surpresa de Tobias, consegue cobrir a pequena distncia que o separa
da tina efervescente e atira-se no fluido escaldante do caldeiro. Jamais o pegaro vivo.
   Quando o assassino de gordas est prestes a submergir no lquido denso, Esteves ainda o escuta gritar:
   - voc venceu, mameee! morro no teu caldeiro, bruxa filha da puta!
   Essas foram as ltimas palavras de Caronte Barroso, infeliz proprietrio da funerria Estige, antes de morrer afogado no prato favorito de sua me, Odlia Barroso.
O Caldo Verde.
   As Esganadas
   33
   Comea a anoitecer e os homens da Polcia Tcnica, sob o comando do professor Alosio Pelegrino, ainda vasculham o antigo matadouro convertido em museu de horrores.
Marcas antigas de sangue coagulado, correntes e ganchos pendurados contrastam com o belo piano Pleyel de cauda inteira disposto no centro do galpo. Em outro espao,
onde antes eram recolhidas as entranhas dos animais, h uma moderna mesa de autpsias. O corpo de Caronte continua boiando na quantidade surrealista de Caldo Verde.
O tamanho da tina  proporcional  insanidade do psicopata.
   O legista Ignacio Varejo, aborrecido por ter sido convocado no domingo, recusa-se a examinar o cadver no local.
   - Sou mdico, no sou cozinheiro - sentencia ele, girando nos calcanhares. - Aguardo o corpo no iml.
   Dois de seus auxiliares retiram o morto do caldeiro utilizando o mesmo guindaste de que ele se servia para levantar suas vtimas. De fato, no  uma tarefa agradvel.
Pedaos de legumes e de toucinho picado prendem-se nas suas roupas, transformando Caronte num defunto temperado.
   O delegado Mello Noronha e toda a sua equipe chegaram vinte minutos depois do telefonema de Tobias Esteves, que usou o aparelho instalado na parede. Apesar de
estranhar o pedido de Tobias, Noronha passou em sua casa e trouxe-lhe uma muda de roupa. Ao ver o portugus em cueiros, ele entende por qu.
   Diana no perde a ocasio de fotografar Esteves naqueles trajes. Calixto procura no olhar para o portugus transmutado em gigantesco beb. Sobretudo porque Esteves
raspou os pelos das pernas e dos braos. Impaciente, Mello Noronha quer saber todos os detalhes.
   - Elementary, my dear Noronha - comea Tobias Esteves, parodiando Sherlock num ingls impecvel. - No foi  toa que Fernando Pessoa ps-me a alcunha de "Esteves
sem metafsica". Para mim, a investigao policial baseia-se no raciocnio mais simples, sem divagaes. O que eu sabia por suposto era que o anmalo no conseguiria
ficar muito tempo sem dar vazo a sua necessidade quase fisiolgica. Pareceu-me lgico que o melhor posto de observao pra escolher as suas vtimas seria nas imediaes
do ilusrio Herbanrio Pedregal, uma vez que todas as pobres gordas eram freguesas do "Professor". Quanto ao assassino, comecei a suspeitar dele quando soubemos
pelo seu diretor funerrio que ele l no ia nem a casa. Se bem se lembra, senhor doutor delegado, disse-lhe na hora um fragmento bvio da Navalha de Ockham: se
l no vai, nem a casa, tem que estar em outro lugar.
   - E eu lhe disse que era bvio! - recorda Noronha.
   - Nem tanto assim, delegado. Uma pessoa que no est fugindo no se esconde sem motivo, a no ser que sua aparncia seja to repulsiva que ela no queira ser
vista. Foi quando lembrei-me do que disse o italiano abusado sobre a sndrome de Nagali. Precisava obrigar o senhor Caronte a mostrar-se. Se eu estivesse certo ao
unir a rotina das gordas  necessidade cada vez mais premente do assassino, imaginei que a melhor maneira seria pr-me de isca no Beco dos Barbeiros.
   - E o disfarce? Onde arranjou o disfarce? - indaga Diana, examinando as roupas, os sapatos e a peruca, sem conseguir apagar da memria a imagem dele de tanga.
   - Isso foi fcil. Fui procurar meu amigo Vasco Santana, que est em temporada no teatro Recreio com uma revista portuguesa de muito sucesso.
   - Eu assisti. Olar quem brinca! - diz Calixto.
   - Como? Quando? A que horas? Com quem? - Noronha pergunta, desconfiado.
   H semanas quer ir ver o espetculo, mas Yolanda se recusa a acompanh-lo. Acha que toda revista  chula.
   - O senhor me desculpe, doutor, mas a minha vida particular no  da conta de ningum - retruca Calixto, fingindo-se ferido em seus brios.
   Na verdade, o policial escapou de um planto e conseguiu os ingressos com a bilheteira do teatro.
   Diana volta ao assunto que interessa:
   - Estou vendo uma marca profunda na sua testa. No di?
   - Doer, di, mas valeu a pena. Foi devido ao elstico muito apertado da peruca emprestada pela Mirita Casimiro, uma atriz da companhia com quem tive um namorico
em Lisboa. Factos de um passado distante. Ela agora anda de amores com o Vasco, coisa sria. - Ele massageia o vergo, que incomoda bastante. - Isso passa. Como
diz um provrbio do Alentejo: "Quanto maior a dor, maior o alvio".
   Os ouvintes fazem uma pausa procurando entender a sabedoria do adgio.
   Tobias Esteves segue explicando:
   - Uma outra atriz, gordota, emprestou-me a saia, a blusa e os sapatos. As duas puseram-se a rir enquanto raspavam-me os pelos do corpo e o bigode. O maquiador
completou o rebuo.
   Noronha, de mau humor porque Calixto assistiu  revista e ele no, continua quase em clima de interrogatrio:
   - O que eu quero saber  como foi que voc no desmaiou com o clorofrmio.
   - Essa foi a parte mais simples do plano. Fui campeo portugus de mergulho livre em guas profundas. Por isso, na farsa preparada pra dar a impresso de que
Aleister Crowley havia se suicidado na Boca do Inferno, fui chamado a mergulhar naquele stio perigosssimo. Consigo prender o flego por trs minutos e sete segundos,
tempo que bastou pra burlar o manaco. Antes que ele me aplicasse o leno s ventas, contive a respirao at que o veculo partisse em disparada. O resto  o resto
- resume Tobias Esteves, lanando outro de seus axiomas.
   Noronha, Calixto e Diana olham-no com admirao. Finalmente,  Diana quem fala:
   - Qual foi o pior momento de todo esse episdio? O mais traumtico?
   - Foi quando raspei o bigode. - Ele passa a mo acima do lbio superior. - O bigode  como um smbolo da famlia Esteves.
   - O seu pai tambm tem bigode? - pergunta Calixto.
   - No. Minha me tinha.
   Ningum descobre se Tobias diz a verdade ou se o detective se diverte s custas deles, porque, neste momento, a equipe liderada pelo professor Alosio Pelegrino,
tendo recolhido seus equipamentos, parte para o laboratrio da Criminal. Pelegrino carrega uma redoma de vidro cheia de um lquido viscoso onde boiam os globos oculares
das vtimas. Colada na garrafa, uma etiqueta onde se l, numa escrita elegante:
   "mal  ter os olhos maiores que a barriga"
    provrbio portugus
   As Esganadas
   eplogo
   Inverno de 1938
   As gordas voltam a desfilar despreocupadas pelas ruas do Rio de Janeiro. Por ter contribudo de forma expressiva para a soluo do Caso das Esganadas, Tobias
Esteves  nomeado delegado especial agregado ao gabinete do delegado Antenor Mello Noronha, e Calixto  promovido a comissrio  disposio do delegado no palcio
da Polcia. H apenas uma nota dissonante na alegria geral. Diana anuncia sua partida para a Frana, no final do ms. Viajar no Belle-Isle, navio da Chargeurs Runis,
que far escala em Casablanca e Lisboa, antes de aportar em Le Havre.
   O cenrio europeu agravava-se. Na Tchecoslovquia, continuava a discusso sobre os sudetos alemes, os mdicos e professores judeus foram proibidos de exercer
a profisso em todo o Reich, inclusive na ustria, onde, dos mil setecentos e oitenta e sete clnicos, mil cento e vinte e sete eram judeus. Na Itlia, Mussolini
seguia com a glorificao da raa italiana e consolidava a posio germnica. O instinto jornalstico de Costa Rego lhe dizia que era hora de enviar sua correspondente
para Paris.
   No primeiro domingo de agosto, instigados pela bela Yolanda, sempre informada sobre os eventos da sociedade, eles resolvem comemorar o desfecho do caso e a despedida
de Diana assistindo ao Grande Prmio Brasil, no Jockey Clube Brasileiro.
   O presidente Getlio Vargas ocupa a tribuna de honra ao lado do embaixador da Argentina, Julio Roca. A forte aguaceira impediu sua habitual passagem pela pista,
acenando em carro aberto.
   A tarde chuvosa de inverno no combina com as flores plantadas nos chapus primaveris das beldades que desfilam pela pelouse. Yolanda porta um deslumbrante vestido
cinza, de mangas longas, combinando com um chapu de abas largas cor de vinho. Nem o maior especialista em haute couture diria que aquele modelo exclusivo do costureiro
Mainbocher nascera das mos da Ritinha do Graja. A seu lado, vestindo cala e blusa Chanel, um leno Herms no pescoo, Diana est longe dali. Sente-se dividida
entre os amigos recentes e a viagem, mas sabe que deve partir. Pensa, com carinho, no portuguesinho que acabou de conhecer, porm o esprito de aventura exerce sobre
ela uma atrao irresistvel. Em p, perto das duas, com o mesmo maltratado terno marrom, o delegado Mello Noronha apresenta um espantoso bom humor. O sucesso no
Caso das Esganadas lhe apaziguou a neurastenia. E ele sabe o quanto deve a Tobias Esteves, que, de chapu e sem bigode, parece outra pessoa.
   Calixto volta do guich de apostas trazendo as pules. Todos, menos ele, apostaram em Quati. A grande expectativa  a vitria desse puro-sangue nacional. Calixto
preferiu arriscar seu dinheiro em Pndulo.
   - Por que Pndulo? - indaga Noronha.
   - Porque minha me gosta muito de relgio carrilho.
   O delegado arrepende-se imediatamente da pergunta.
   As tribunas esto lotadas. O mau tempo no afastou os frequentadores. Finalmente, do entrada na pista os treze concorrentes da grande disputa do ano. Os cavalos
so alinhados, aguardando a ordem do starter. Como sempre, o evento  transmitido para o prado pelo renomado locutor Rodolpho d'Alencastro:
   "E ateno, foi dada a partida para os trs mil metros do Grande Prmio Brasil! Desafuero assume o comando do lote, acossado por Quati, Maritain e Mon Secret..."
   Rodolpho d'Alencastro segue narrando, mais rpido que o tropel dos cavalos. Est rouco ao narrar o trmino do preo:
   "... e cruzam a faixa final! Em primeiro lugar, o corcel argentino Pndulo, em segundo, decepcionando, a nossa grande esperana, Quati, em terceiro, Mon Secret,
seguido de Viro Puro e Maritain. Enquanto aguardamos a confirmao do resultado desta magnfica contenda, permitam-me lembrar, com todo o respeito, s senhoras que
nos ouvem. Para a mulher moderna, o Regulador Vieira,  base de fluxo-sedatina, alivia as clicas uterinas, combate as flores-brancas e evita dores nos ovrios.
A fluxo-sedatina faz..."
   Neste exato momento, o mesmo esportista amante
    das disputas no Circuito da Gvea, tambm aficionado
    do hipdromo, rasga a grande quantidade de apostas
    que fez em Quati e lana novamente o grito aos quatro
    ventos:
   - Cala a boca, veado!
   Pela segunda vez na vida, Rodolpho d'Alencastro no sabe o que falar.

   As Esganadas
   nota
   Esta  uma obra de fico.
    Os vrios personagens verdicos que permeiam
    constantemente a trama, embora inseridos no contexto
    histrico, so tratados de forma ficcional numa
    mescla de fantasia e realidade.
   As Esganadas
   bibliografia
   ald, Lorenzo. "Ossos do ofcio - Processo de trabalho e sade sob a tica dos funcionrios do Instituto Mdico-Legal do Rio de Janeiro". Orientadora: Maria Ceclia
de Souza Minayo. Dissertao de mestrado. Rio de Janeiro: Fundao Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Sade Pblica, 2003.
   baptista filho, Zito. A pera. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
   berger, Paulo. Dicionrio histrico das ruas do Rio de Janeiro: Centro, Botafogo. Rio de Janeiro: Grfica Olmpica, 1974.
   brchon, Robert. Estranho estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996.
   cruls, Gasto. Aparncia do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria Jos Olympio Editora, 1965, 2 v.
   duarte, Orlando. Todas as Copas do Mundo. So Paulo: McGraw Hill, 1987.
   ernanny, Drault. Meninos, eu vi.... Rio de Janeiro: Record, 1988.
   gerson, Brasil. Histria das ruas do Rio. 5a ed. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000.
   kushnir, Beatriz. Baile de mscaras. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
   le pileur, A. Le corps humain. Paris: Hachette, s.d.
   machado, Carlos & pinho, Paulo de Faria. Memrias sem maquiagem. So Paulo: Cultura, 1978.
   moreira de azevedo, Manuel Duarte. O Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877, v. 1.
   muylaert, Roberto. Alarm!. So Paulo: Globo, 2007.
   nery, Emmanuel. Couraa da alma. Rio de Janeiro: Expresso e Cultura, 1996.
   pessoa, Fernando. "Tabacaria". In: Obra potica. Rio de Janeiro: Companhia Jos Aguilar Editora, 1974.
   _____ & crowley, Aleister. Encontro Magick seguido de A Boca do Inferno. Compilao e consideraes de Miguel Roza. Lisboa: Assrio & Alvim, 2010.
   ribeiro couto, Rui. Poemetos de ternura e de melancolia. So Paulo: Editora Monteiro Lobato, 1924.
   scali, Paulo. Circuito da Gvea. So Paulo: Tempo & Memria, 2001.
   As Esganadas
   Copyright (c) 2011 by J Soares
   Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa
    de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
   Projeto grfico
   Kiko Farkas/ Mquina Estdio
   Capa
   Victor Burton & Angelo Allevato Bottino
   Imagem de capa
   (c) David Toase/ Photodisc/ Getty Images
   Ilustraes
   Daniel Bueno
   Carol Grespan
   Imagens
   p. 181: DR/Almada Negreiros
   p. 216: CPDoc/JB
   Preparao
   Mrcia Copola
   Reviso
   Jane Pessoa
   Ana Maria Barbosa
   ISBN 978-85-8086-128-0
   Todos os direitos desta edio reservados 
    editora schwarcz ltda.
    Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
    04532-002 - So Paulo - sp
    Telefone (11) 3707-3500
    Fax (11) 3707-3501
    www.companhiadasletras.com.br
    www.blogdacompanhia.com.br
   As Esganadas
   ndice
   Capa
   Rosto
   prlogo
   1
   2
   3
   4
   5
   6
   7
   8
   9
   10
   11
   12
   13
   14
   15
   16
   17
   18
   19
   20
   21
   22
   23
   24
   25
   26
   27
   28
   29
   30
   31
   32
   33
   Eplogo
   Nota
   Bibliografia
   Crditos
